Placa de som em 2026: o que aconteceu com a Sound Blaster, por que ela sumiu das lojas e quem ainda precisa de uma
Matéria narrada pelo Professor
Nos anos 1990 e 2000, a placa de som era peça obrigatória de qualquer computador de jogos. Sound Blaster, da Creative, e depois a linha Xonar, da ASUS, eram nomes que todo jogador conhecia. Em 2026, quem procura uma placa de som numa loja brasileira encontra pouca coisa, quase sempre modelos de 2017 a 2020, muitos esgotados. O mercado não morreu: a Creative lançou duas placas internas novas este ano. Mas o lugar da placa de som mudou. Três coisas explicam essa virada: uma decisão da Microsoft em 2007, o salto de qualidade do áudio integrado à placa-mãe e a migração do som para fora do gabinete, em DACs externos, interfaces de gravação e bases de headsets. Este artigo conta essa história, explica o que é áudio de alta resolução, esclarece o que existe de Dolby Atmos no computador e mostra para quem uma placa dedicada ainda faz sentido.
A era de ouro: quando a placa de som era obrigatória
A primeira placa a virar padrão no PC foi a AdLib, com um chip de síntese da Yamaha. Em 1989, a Creative lançou a Sound Blaster, compatível com a AdLib, mas com uma vantagem decisiva: além da música sintetizada, tocava som digital, como vozes e efeitos gravados. Custava o mesmo, US$ 239. Em pouco tempo virou a placa de expansão mais vendida do PC, e quase todo jogo lançado a partir de 1990 tinha suporte a ela.
Os números mostram o tamanho do domínio. Até 1995, a Creative havia vendido mais de 15 milhões de Sound Blasters, sete de cada dez placas de som do mercado. Em novembro de 1999, passou de 100 milhões.
O auge técnico veio com a Sound Blaster Live!, de 1998, que trazia o EAX, um conjunto de efeitos de ambiente processados pela própria placa: o eco de uma caverna, o abafado de um corredor, a reverberação de um salão. Era a chamada aceleração de áudio por hardware, em que a placa fazia o trabalho pesado e liberava o processador. A concorrente Aureal, com sua tecnologia de som 3D, venceu um processo de patentes movido pela Creative em 1999, mas gastou tanto com a briga judicial que faliu em 2000. Em 2005, veio a linha X-Fi, com um novo chip de processamento de áudio.
A virada de 2004: o áudio vai para a placa-mãe
Em abril de 2004, a Intel publicou a especificação HD Audio, de nome de projeto Azalia, que substituiu o antigo padrão AC’97 como forma de ligar um chip de som à placa-mãe. Já previa até 32 bits, 192 kHz e som 7.1. A partir daí, todo computador passou a sair de fábrica com um codec de áudio integrado, o chip que converte o som digital em sinal para fones e caixas. A Realtek, com a linha ALC, virou o nome mais comum desse componente.
Nos primeiros anos, as placas dedicadas ainda ofereciam recursos que o integrado não tinha, como os efeitos de ambiente processados pela própria placa.
A virada de 2007: o Windows Vista desliga a aceleração
O golpe mais duro veio do sistema operacional. No Windows Vista, de 2007, a Microsoft retirou a camada que permitia aos jogos usar a aceleração de áudio das placas. A documentação oficial diz que os recursos de hardware do DirectSound, a interface de áudio dos jogos, “sempre falham” no Vista: todo o processamento passou a ser feito por software.
A própria Creative explicou, na época, que os jogos com EAX passariam a tocar “geralmente em estéreo, sem efeitos”, e que nenhuma atualização de driver resolveria. A empresa lançou um programa chamado ALchemy para contornar o problema em parte dos jogos, mas a principal vantagem da placa de som para o jogador, os efeitos 3D processados por ela, deixou de existir. O motivo da mudança nunca foi detalhado pela Microsoft: há quem diga que foi por estabilidade e segurança do sistema, há quem aponte a proteção contra cópia, mas são hipóteses.
Os processadores, por sua vez, ficaram rápidos o bastante para fazer o trabalho de áudio sem esforço. A placa dedicada perdeu o argumento de desempenho e passou a depender só da qualidade do som.
A ASUS entra na briga
Mesmo assim, houve uma segunda geração de concorrência. Em 2008, a ASUS lançou a Xonar Essence STX, voltada a quem gosta de música, com um conversor da Burr-Brown e 124 dB de relação sinal-ruído anunciados. A medição independente da revista Stereophile chegou a 114 dB, ainda um número excelente. Vieram depois a Xonar DX, com recursos para jogos como o Dolby Digital Live, a ROG Strix Soar, de 2015, e a Xonar AE. A EVGA também teve sua placa, a Nu Audio.
Relação sinal-ruído é a diferença entre o volume do som e o do chiado de fundo, medida em decibéis. Quanto maior, mais silencioso o fundo.
Hoje, a Xonar AE aparece como descontinuada em lojas americanas, e a seção de áudio sumiu do site da EVGA.
