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O modelo Bukele: o que a tecnologia fez, o que a prisão em massa fez e o que o Brasil não consegue copiar

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Matéria narrada pelo Professor

Em 2015, El Salvador tinha 106 homicídios por 100 mil habitantes, o país mais violento do mundo fora de uma guerra. Em 2025, teve 82 homicídios no ano inteiro, 1,3 por 100 mil, o menor índice oficial das Américas, à frente do Canadá e do Chile. O governo de Nayib Bukele atribui o resultado a uma guerra às gangues com drones, câmeras, biometria e uma prisão de 40 mil vagas vigiada por 600 câmeras. Este Aprofundamento separa o que a tecnologia fez nessa história do que fizeram um pacto secreto e o maior encarceramento em massa do planeta; conta de onde vem a inteligência artificial que os políticos prometem contra o crime, dos alvos de Gaza aos algoritmos da polícia alemã; mostra o que aconteceu com quem copiou o modelo, no Equador, em Honduras e nas câmeras de reconhecimento facial do Brasil; e explica por que a parte mais barata do modelo é a que não se exporta.

Parte 1. O resultado e a conta

Os números são de uma queda sem precedente na história recente de qualquer país: 106 homicídios por 100 mil em 2015; 36 em 2019, ano em que Bukele tomou posse; 7,8 em 2022; 2,4 em 2023; 1,9 em 2024; 1,3 em 2025, com 82 mortes; e 0,96 no que vai de 2026. O ministro da Segurança diz que isso “posiciona El Salvador como a nação mais segura do Hemisfério Ocidental”; análises americanas o colocam em segundo, atrás só do Canadá. Em qualquer régua, um país que era sinônimo de massacre virou destino de turismo: 3 milhões de visitantes até meados de 2025, US$ 3,6 bilhões de receita, quase 10% do PIB, e praias que eram território de gangue viraram resorts.

A conta também não tem precedente. Desde 27 de março de 2022, quando as gangues mataram 62 pessoas num único dia e o Congresso aprovou o “regime de exceção”, prorrogado 45 vezes e ainda em vigor, a polícia e o exército prenderam mais de 90 mil pessoas, entre elas mais de 3 mil crianças e adolescentes, sem mandado, sem acusação por até 15 dias, com base em “aparência física, tatuagens de qualquer tipo, denúncias anônimas e cotas de prisão”, nas palavras da Human Rights Watch; cerca de 8 mil foram soltas depois de revisão. A população carcerária chegou a 118 mil, 1,9% de todos os salvadorenhos, o dobro da capacidade do sistema e a maior taxa de encarceramento do mundo, de 1.600 a 1.900 presos por 100 mil habitantes; as prisões custam mais de US$ 200 milhões por ano, 3% do orçamento. Entre 458 e 500 pessoas morreram sob custódia, a maioria sem julgamento. Julgamentos coletivos passaram a admitir até 900 réus de uma vez. Uma comissão de juristas internacionais vê “razões sólidas” para falar em crimes contra a humanidade. E o próprio índice de homicídios é contado por uma régua mais estreita que o padrão internacional: exclui corpos achados em covas clandestinas, mortos pela polícia e mortos nas prisões, e a InSight Crime, que compila os números da região, registra que “a falta de transparência torna extremamente difícil verificar os dados oficiais”.

Parte 2. O que foi tecnologia, e o que não foi

A pergunta deste texto é quanto desse resultado se deve a tecnologia militar e inteligência artificial. A resposta honesta é: menos do que a propaganda diz, e em outra ordem.

Primeiro veio um pacto. Segundo a investigação do El Faro, o jornal mais respeitado do país, a queda de homicídios começou no fim de 2019, antes de qualquer drone, com uma negociação secreta entre o diretor de prisões de Bukele e os líderes presos da MS-13 e da Barrio 18: menos mortes e apoio ao partido do presidente nas eleições de 2021, em troca de dinheiro, celulares e regalias na cadeia. Em dezembro de 2021, o Tesouro dos Estados Unidos sancionou os dois funcionários envolvidos por exatamente isso. Os homicídios caíram 56% em 2020, e o governo nega o pacto até hoje. Em março de 2022, o pacto rompeu, as gangues mataram 87 pessoas num fim de semana, e o regime de exceção começou.

Depois veio a prisão em massa, que é uma tecnologia jurídica, não digital: suspender garantias, prender sem mandado, julgar por atacado e construir o CECOT, a prisão de 40 mil vagas inaugurada em 2023. É isso que esvaziou os bairros de gangue, e é isso que os direitos humanos cobram.

