Infineon abre em Bangkok uma fábrica de montagem e teste de chips que pode crescer para cinco módulos
Matéria narrada pelo Professor
A alemã Infineon, maior fabricante mundial de semicondutores de potência, inaugurou em 1º de outubro de 2026 uma fábrica nova em Samut Prakan, na região metropolitana de Bangkok, na Tailândia. O prédio, construído do zero num terreno vazio, reúne toda a etapa final da fabricação de chips, a montagem, o encapsulamento e o teste, e acrescenta o teste dos chips ainda no disco de silício, antes de serem cortados. Hoje trabalham ali cerca de 350 pessoas; a empresa prevê chegar a perto de mil quando o primeiro prédio, o Módulo A, estiver em plena operação. O terreno comporta até cinco módulos, e a empresa diz que Bangkok pode se tornar, com o tempo, um dos seus maiores polos dessa etapa. O foco são chips para carros, indústria e infraestrutura de energia. Esta matéria explica o que é essa etapa final da fabricação, o que a fábrica vai produzir, por que o Sudeste Asiático concentra esse tipo de trabalho e como Bangkok se encaixa na rede que a Infineon já tem na Malásia.
O que foi inaugurado
A cerimônia de 1º de outubro reuniu o primeiro-ministro da Tailândia, Anutin Charnvirakul, e o diretor de operações da Infineon, Alexander Gorski. Segundo o comunicado oficial da empresa, publicado no mesmo dia, a fábrica fica em Samut Prakan, província vizinha a Bangkok, e foi pensada para crescer em etapas.
O primeiro prédio se chama Módulo A. Pela página oficial do projeto, ele ocupa um terreno de 200 mil metros quadrados e tem até 30 mil metros quadrados de sala limpa, o ambiente controlado, com ar filtrado e poeira quase zero, onde os chips são manuseados sem risco de contaminação. Segundo a agência Reuters, que acompanhou a inauguração, a área de sala limpa pode ser ampliada até 150 mil metros quadrados à medida que novos prédios forem erguidos.
O desenho prevê até cinco módulos. Nas palavras do comunicado, isso dá a Bangkok o potencial de se tornar, com o tempo, um dos maiores polos de produção desse tipo dentro da Infineon, que tem 13 fábricas no mundo, segundo a página da empresa.
Sobre o dinheiro, a própria Infineon não divulgou um valor no comunicado. A Reuters informou que o investimento inicial foi de mais de 100 milhões de euros e que o Conselho de Investimentos da Tailândia, o órgão do governo que aprova e concede incentivos a projetos estrangeiros, avaliou o projeto completo em 1,4 bilhão de dólares. A diferença entre os dois números reflete o que já foi gasto no primeiro prédio e o que está previsto para todo o terreno.
Uma fábrica construída do zero
A obra começou em 14 de janeiro de 2025. Naquele dia, depois de uma reunião oficial com a então primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra, o diretor de operações da época, Rutger Wijburg, lançou a construção. O comunicado de lançamento previa o primeiro prédio pronto para operar no início de 2026, com a expansão seguinte ajustada à demanda do mercado.
A Infineon descreve o projeto como um terreno virgem, o que a indústria chama de fábrica *greenfield*: em vez de adaptar uma instalação antiga, a empresa projetou o prédio desde a planta, com automação alta e um sistema digital que acompanha a produção. Segundo o comunicado, a fábrica aproveita a experiência das outras unidades do grupo e foi desenhada para se adaptar a novas tecnologias e a grandes volumes.
O que é o “back-end” de um chip
Fabricar um chip tem duas grandes fases, e entender a diferença é o que explica o tamanho desta notícia.
A primeira fase, chamada pela indústria de *front-end*, ou etapa inicial, acontece numa fábrica de discos de silício. Ali os transistores, os minúsculos interruptores que formam o chip, são gravados camada por camada sobre um disco fino e redondo de silício, chamado de *wafer*. Cada disco carrega dezenas ou centenas de chips idênticos lado a lado. Segundo a enciclopédia Wikipédia, essa etapa leva em média de 11 a 13 semanas nas fábricas mais avançadas.
A segunda fase, o *back-end*, ou etapa final, transforma esse disco num produto que pode ser soldado numa placa eletrônica. É exatamente o que a fábrica de Bangkok faz. Ela tem três passos principais:
– Corte: o disco é recortado e cada chip vira uma peça individual, uma pastilha do tamanho de uma unha ou menor.