O integrado ficou bom o bastante
Enquanto isso, o áudio da placa-mãe evoluiu muito. O codec Realtek ALC1150, comum por volta de 2013, chegava a 115 dB. O ALC1220, que veio depois, chega a 120 dB, número equivalente ao de placas dedicadas de dez anos antes. Os modelos mais recentes, como o ALC4080 e o ALC4082, passaram a se ligar à placa-mãe por USB, e as placas-mãe de topo somam a eles um conversor separado, como o ESS Sabre da ASUS ROG Maximus Z890 Hero, que anuncia 120 dB.
O site alemão Igor’s Lab fez um teste cego entre o ALC4080 e o ALC1220 e não encontrou diferença audível. Para a maioria das pessoas, com fones e caixas comuns, o som que vem na placa-mãe resolve.
Para onde o som foi: para fora do gabinete
A placa de som não desapareceu; ela saiu do gabinete e mudou de forma. Hoje, o papel dela é dividido entre três tipos de aparelho.
DACs e amplificadores externos. O DAC é o conversor que transforma o som digital em sinal elétrico para os fones. Os modelos externos se ligam por USB e ficam longe das peças ruidosas do computador. A própria Creative aposta nisso: o Sound BlasterX G6, de 2018, ganhou em fevereiro de 2026 uma versão com USB-C, e o Sound Blaster G8, de 2024, aceita dois aparelhos ao mesmo tempo e tem saída e entrada ópticas e HDMI.
Interfaces de áudio. Para quem grava voz ou instrumento, o caminho é a interface, como a linha Focusrite Scarlett, que passou de 6,5 milhões de unidades vendidas segundo a empresa. Ela tem entrada para microfone profissional, com conector XLR e alimentação de 48 volts, algo que placas de som de jogos não oferecem.
Bases e transmissores de headsets. Os headsets de jogos sem fio ou com base trazem o próprio conversor. O SteelSeries Arctis Nova Pro, de 2022, por exemplo, vem com a central GameDAC, com conversor ESS Sabre de 111 dB. Na prática, quem compra um headset desses já leva uma pequena placa de som externa, feita sob medida para aquele fone. É, para muitos jogadores, o substituto direto da antiga placa interna.
O mercado parou? Não: a Creative voltou às placas internas em 2026
Depois da AE-7 e da AE-9, de 2019, e da AE-5 Plus, de 2020, a Creative passou anos sem lançar placa interna nova de linha principal. Em 2026, a marca voltou com duas:
| Placa | Lançamento | Destaques |
|---|---|---|
| Sound Blaster Audigy Fx Pro | março de 2026 | placa PCIe de entrada, som 7.1, 120 dB, até 32 bits e 384 kHz |
| Sound Blaster AE-X | maio de 2026 | conversor ESS ES9039Q2M, até 130 dB, amplificador de fone dedicado, DSD256, entrada óptica e saída coaxial; cerca de US$ 179,99 |
AE-9 e AE-X: sete anos depois, mais barata e um pouco mais forte
A melhor forma de ver o que mudou é comparar a AE-X com a AE-9, a placa que foi o topo de linha da Creative por quase sete anos. A AE-9 foi lançada em julho de 2019; a AE-X, em maio de 2026: seis anos e dez meses de diferença.
| Sound Blaster AE-9 | Sound Blaster AE-X | |
|---|---|---|
| Lançamento | julho de 2019 | maio de 2026 |
| Preço de lançamento nos EUA | US$ 349,99 | cerca de US$ 179,99 |
| Preço no site americano da Creative (outubro de 2026) | US$ 427,49 | US$ 179,99 |
| Conversor (DAC) | ESS Sabre 9038 | ESS ES9039Q2M |
| Faixa dinâmica do conversor | 129 dB | 130 dB |
| Distorção (THD+N) | 0,0001% | 0,0001% |
| Fones suportados | de 16 a 600 ohms | de 8 a 600 ohms |
| Tensão máxima no fone | 5,3 volts (ganho alto) | 6 volts (ganho alto) |
| Potência máxima no fone | não informada pela Creative | 350 mW em fones de 32 ohms |
| Formato DSD | DSD64 | até DSD256 |
| Extras | módulo de controle externo, com botão de volume, que fica sobre a mesa; exige cabo de energia de 6 pinos da fonte | conector para o painel frontal do gabinete (fone e microfone); sem módulo externo |
Preço. No lançamento, a AE-X custa US$ 170 a menos que a AE-9, praticamente a metade. Hoje, no site americano da Creative, a diferença passa de US$ 245, porque a AE-9 aparece por US$ 427,49.
Potência. Pelos números da própria Creative, a AE-X é um pouco mais forte: entrega até 6 volts no fone contra 5,3 volts da AE-9, e o conversor tem 1 dB a mais de faixa dinâmica, uma diferença pequena, que dificilmente se ouve. As duas acionam fones exigentes de até 600 ohms, e a AE-X aceita também os de 8 ohms, como alguns fones intra-auriculares.
