Chip de 2 nanômetros da Fujitsu: o que é o MONAKA, quem fabrica e quando chega
Matéria narrada pelo Professor
A japonesa Fujitsu abre em novembro de 2026 as vendas do FUJITSU-MONAKA, um processador de 144 núcleos para data centers e inteligência artificial cuja parte de cálculo é feita em 2 nanômetros, a geração mais avançada de fabricação de chips em produção no mundo. O chip foi projetado e desenvolvido no Japão, com dinheiro público japonês, e é a peça central do que a empresa chama de “IA soberana”. A fabricação do silício, porém, não é da Fujitsu: a imprensa especializada aponta a taiwanesa TSMC, e a Fujitsu não cita a fundição. Este artigo explica o que o MONAKA é, o que quer dizer “2 nanômetros”, quem fabrica cada parte, o que a empresa promete e o que já foi demonstrado, e o caminho até o sucessor do supercomputador Fugaku, previsto para 2030.
Em resumo
| Ponto | Situação em outubro de 2026 |
|---|---|
| O que é | Processador central (CPU) para servidores de data center e IA, com 144 núcleos Arm |
| Tecnologia | Parte de cálculo em 2 nm; memória interna e comunicação em 5 nm; peças empilhadas em 3D |
| Vendas | Abertas a partir de novembro de 2026; servidores enviados a partir de abril de 2027 |
| Quem projeta | Fujitsu, no Japão, com subsídio da NEDO, agência pública japonesa |
| Quem fabrica o silício | A imprensa especializada aponta a TSMC; a Fujitsu não cita a fundição |
| Ligação com a Rapidus | A Fujitsu é acionista da fundição japonesa; o chip associado a ela é um futuro processador de IA de 1,4 nm, segundo a imprensa |
| Próximos passos | MONAKA-X, de 1,4 nm, previsto para 2029; supercomputador FugakuNEXT, com NVIDIA, por volta de 2030 |
| Brasil | Não há anúncio de venda para o país |
O que a Fujitsu anunciou
Em 14 de setembro de 2026, a Fujitsu publicou, a partir de Kawasaki, o comunicado de lançamento do FUJITSU-MONAKA e de uma linha de servidores com o mesmo nome. O texto apresenta o processador como “projetado e desenvolvido no Japão”, com empilhamento 3D, frequência de até 3,8 GHz e memória a 8.800 megatransferências por segundo, e informa que o projeto recebeu subsídio da NEDO, a agência japonesa de fomento à tecnologia. A empresa descreve o conjunto como “infraestrutura de IA soberana”, isto é, sob controle nacional, e diz que ele contribui para a “segurança nacional”.
Segundo o iTWire, que publicou a íntegra no dia seguinte, a CPU avulsa será vendida no mundo todo, com Estados Unidos e Ásia-Pacífico citados nominalmente, a partir de novembro de 2026. O servidor completo, montado na fábrica da Fujitsu em Kasashima, no Japão, será vendido no Japão e na Europa, com envios em sequência a partir de abril de 2027. O StorageReview detalha as versões do servidor: uma unidade de altura, duas unidades e duas unidades com quatro nós, com refrigeração a ar para salas de até 40 graus ou a água até 45 graus.
Antes do comunicado, a Fujitsu já tinha mostrado o chip em detalhe na Hot Chips 2026, o congresso anual de projetistas de processadores, em 24 de agosto. As lâminas da apresentação, publicadas pelo ServeTheHome, diziam que as amostras de avaliação já estavam disponíveis e que os envios do produto começariam em 2027, com números “sujeitos a mudança”.
O que quer dizer “2 nanômetros”
Um nanômetro é um milionésimo de milímetro. Durante décadas, o número que dá nome a cada geração de chips correspondia a uma medida física de dentro do transistor, a minúscula chave elétrica que liga e desliga bilhões de vezes por segundo. Isso deixou de ser verdade nos anos 1990. Hoje, “2 nanômetros” é um nome comercial que indica uma geração de fabricação: nenhuma peça do chip mede exatamente 2 nanômetros, segundo artigo da IEEE Spectrum, revista do instituto internacional de engenheiros eletricistas.
O que o nome indica, na prática, é o degrau mais recente da tecnologia de fabricação: transistores menores e mais próximos, que permitem colocar mais circuitos no mesmo espaço e gastar menos energia para fazer a mesma conta. Na geração de 2 nanômetros da TSMC, chamada N2, os transistores passaram a ser do tipo “nanosheet”, em que o canal por onde a corrente passa é envolvido pela chave por todos os lados, o que melhora o controle sobre a corrente. A TSMC informa que esse processo entrou em produção em volume no quarto trimestre de 2025.
Por dentro do MONAKA
O MONAKA é uma CPU, a unidade central de processamento: o chip que coordena tudo num computador. Não é uma placa de vídeo nem um acelerador de IA, mas foi desenhado para executar tarefas de IA ao lado dessas peças. Os dados técnicos abaixo vêm das lâminas da Fujitsu na Hot Chips e do comunicado de lançamento.
| Item | Dado |
|---|---|
| Núcleos | 144 núcleos Arm (arquitetura Armv9.3-A); até 288 num servidor com dois processadores |
| Memória | 12 canais de DDR5, "8000+" na lâmina e 8.800 MT/s no comunicado |
| Conexões | 96 pistas PCIe 6.0 / CXL 3.0, as vias que ligam o chip a placas e outros componentes |
| Versões | 350 W com refrigeração a ar e 2,1 GHz; 500 W com refrigeração líquida e 2,9 GHz |
| Frequência máxima citada no comunicado | Até 3,8 GHz |
| Construção | Parte de cálculo em 2 nm; memória interna rápida (SRAM) e entrada e saída em 5 nm; peças empilhadas sobre uma base de silício |
Arm é uma família de projetos de processador muito usada em celulares e, cada vez mais, em servidores. Em vez de usar a arquitetura x86 dos processadores Intel e AMD de computadores e servidores tradicionais, a Fujitsu seguiu o caminho que já tinha adotado no A64FX, o chip do supercomputador Fugaku, lançado em 2020.