– Montagem e encapsulamento: a pastilha é fixada numa base, ligada aos terminais por fios finíssimos ou outras conexões, e fechada numa carcaça de plástico ou cerâmica que a protege de umidade, choque e calor. É essa carcaça, com as perninhas ou contatos metálicos, que o público reconhece como “um chip”.
– Teste final: o chip pronto é testado de novo para confirmar que não foi danificado no encapsulamento.
A etapa final é menos famosa que a inicial, mas não é simples. Para chips de potência, que trabalham com correntes altas e esquentam, o encapsulamento decide quanto calor a peça consegue dissipar e quanto tempo ela vai durar dentro de um carro ou de uma usina solar.
Teste de wafer: o filtro antes do encapsulamento
O detalhe que a Infineon destaca no comunicado é que Bangkok junta a etapa final completa com o teste de wafer, ou teste no disco.
O teste de wafer acontece antes do corte. Uma máquina automática, chamada de prova de disco, encosta uma matriz de agulhas microscópicas nos contatos de cada chip ainda no disco e verifica, um por um, se ele funciona. Antigamente, os chips reprovados recebiam um ponto de tinta; hoje, a máquina gera um mapa digital do disco que segue para as etapas seguintes, indicando quais peças descartar.
A razão é econômica. Segundo a Wikipédia, o teste de wafer evita o custo considerável de encapsular chips defeituosos. Encapsular uma peça que já nasceu com defeito é gastar material, máquina e tempo à toa.
Para a Infineon, ter o teste de wafer e a etapa final no mesmo endereço significa que o disco chega de uma fábrica do grupo, é testado, cortado, montado e testado de novo sem viajar entre países no meio do caminho. Segundo o comunicado, essa combinação permite produzir soluções “cada vez mais complexas e de alto valor”.
O que sai de Bangkok: módulos de potência
Pela página oficial do projeto, o Módulo A vai se concentrar em módulos de potência e componentes discretos, em teste de wafer e em atividades de pesquisa e desenvolvimento. Um comunicado de setembro de 2025 já dizia que a nova unidade teria foco em módulos de potência e em teste de wafer.
Vale explicar os termos. Um semicondutor de potência não faz contas como o processador de um computador. Ele funciona como uma chave que liga e desliga a corrente elétrica milhares de vezes por segundo, controlando quanta energia passa de um lado para o outro. É ele que converte a energia da bateria de um carro elétrico na corrente que move o motor, que transforma a energia de um painel solar em eletricidade para a rede e que alimenta motores industriais.
Um componente discreto é uma dessas chaves vendida sozinha, numa carcaça própria. Um módulo de potência reúne várias dessas chaves numa só peça, montadas sobre uma base de cobre e cerâmica que leva o calor para fora e isola eletricamente as partes. Segundo a Wikipédia, juntar os componentes num módulo dá mais potência num espaço menor e mais confiabilidade do que usar peças separadas. Esses módulos estão no sistema de tração de carros elétricos, em inversores de energia solar e eólica, em motores industriais e em sistemas de energia de emergência.
O comunicado da inauguração resume os destinos: aplicações automotivas, industriais e de infraestrutura de energia, com contribuição direta para eletrificação, eficiência energética e digitalização.
Por que a Infineon importa nesse mercado
A Infineon é uma empresa alemã, com sede perto de Munique. Segundo a própria empresa, tinha cerca de 57 mil funcionários no fim de setembro de 2025 e faturou cerca de 14,7 bilhões de euros no ano fiscal de 2025.
Na apresentação aos investidores de agosto de 2026, a empresa se apresenta como número 1 mundial em semicondutores de potência, com base em levantamento da consultoria Omdia de maio de 2026, num mercado de discretos e módulos de potência que somou 32,5 bilhões de dólares em 2025. A mesma apresentação a coloca como número 1 em semicondutores automotivos, segundo a consultoria TechInsights, em abril de 2026, num mercado de 74,4 bilhões de dólares em 2025, e também como líder em microcontroladores, os pequenos computadores embutidos em carros e máquinas.
A empresa também aposta no carbeto de silício, um material que substitui o silício comum em chips de potência e desperdiça menos energia. Em 8 de agosto de 2024, a Infineon inaugurou na cidade de Kulim, na Malásia, a primeira fase do que chama de a maior fábrica do mundo de discos de carbeto de silício de 200 milímetros, com investimento de 2 bilhões de euros nessa fase e até 5 bilhões na seguinte. Segundo o comunicado da época, esses chips aumentam a eficiência de carros elétricos, carregadores rápidos, trens, energias renováveis e centros de dados de inteligência artificial.