A tecnologia veio como apoio, e a maior parte dela é humilde. O Plano de Controle Territorial de 2019 tinha uma fase chamada “Modernização”, paga com um empréstimo de US$ 109 milhões do banco centro-americano BCIE e uma doação sul-coreana: armas, coletes, rádios, câmeras noturnas, helicópteros e drones. Os drones passaram a patrulhar áreas rurais e a coordenar cercos, junto com as câmeras de trânsito e das prefeituras; um programa com fornecedores turcos previa 113 drones com coleta biométrica, 25 para o exército e o resto para a polícia, e centros de monitoramento. O CECOT tem 600 câmeras, scanners biométricos e reconhecimento facial nos corredores, porque os presos chegam sem documento e o sistema precisa saber quem é quem. E o orçamento de 2026 destina US$ 1 milhão a um laboratório de drones, US$ 3,4 milhões a uma “agência de inovação em segurança pública” e US$ 2,4 milhões a software. São números de delegacia, não de exército.

A inteligência artificial, quando aparece, aparece contra jornalistas. A ferramenta digital mais sofisticada documentada em El Salvador é o Pegasus, o spyware israelense que o Citizen Lab encontrou em 37 aparelhos de 35 jornalistas e ativistas entre julho de 2020 e novembro de 2021, com o El Faro como alvo principal e um operador que só atuava no país. Em março de 2024, policiais salvadorenhos participaram de um teste do Clearview AI, o sistema de reconhecimento facial que compara um rosto com bilhões de fotos raspadas da internet, numa operação contra abuso infantil no Equador. Não há registro público de que o reconhecimento facial em massa ou algum “algoritmo preditivo” tenha tido papel na queda dos homicídios. O que teve papel foi prender 1,9% da população.

Parte 3. De onde vem a IA que os políticos prometem

Quando um candidato promete “inteligência artificial contra o crime”, ele está falando de três coisas que já existem, e as três têm ficha.

A primeira é a IA militar de alvos. Em abril de 2024, a revista israelense +972 revelou o Lavender, o sistema do exército de Israel que atribuiu a cada habitante de Gaza uma nota de 1 a 100 de probabilidade de ser combatente e marcou 37 mil pessoas como alvos nas primeiras semanas da guerra, com 10% de erro admitido, cerca de 3.700 pessoas, e uma revisão humana de “20 segundos” por alvo, que consistia em conferir se era homem. Um sistema auxiliar, “Onde está o papai?”, avisava quando o alvo chegava em casa, para o bombardeio. É a tecnologia mais avançada do gênero, e é o exemplo do que acontece quando a decisão de matar vira uma fila de aprovação.

A segunda é o policiamento preditivo, o software que diz onde o crime vai acontecer e quem vai cometê-lo. A Palantir, a mesma empresa cujas plataformas o exército israelense usa, vendeu o sistema Gotham à polícia de Nova Orleans num programa secreto de 2012 a 2018, numa cidade de maioria negra, e ao estado alemão de Hesse. Em 16 de fevereiro de 2023, a Corte Constitucional da Alemanha declarou inconstitucional a base legal do uso do Gotham pela polícia de Hesse e de Hamburgo para prevenção, por violar o direito à autodeterminação informacional, e deu prazo para reescrever a lei. O mecanismo que a Corte viu é o mesmo que os pesquisadores descrevem há uma década: o software manda mais polícia ao bairro que ele chama de “risco”, a polícia prende mais ali, e as prisões confirmam a previsão.

A terceira é o reconhecimento facial, e aqui os dados são brasileiros. No primeiro monitoramento nacional, em 2019, 90,5% das pessoas presas por reconhecimento facial eram negras; no Rio de Janeiro, mais de 80% das prisões erradas por reconhecimento facial recaíram sobre negros; na Micareta de Feira de Santana, de 903 alertas do sistema, 3,6% correspondiam a mandados. Um homem foi preso em Salvador, ao chegar a um parque com a mulher e o filho, e passou 26 dias na cadeia por um crime cometido dez anos antes por outra pessoa. O Brasil tem hoje, segundo o Instituto de Tecnologia e Justiça de Oxford, 506 sistemas de reconhecimento facial por IA, com alcance projetado de 87 milhões de pessoas, 41% da população, e nenhuma lei nacional para o uso de IA no processo penal; o projeto de lei de IA, aprovado no Senado em dezembro de 2024, espera a Câmara.

Parte 4. Quem copiou, e o que aconteceu

O modelo Bukele virou produto de exportação. Os mesmos contratados do CECOT projetaram a megaprisão do Equador; o governo Trump pagou US$ 6 milhões para mandar 252 venezuelanos deportados ao CECOT em 2025; Honduras adotou o regime de exceção em 2022; e a direita da região o cita em toda campanha.

