O soquete que se recusa a morrer: por que placas AM4 novas estão saindo em 2026
Matéria narrada pelo Professor
Em agosto de 2026, a Gigabyte colocou no catálogo duas placas-mãe B450 inéditas. O B450 é um chipset de 2018, para um soquete de 2017, que roda processadores de 2020. Não é nostalgia nem saudosismo de entusiasta: é a resposta direta ao maior choque de preços da história recente da memória de computador. A inteligência artificial comprou a produção de DRAM do mundo, o preço da memória multiplicou, e a indústria do PC fez a única coisa que podia fazer para continuar vendendo máquinas — reabriu uma plataforma que já tinha enterrado.
O que exatamente aconteceu
A Gigabyte lançou a B450M D3HP e a B450M D3HP WIFI6E, ambas micro-ATX, com quatro encaixes de memória DDR4, dois conectores M.2, USB-C frontal e regulagem de energia de 4+2 fases. São placas modestas de propósito. O detalhe é a data: o chipset B450 foi apresentado oito anos antes.
Não foi um caso isolado. Em julho a mesma empresa apresentou a série B550 X, também para o soquete AM4, aí sim com componentes de hoje — Wi-Fi 7, alimentação de dez fases — nos formatos ATX e micro-ATX, nas linhas Gaming, Eagle e AORUS Elite. E há novas placas A520 e B550 com DDR4 saindo em micro-ATX e mini-ITX.
Do lado da AMD, o soquete AM4 chega aos dez anos, marca que a própria empresa celebrou na Computex deste ano. E ele ainda recebe processadores novos: o Ryzen 5 5600F apareceu sem alarde, e o 5800X3D em edição de décimo aniversário chegou às lojas em 25 de junho de 2026. Com uma ressalva que importa: não há arquitetura nova para o AM4. Tudo o que sai ali ainda é Zen 3, o desenho de 2020.
A causa: a IA comprou a memória do mundo
O motivo não está no mercado de PC. Está nos centros de dados.
Samsung, SK Hynix e Micron redirecionaram a maior parte da capacidade para a memória de alta largura de banda, a HBM, que é a que alimenta os aceleradores de inteligência artificial. A HBM consumiu 23% das lâminas de silício de DRAM do mundo em 2026, contra 8% em 2024. Cada lâmina que vira HBM é uma lâmina que não vira memória de computador pessoal.
O efeito no preço foi brutal e rápido:
| Indicador | Antes | Agora |
|---|---|---|
| Chip DDR5 (referência de mercado) | US$ 6,84 em setembro de 2025 | US$ 27,20 em dezembro de 2025 |
| Contrato de DRAM para PC | — | +105% a 110% em um único trimestre (1º trimestre de 2026) |
| Chip DDR4 1Gx8 3200 no mercado à vista | — | US$ 42,50 em 10 de agosto de 2026, recorde histórico |
| Módulo DDR5 de 32 GB no varejo americano | US$ 149 | US$ 239 |
A SK Hynix já avisou que a escassez pode durar além de 2030. As projeções de mercado apontam alta continuada ao longo de 2026 e ainda em 2027.
A correção que muda a conta: o DDR4 também ficou caro
Aqui está o ponto que quase toda matéria sobre o assunto erra, e que decide se essa estratégia funciona para você.
A ideia intuitiva é: DDR5 subiu muito, então volto para o DDR4 e economizo. Só que o DDR4 subiu junto, e por um motivo pior. A produção de DDR4 estava sendo encerrada de propósito — é memória velha, de margem baixa — e a demanda voltou justamente quando as fábricas já estavam saindo dela. O resultado é uma escassez de peça descontinuada: no mercado à vista, o chip DDR4 bateu recorde histórico, e em algumas configurações passou a custar mais que o DDR5 equivalente, invertendo a hierarquia de valor que existia há uma década.
No Brasil, os números do varejo contam a mesma história por outro lado. Um módulo DDR4 de 8 GB a 3200 MHz sai por volta de R$ 400. Um DDR5 de 8 GB fica entre R$ 850 e R$ 1.000, e um módulo DDR5 de 16 GB passa dos R$ 900. Os kits DDR4 subiram entre 120% e 180%; o DDR5 chegou a acumular 500% em doze meses até agosto.
Ou seja: montar 16 GB em DDR5 custa cerca de mil reais a mais do que em DDR4. A economia é real, mas ela é menor do que parece, e ela não vem de o DDR4 estar barato — vem de o DDR5 estar absurdo.
Para quem a jogada realmente fecha
Separando os casos, porque eles são muito diferentes:
Para quem já tem memória DDR4 em casa, é onde a conta fecha de verdade. Os pentes já são seus, a placa nova é barata, o processador Zen 3 está no fim da vida útil comercial e portanto em bom preço. Você monta uma máquina inteira sem comprar o item que enlouqueceu.
Para quem vai comprar tudo do zero, a vantagem encolhe e vira uma questão de plataforma, não de memória: placa AM4 e processador Ryzen 5000 custam menos que placa AM5 e Ryzen 9000, e é essa diferença que sustenta a escolha — não o preço do pente, que subiu dos dois lados.
Para quem vai usar a máquina por muitos anos, o AM4 cobra o preço no futuro. É PCIe 4.0, não aceita DDR5, e o teto de atualização é o Zen 3 de 2020. É uma plataforma sem estrada à frente: você compra o fim de uma linhagem.
O que isso diz sobre o momento
Há um sinal maior escondido aqui, e ele não é sobre placas-mãe.
Durante trinta anos, o computador pessoal puxou a indústria de semicondutores. O volume estava nele, e as memórias, os chipsets e os barramentos eram desenhados para atendê-lo primeiro. O que aconteceu em 2026 é a inversão pública disso: o PC virou o cliente de segunda fila de uma indústria que agora atende primeiro os galpões de inteligência artificial, e recebe o que sobra, ao preço que sobrar.
Uma fabricante relançar um chipset de oito anos não é um gesto de carinho com o consumidor. É a admissão de que a fronteira da tecnologia ficou cara demais para o comprador comum, e que a saída, por ora, é vender o passado com preço de presente. O PC não parou de evoluir por falta de engenharia. Parou porque a memória que ele precisa está sendo comprada por outra pessoa.
Enquanto isso durar — e as projeções falam em normalização só entre 2027 e 2028 —, o soquete de 2017 vai continuar aparecendo em lançamentos de 2026. Não porque ele é bom. Porque ele é o que dá para pagar.
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