É nesse contexto que Bangkok entra. Segundo o comunicado de 2026, a nova fábrica de etapa final complementa a expansão em curso das fábricas de etapa inicial da empresa: mais discos saindo das fábricas pedem mais capacidade para testar, montar e encapsular os chips.
A troca em Bangkok: uma fábrica vendida, outra inaugurada
A Infineon não é nova na Tailândia. Segundo a página da empresa, ela tinha uma fábrica de etapa final em Nonthaburi, também na região de Bangkok, desde 1989.
Em 18 de setembro de 2025, a empresa anunciou a venda dessa unidade antiga para a Malaysian Pacific Industries, a MPI, um grupo malaio que, com a marca Carsem, presta serviços terceirizados de montagem, encapsulamento e teste há mais de 50 anos. Esse tipo de empresa, que faz a etapa final para outros fabricantes, é chamado pela indústria de OSAT, a sigla em inglês para montagem e teste terceirizados. A venda foi concluída em 4 de fevereiro de 2026. A MPI assumiu os funcionários da produção, e as duas empresas fecharam um contrato de fornecimento de longo prazo.
A divisão de tarefas ficou clara nos comunicados. A unidade de Nonthaburi, agora da MPI, segue fazendo encapsulamentos padronizados para carros, conectividade e internet das coisas. A unidade nova de Samut Prakan fica com os módulos de potência e o teste de wafer. A Infineon descreve a combinação como parte da estratégia de misturar produção própria com parceiros terceirizados confiáveis, em busca de eficiência e flexibilidade.
Por que o Sudeste Asiático concentra essa etapa
A etapa final dos chips tem um endereço preferido há décadas: o Sudeste Asiático. Três países ilustram o movimento.
Malásia. Segundo a agência oficial de investimentos do país, a MIDA, a Malásia responde por 13% do volume mundial de montagem, teste e encapsulamento de chips e é o sexto maior exportador de semicondutores do mundo, dados publicados em 2 de outubro de 2025. A Infineon está lá desde 1973, quando começou a operar em Melaka. Em 2006 abriu em Kulim a sua primeira fábrica de discos na Ásia. Em agosto de 2024, empregava mais de 16 mil pessoas no país. Pelas páginas da própria empresa, Melaka é hoje a maior unidade de etapa final do grupo, com mais de 10 mil pessoas; Kulim passa de 4.500; e em Penang, desde 2022, funciona um centro global de pesquisa e desenvolvimento e de serviços de apoio, com mais de 650 funcionários.
Vietnã. Em 11 de outubro de 2023, a Amkor Technology, empresa de montagem e teste de chips, inaugurou uma fábrica na província de Bac Ninh, no norte do país, com 1,6 bilhão de dólares comprometidos em duas fases. Na cobertura da agência AFP, o investimento foi associado às dificuldades nas cadeias de suprimento e à busca, por parte dos Estados Unidos, de menos dependência da China.
Tailândia. Segundo a Reuters, o país quer atrair 18 bilhões de dólares em investimentos em semicondutores até 2030, com foco em fotônica, eletrônica de potência e sensores. Entre 2023 e julho de 2026, recebeu 910 bilhões de bahts, cerca de 27 bilhões de dólares, em investimentos em semicondutores e eletrônica avançada, e planeja treinar quase 85 mil trabalhadores qualificados e mais de 1.700 pesquisadores para o setor até 2030. Em dezembro de 2024, o governo criou um comitê nacional de política para semicondutores e eletrônica avançada, segundo o secretário-geral do Conselho de Investimentos, Narit Therdsteerasukdi.
O comunicado da Infineon lista o que pesou na escolha da Tailândia: boas ligações com todo o Sudeste Asiático, proximidade de mercados consumidores importantes, uma longa tradição em fabricação de semicondutores e mão de obra qualificada. A página do projeto acrescenta a proximidade com as instalações que a empresa já tinha na região, boa infraestrutura de transporte e condições de negócio favoráveis.
Diversificar para não depender de um só lugar
A palavra que mais aparece nos textos da Infineon sobre Bangkok é diversificação. O comunicado afirma que a fábrica fortalece e diversifica a rede global de produção e permite atender os clientes com capacidade resiliente, ou seja, com capacidade de continuar entregando mesmo quando algo dá errado num ponto da rede.