País Estratégia Homicídios por 100 mil em 2025
El Salvador Regime de exceção, 90 mil presos, CECOT 1,3 (contagem oficial estreita)
Honduras Regime de exceção e militarização desde 2022 23,2, de 25,3 em 2024
Equador "Conflito armado interno" desde 2024, militares nas ruas e nas prisões, megaprisão 50,9, recorde, alta de 31%
Brasil Operações policiais, reconhecimento facial, drones 19,2
Chile 5,4
Argentina 3,7

O Equador é a prova de que o modelo não é uma tecnologia, é uma condição. Daniel Noboa copiou tudo: estado de emergência, exército nas ruas, prisões militarizadas, megaprisão com os projetistas de Bukele. O resultado foi o pior ano da história do país, mais de cem mortos dentro das prisões em 2025, e uma cadeia fechada em 2026 depois de rebeliões. A explicação dos analistas cabe numa frase: “Bukele enfrentou estruturas de gangue territoriais; Noboa enfrenta economias criminais transnacionais”. As maras salvadorenhas eram gangues de bairro, extorsão e território, com líderes presos e identificáveis; prender os soldados esvazia o bairro. O crime equatoriano é a rota da cocaína pelos portos, com aliados mexicanos e colombianos; prender os soldados não interrompe a mercadoria, e as prisões viram quartéis-generais.

O Brasil está mais perto do Equador do que de El Salvador. Em 28 de outubro de 2025, a Operação Contenção nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, com 2.500 agentes, blindados, helicópteros e drones, matou 121 pessoas, 4 policiais e 117 suspeitos, e prendeu mais de 100; os traficantes do Comando Vermelho responderam lançando granadas de drones contra as tropas de elite, um uso inédito no país. A facção que a polícia enfrentava não é uma gangue de esquina: é uma rede nacional com ramificações no Pará e no exterior, como o PCC. Do lado das câmeras, o Smart Sampa, de São Paulo, o maior sistema de vigilância da América Latina, com 25 mil câmeras inteligentes numa rede de 50 mil, atribuiu a si 632 prisões em 2026; Belo Horizonte instala 12 mil câmeras, 1.500 com reconhecimento facial, até o fim do ano. E as eleições de 2026 estão cheias de promessas de vigilância em massa que, como resumiu o Intercept, “são promessas fáceis, mas não garantem segurança”.

O que fica

Fato. El Salvador saiu de 106 para 1,3 homicídios por 100 mil em dez anos e é, pela contagem oficial, o país mais seguro das Américas ou o segundo, atrás do Canadá. O preço documentado: mais de 90 mil presos sem mandado, 1,9% da população encarcerada, a maior taxa do mundo, 458 a 500 mortos sob custódia, e uma contagem de homicídios que exclui os mortos pela polícia e nas prisões. A tecnologia comprada foi convencional: drones, câmeras, rádios, biometria de prisão, com um empréstimo de US$ 109 milhões; a IA documentada no país foi usada contra jornalistas. As cópias no Equador fracassaram; em Honduras, a queda é modesta; no Brasil, os sistemas de reconhecimento facial prendem errado, sobretudo pessoas negras.

Interpretação. O modelo Bukele funciona em três camadas, e a ordem importa: primeiro um pacto que baixou os homicídios sem prender ninguém, depois a prisão em massa quando o pacto rompeu, e por último a tecnologia, que serve para vigiar quem já está preso e para patrulhar o que já foi esvaziado. Vender a terceira camada como causa é a parte de marketing. E a segunda camada só funcionou porque o adversário era territorial, identificável e concentrado num país de 6 milhões de habitantes: prende-se 90 mil pessoas, e o bairro fica vazio. Onde o crime é uma economia, como no Equador e no Brasil, prender soldados não prende o dinheiro, e a IA de alvos, o policiamento preditivo e o reconhecimento facial entregam o que entregam em toda parte: mais prisões nos mesmos bairros, com uma taxa de erro que tem cor.

Cenário. Três coisas a observar. Em El Salvador, o dia em que o regime de exceção acabar, se acabar, e a resposta à pergunta que ninguém consegue verificar: quantos dos 90 mil eram gangue. No Equador, se a próxima megaprisão vira contenção ou quartel, como as anteriores. E no Brasil, a votação do projeto de lei de IA na Câmara e a campanha de 2026: se os candidatos prometerem o CECOT, é bom perguntar se prometem também o pacto, porque foi ele que veio primeiro.

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