O que a AE-9 tem a mais. O módulo de controle externo, que fica sobre a mesa com o botão de volume e as entradas, é um conforto que a AE-X não oferece, e a página da AE-9 destaca, nas avaliações, o uso com microfones profissionais. Em troca, ocupa espaço e pede um cabo extra de energia.
Em resumo: em quase sete anos, a placa topo de linha da Creative ficou mais simples, custa cerca de metade do preço e entrega um pouco mais de força no fone.
A Creative também financiou no Kickstarter, a partir de outubro de 2025, a Sound Blaster Re:Imagine, uma central de áudio modular e externa. A empresa hoje é bem menor do que foi: faturou US$ 67 milhões no ano fiscal encerrado em junho de 2025.
Por que é tão difícil achar no Brasil
Nas lojas brasileiras, o que aparece são modelos de 2013 a 2020, vários esgotados ou vendidos por lojistas parceiros. Em 12 de outubro de 2026, a AE-5 Plus estava esgotada na KaBuM e indisponível na Terabyte, com último preço de R$ 1.178,87, e aparecia por cerca de R$ 2.153 na Amazon. A Audigy Fx original, de 2013, saía por R$ 379,90 na Pichau, e a Xonar AE, por R$ 801,90 na KaBuM. O G6 aparecia por R$ 1.496,69 na Amazon. A nova Audigy Fx Pro já tem página na Amazon brasileira, e a AE-X, a novidade de 2026, aparece na Amazon por R$ 1.603,67, vendida e enviada pela própria Amazon: em 12 de outubro, era a única oferta da placa encontrada em lojas brasileiras, com poucas unidades em estoque.
Existe placa de som com Dolby Atmos?
Não da forma que muita gente imagina. O Dolby Atmos é um formato de som em que cada efeito tem posição no espaço, inclusive acima da cabeça. No computador, ele aparece de duas maneiras diferentes.
Atmos em fones de ouvido é virtualização por software. O Windows oferece três opções, segundo a Microsoft: o Windows Sonic, gratuito, o DTS Headphone:X e o Dolby Atmos for Headphones, que é uma compra única dentro do aplicativo gratuito Dolby Access. O processamento é feito pelo sistema, e funciona com qualquer placa, inclusive a integrada. A Creative tem sua própria tecnologia do gênero, o Super X-Fi, de 2018, que personaliza o efeito a partir de fotos da cabeça e das orelhas do usuário.
Atmos em caixas de som de verdade exige um receiver ou uma barra de som compatível, ligados por HDMI, de preferência com eARC. O Atmos não viaja como som comum pelo cabo: vai codificado, e quem decodifica é o receiver, a barra ou a TV. A placa de som não faz esse papel.
As placas da Creative oferecem outros formatos. A AE-5 Plus codifica o som dos jogos em Dolby Digital Live e DTS Connect, para mandar 5.1 por cabo óptico a um receiver, e o G8 lista Dolby Digital. Nenhuma das páginas oficiais cita Atmos.
Alta resolução: o que os números significam
O selo Hi-Res Audio, da associação japonesa de áudio, exige no mínimo 24 bits e 96 kHz. O CD usa 16 bits e 44,1 kHz. As placas e DACs atuais anunciam até 32 bits e 384 kHz, além do DSD, um formato de 1 bit com taxa altíssima, usado no SACD.
A ciência é mais cautelosa do que o marketing. Um estudo de 2007, de Meyer e Moran, publicado na revista da Audio Engineering Society, inseriu um trecho em qualidade de CD no caminho do sinal de alta resolução, e os ouvintes não perceberam a diferença em volume normal. Em 2016, uma análise de 18 estudos feita por Joshua Reiss, na mesma revista, encontrou uma capacidade “pequena, mas estatisticamente significativa” de distinguir alta resolução, que aumenta com treino, chegando a cerca de 60% de acerto.
Para quem uma placa dedicada ainda faz sentido
| Perfil | Por quê |
|---|---|
| Quem usa fones de alta impedância, de 300 a 600 ohms | precisam de mais potência do que o integrado costuma oferecer; AE-X, AE-5 e G8 têm amplificador dedicado |
| Quem ouve chiado do computador nos fones | um DAC externo por USB afasta a conversão das peças ruidosas |
| Quem tem receiver antigo com entrada óptica | Dolby Digital Live e DTS Connect mandam o som dos jogos em 5.1 |
| Quem grava voz ou instrumento | o caminho é uma interface de áudio com entrada XLR, não uma placa de jogos |
| Quem quer tudo dentro do gabinete | é o público das novas AE-X e Audigy Fx Pro |
| Quem quer Atmos em caixas | o caminho é HDMI até um receiver ou barra de som |
O fecho
A placa de som não parou de evoluir: ela mudou de endereço. O trabalho que a Sound Blaster fazia nos anos 1990 foi dividido entre o chip da placa-mãe, que ficou bom para a maioria, os DACs externos, as interfaces de gravação e as bases dos headsets. A placa interna virou produto de nicho, para quem tem fones exigentes, receiver antigo ou gosto por montar tudo dentro do gabinete. E, para esse público, a Creative mostrou em 2026 que ainda tem placa nova para oferecer.
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