O diretor de operações deu um exemplo concreto à Reuters. Segundo a agência, Gorski disse que, se algo der errado na fábrica da Malásia, a empresa pode atender os clientes pela fábrica da Tailândia. Ele chamou o projeto de investimento estratégico de longo prazo e citou, como vantagem, a proximidade da Tailândia com mercados importantes, como a China.
No comunicado, Gorski resumiu a escolha pela combinação de localização e potencial de crescimento: um polo no coração do Sudeste Asiático, cercado por um ecossistema em expansão e com bom acesso à logística global. O primeiro-ministro Anutin Charnvirakul, no mesmo texto, chamou a fábrica de um forte voto de confiança no futuro da Tailândia como polo de semicondutores.
A leitura que fica é a da própria empresa: Bangkok não substitui Melaka, a maior unidade de etapa final da Infineon, com mais de 10 mil pessoas. Ela acrescenta um segundo grande ponto de apoio na mesma região.
Gente para operar a fábrica
Uma fábrica automatizada ainda depende de engenheiros e técnicos treinados, e a Infineon diz ter começado a formar essa equipe antes de o prédio ficar pronto. Segundo o comunicado de janeiro de 2025, a empresa montou um programa de treinamento em inteligência artificial, digitalização e automação, e o primeiro grupo de engenheiros tailandeses concluiu essa formação em outras unidades do grupo.
O comunicado da inauguração acrescenta que a Infineon mantém parcerias com universidades, instituições de ensino e empresas do setor para formar mão de obra. A página do projeto fala em cooperação com universidades tailandesas, iniciativas conjuntas de ensino e pesquisa e participação em parcerias da indústria. É a mesma necessidade que aparece na meta do governo de treinar dezenas de milhares de trabalhadores até 2030.
O desenho sustentável
O comunicado e a página do projeto detalham as escolhas ambientais do Módulo A:
– energia 100% renovável na eletricidade comprada;
– painéis solares que geram parte da energia no próprio terreno;
– meta de 25% de reaproveitamento de água e coleta de água da chuva;
– certificação LEED Silver, um selo internacional de construção sustentável e eficiente.
A empresa lembra que fabricar chips consome muita energia, e diz que essas medidas fazem parte da meta de reduzir continuamente a pegada de carbono em toda a cadeia de produção.
Os números
| Item | Número | Fonte e data |
|---|---|---|
| Inauguração | 1º de outubro de 2026 | Comunicado da Infineon |
| Início da obra | 14 de janeiro de 2025 | Comunicado da Infineon |
| Funcionários hoje | cerca de 350 | Comunicado, 1º/10/2026 |
| Funcionários previstos no Módulo A | cerca de 1.000 | Comunicado, 1º/10/2026 |
| Módulos possíveis no terreno | até 5 | Comunicado, 1º/10/2026 |
| Terreno do Módulo A | 200 mil m² | Página oficial do projeto |
| Sala limpa inicial | até 30 mil m² | Página oficial e Reuters |
| Sala limpa máxima | 150 mil m² | Reuters, 1º/10/2026 |
| Investimento inicial | mais de 100 milhões de euros | Reuters, 1º/10/2026 |
| Valor do projeto completo | 1,4 bilhão de dólares | Conselho de Investimentos, via Reuters |
O que não se sabe
– Quando os outros quatro módulos sairão do papel. A empresa fala em expansão gradual, ajustada à demanda, sem calendário.
– Quanto a fábrica vai produzir. Nem o comunicado nem a cobertura divulgaram volume de produção ou capacidade anual.
– Quanto será investido no total pela Infineon. O valor de 1,4 bilhão de dólares é a avaliação do Conselho de Investimentos da Tailândia; a empresa não confirmou esse número no comunicado.
– Quais produtos exatos sairão primeiro. A empresa fala em módulos de potência e componentes discretos, sem nomear linhas de produto.
– Quando o Módulo A chega aos mil funcionários. O comunicado fala em crescimento conforme a produção aumenta, sem data.
O fecho
A fábrica de Bangkok mostra uma parte da indústria de chips que raramente aparece nas manchetes. Os discos de silício chamam atenção, mas é na etapa final que eles viram peças capazes de mover um carro elétrico ou ligar uma usina solar à rede. Com o Módulo A em operação e espaço para mais quatro, a Infineon ganha um segundo grande polo no Sudeste Asiático, ao lado da Malásia, para os chips de potência em que já lidera o mercado mundial. Para a Tailândia, a inauguração é um passo concreto na meta de se tornar um polo de semicondutores até o fim da década.
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