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Terras raras no Brasil: 23% das reservas do mundo, 0,5% da produção

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2026-09-21-terras-raras-no-brasil-capitulo-01
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Matéria narrada pelo Professor

O país tem a segunda maior reserva de terras raras do planeta — cerca de 22 milhões de toneladas, atrás só da China — e produz menos de um por cento do que o mundo consome. A distância entre esses dois números não é falta de minério: é falta de refino, a etapa em que a China responde por 91% da produção mundial e cujo maquinário ela acaba de proibir de exportar. Em 2026 isso deixou de ser assunto de geologia: uma empresa americana comprou a única mina brasileira em operação por US$ 2,8 bilhões, e o Congresso aprovou uma lei que trata o assunto como soberania. Este aprofundamento explica o que esses metais fazem dentro dos aparelhos, por que a mina é a parte fácil e o que o Brasil pode e não pode fazer hoje.

O que são, e o apelido errado

“Terras raras” são 17 elementos químicos — os quinze lantanídeos mais o escândio e o ítrio. O nome engana duas vezes: não são terras, são metais; e não são raras. O cério é mais abundante na crosta terrestre que o cobre.

O que é raro é encontrá-los concentrados o bastante para valer a pena minerar, e separá-los uns dos outros. Eles ocorrem quase sempre misturados, com propriedades químicas tão parecidas que separá-los exige centenas de estágios de extração líquido-líquido. É essa dificuldade — não a escassez — que define o mercado inteiro.

Quatro deles concentram o valor, os chamados magnéticos:

Elemento Símbolo Para quê
Neodímio Nd o ímã permanente mais forte que existe
Praseodímio Pr entra na liga do mesmo ímã
Disprósio Dy mantém o ímã funcionando quente
Térbio Tb idem, e em telas

Para que servem dentro dos aparelhos

Aqui a matéria responde à pergunta que interessa a quem lê tecnologia.

O ímã de neodímio-ferro-boro é a aplicação que move tudo. Ele é, por peso, o ímã permanente mais forte já fabricado — e é isso que permite um motor pequeno ter força grande. Onde ele está:

Onde O que ele faz ali
Carro elétrico o motor. Um veículo usa de 1 a 2 kg de ímã de terras raras
Turbina eólica o gerador de acionamento direto, sem caixa de engrenagens
Disco rígido move o braço que posiciona a cabeça de leitura
Fone e alto-falante a bobina que vira som
Drone e robô os motores dos rotores e das juntas
Celular vibração, alto-falante, foco da câmera, bússola

E há os que não fazem ímã:

– Európio e térbio produzem o vermelho e o verde das telas e dos LEDs;

– Lantânio entra nas baterias de níquel-hidreto metálico e no craqueamento do petróleo;

– Cério é o pó que pole vidro óptico e lente — e o catalisador do escapamento;

– Ítrio vai em laser, em cerâmica de alta temperatura e em supercondutores;

– Gadolínio é o contraste da ressonância magnética;

– Érbio amplifica o sinal dentro dos cabos de fibra óptica — a internet inteira passa por ele.

O elo novo é o data center. A construção de centros de dados para inteligência artificial puxa terras raras por três caminhos ao mesmo tempo: os discos rígidos de alta capacidade que guardam os dados de treinamento, os motores de ventilação e refrigeração, e os ímãs dos equipamentos de rede. É demanda que não existia nessa escala há cinco anos.

A leitura correta: terras raras não são o material de um produto. São o material de um componente — o ímã, o fósforo, o catalisador — que entra em quase tudo. Por isso o peso usado é pequeno e a dependência é total: um carro elétrico leva dois quilos de ímã e não anda sem eles.

O gargalo não é a mina

Este é o ponto que a maior parte da cobertura erra.

A cadeia tem quatro etapas, e elas ficam cada vez mais difíceis:

Etapa O que é Quem faz
1. Mineração tirar o minério vários países
2. Separação/refino apartar os 17 elementos China, 91%
3. Metalização virar liga metálica quase só a China
4. Ímã fabricar o ímã sinterizado China, 94%

Os números são de 2024 e se referem às terras raras magnéticas. Quanto mais perto do produto final, mais concentrada fica a cadeia — e é por isso que ter minério não resolve.

E em 2026 a China fechou a porta da tecnologia, não só a do material. O Ministério do Comércio proibiu a exportação de tecnologia de extração, separação e fabricação de ímãs, e barrou cidadãos chineses de trabalhar em projetos do gênero no exterior sem autorização. O alvo declarado é impedir que se montem cadeias concorrentes.

O tamanho do risco, segundo a Agência Internacional de Energia: a aplicação plena das regras chinesas colocaria em risco US$ 6,5 trilhões de produção industrial mundo afora — com Estados Unidos e Europa respondendo por quase metade dessa exposição.

O que o Brasil tem

A reserva. Cerca de 22 milhões de toneladas em óxido equivalente, segundo o levantamento do Serviço Geológico dos Estados Unidos de fevereiro de 2026 — a segunda do mundo, atrás dos 44 milhões da China. Distribuída por Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe.

E um detalhe que muda a escala do número: apenas cerca de 30% do território brasileiro tem mapeamento mineralógico adequado. A frase de Ronaldo Carmona, da Finep, registrada pela Academia Brasileira de Ciências, resume: se o país mapeasse o território direito, poderia ter a maior reserva do mundo.

Uma mina em operação. A Serra Verde, em Minaçu, Goiás, começou a produzir em janeiro de 2024. É a primeira produção a partir de argila iônica fora da Ásia — um tipo de depósito em que os elementos ficam fracamente presos à argila e se extraem com solução, sem britagem pesada. E é a única produtora fora da Ásia capaz de entregar os quatro elementos magnéticos em escala. A meta é cerca de 4.000 toneladas de óxidos em 2026, com uma segunda fase mirando 6.400.

Laboratórios que sabem fazer o ímã. Existe no país uma rede de laboratórios capaz de produzir protótipos de ímãs para motor de carro elétrico e turbina eólica, e um programa que se chama, sem rodeios, “Da Mina ao Ímã”. Nas palavras de Mariele Bonfante, da UFSC: isso prova que se domina a tecnologia.

O que o Brasil não tem

Refinaria. O país não tem planta industrial de separação de terras raras. Houve capacidade no passado — uma usina em São Paulo que processava monazita e parou de operar nos anos 1950 — e ela nunca foi reposta. Hoje a separação é feita em escala de laboratório.

O efeito prático é que o minério sai e o valor fica fora. E a prova mais recente é a mais incômoda: a Aclara Resources, com um dos projetos mais avançados em Goiás e operação prevista para o segundo semestre de 2028, já anunciou que fará o refino nos Estados Unidos.

Há movimento na direção contrária. A Meteoric Resources opera em Poços de Caldas, Minas Gerais, uma planta-piloto que produz carbonato de terras raras e estuda avançar para a separação — o que a tornaria a primeira a apartar os óxidos individualmente em solo brasileiro.

O ano em que virou disputa

Três movimentos de 2026, em ordem:

Data O que aconteceu
19 de abril A USA Rare Earth acerta a compra de 100% da Serra Verde: US$ 300 milhões em dinheiro mais ações, avaliando o negócio em US$ 2,8 bilhões
4 de setembro A compra é concluída
16 de setembro É sancionada a Lei nº 15.506/2026, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos

O dinheiro por trás da compra é público, e é americano. A Serra Verde recebeu um pacote de US$ 565 milhões da corporação de financiamento ao desenvolvimento dos Estados Unidos. Há um compromisso de US$ 750 milhões do Departamento de Guerra americano, e o governo dos EUA se comprometeu a comprar pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras ao longo de cinco anos. Tudo isso se conecta ao Project Vault, o programa americano de estoque de minerais críticos, com cerca de US$ 12 bilhões, dos quais US$ 10 bilhões em empréstimo do banco de exportação e importação.

O que a lei brasileira responde. A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos mira exatamente a agregação de valor em território nacional: pesquisa, lavra, beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana. Entre os instrumentos, um Fundo Garantidor da Atividade Mineral de até R$ 2 bilhões e créditos fiscais que podem somar até R$ 5 bilhões entre 2030 e 2034.

A categoria da afirmação: a lei existe e os valores são os que ela prevê. Se esses instrumentos vão gerar uma refinaria é projeção, não fato — nenhuma planta industrial de separação foi anunciada com data e local.

O espelho que já deu certo

Há um precedente brasileiro exato, e ele não é de terras raras: é o nióbio.

O Brasil detém entre 60% e 65% do mercado mundial de nióbio — e, diferentemente das terras raras, exporta produto processado: liga de ferronióbio e óxido, em escala industrial, não minério bruto. É o único elo da mineração brasileira em que o valor fica no país.

O que o caso ensina: não é a reserva que dá poder de mercado. É a etapa industrial. O nióbio brasileiro manda no mundo porque alguém montou a fábrica; as terras raras brasileiras não mandam em nada porque ninguém montou.

O que não se sabe

– O tamanho real da reserva. Com 30% do território mapeado, os 22 milhões de toneladas são um piso, não uma medida.

– Se haverá refinaria no Brasil. Há estudo da Meteoric, há lei, há fundo. Não há planta anunciada com data.

– Quanto da produção da Serra Verde fica no país depois da compra americana. O acordo de fornecimento é com o comprador.

– O efeito prático da proibição chinesa de exportar tecnologia. Ela é recente; ninguém mediu ainda quanto ela atrasa as cadeias ocidentais.

– Quanto o Brasil produz exatamente. As estimativas de participação variam entre 0,5% e menos de 1%, e não há série oficial consolidada.

O fecho

O Brasil tem um quarto das terras raras conhecidas do planeta e nenhuma refinaria. Essa frase, sozinha, explica por que o país aparece no noticiário como território de disputa e não como potência do setor.

A parte difícil dessa cadeia nunca foi tirar o minério do chão — foi separar dezessete metais quase idênticos e transformá-los num ímã. A China passou quarenta anos construindo essa capacidade e agora proíbe exportar até o maquinário que a faz. Os Estados Unidos responderam comprando a mina brasileira e financiando-a com dinheiro do próprio governo. O Brasil respondeu com uma lei.

O nióbio mostra que dá certo quando se monta a fábrica. Enquanto ela não existir, o que o país tem é um depósito — e depósito, na economia dos minerais críticos, é o que se disputa, não o que se possui.

Fontes: 1 · 2 · 3 · 4 · 5 · 6 · 7 · 8 · 9 · 10 · 11 · 12 · 13 · 14 · 15

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