O empilhamento 3D é a outra marca do projeto. Em vez de fazer um único bloco de silício com tudo dentro, a Fujitsu dividiu o chip em partes: a de cálculo, a mais cara, fica no processo de 2 nanômetros; a memória interna e a comunicação, que não precisam da tecnologia mais nova, ficam em 5 nanômetros. As partes são colocadas umas sobre as outras e ligadas por uma base de silício. A técnica usada vem da Broadcom, que em 26 de fevereiro de 2026 anunciou o envio do que chamou de primeiro sistema em chip sob medida de 2 nanômetros com integração “3.5D face a face”. No mesmo comunicado, Naoki Shinjo, da Fujitsu, chamou os 2 nanômetros e a integração 3D de peça-chave do MONAKA.
Quem fabrica o silício
Fundição, no mundo dos chips, é a empresa que fabrica os chips projetados por outras. A Fujitsu projeta, mas não fabrica a parte de 2 nanômetros. O comunicado de lançamento e as lâminas abertas da Hot Chips não dizem qual fundição produz o silício.
A imprensa especializada é unânime ao apontar a TSMC, de Taiwan, para a parte de 2 nanômetros e também para a de 5 nanômetros. É o que dizem o ServeTheHome, o Hardware Busters e o Tom’s Hardware. Esses veículos divergem apenas sobre a variante: N2, segundo o Tom’s Hardware em dezembro de 2024, ou N2P, segundo ServeTheHome e Hardware Busters em 2026.
Isso explica uma diferença de redação no próprio comunicado. O subtítulo fala em processador “integrado, desenvolvido e fabricado no Japão”; o corpo do texto diz “projetado e desenvolvido no Japão”. A montagem do servidor, essa sim, é feita na fábrica de Kasashima.
A Rapidus e o próximo chip, de 1,4 nm
A Rapidus é a fundição japonesa criada para produzir chips de 2 nanômetros dentro do Japão, em Chitose, na ilha de Hokkaido. A ligação da Fujitsu com ela é de outra natureza. Em fevereiro de 2026, a Rapidus anunciou uma rodada de ¥ 267,6 bilhões, dos quais ¥ 167,6 bilhões vieram de 32 empresas, e a Fujitsu aparece entre as acionistas.
O plano da Rapidus entregue ao Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, o METI, em 10 de fevereiro de 2026, prevê produção em massa de 2 nanômetros no segundo semestre do ano fiscal de 2027 e produção plena em 2028, segundo o jornal japonês Kumanichi. Em 11 de abril, o METI aprovou mais ¥ 631,5 bilhões para a empresa, segundo a TrendForce.
Nenhuma das fontes consultadas diz que o MONAKA de 2 nanômetros é ou será fabricado pela Rapidus. O que a imprensa japonesa relata é outro projeto: segundo o Nikkei e o site SBBIT, a Fujitsu vai desenvolver um processador dedicado a IA, de 1,4 nanômetro, a ser fabricado pela Rapidus, com custo de cerca de ¥ 58 bilhões, dos quais dois terços pagos pela NEDO. Essa informação não consta de comunicado da Fujitsu e está, por isso, na tabela de informações não confirmadas mais abaixo.
O que a Fujitsu promete
Os números de desempenho do MONAKA vêm da própria empresa e ainda não foram verificados por testes independentes. Estão separados aqui por isso.
| Alegação | Quem afirma |
|---|---|
| O dobro de vazão em inferência de IA em relação a "outras CPUs", sem dizer quais | Fujitsu, comunicado de 14/09/2026 |
| Cerca de metade dos servidores e da energia para a mesma carga de trabalho; até 80% menos energia gasta em refrigeração | Fujitsu, comunicado de 14/09/2026 |
| Tensão elétrica cerca de 30% menor que projetos semelhantes; cerca de 30% menos área no silício de 2 nm | Fujitsu, Hot Chips 2026 |
| Velocidade de cálculo estimada: 4.355 e 6.013 GFLOPS em DGEMM; 69,7 e 96,2 TOPS em INT8, nas duas versões | Fujitsu, Hot Chips 2026 (números "estimados") |
| Primeiro sistema em chip sob medida de 2 nm com integração 3.5D | Broadcom, 26/02/2026 |
Inferência de IA é o momento em que um modelo de inteligência artificial já treinado responde a pedidos, como quando um assistente escreve uma resposta. É a parte do trabalho que cresce à medida que mais pessoas e empresas usam IA no dia a dia, e é nela que a Fujitsu concentra a promessa de gastar menos energia.
Para que serve
O MONAKA não vai para computador pessoal nem para celular. O público são data centers, serviços de nuvem e supercomputação, segundo o StorageReview. Na prática, é o tipo de peça que fica dentro das salas de servidores que processam pedidos de IA, rodam bancos de dados e fazem cálculos científicos.
O argumento central da Fujitsu é a soberania. O comunicado apresenta o MONAKA como base de uma infraestrutura de IA sob controle nacional, projetada no Japão. Em abril, o ministro Akazawa, do METI, citou projetos de chips de IA da Fujitsu e da IBM Japão aprovados para usar a fabricação da Rapidus; essa fala foi vista apenas no resumo do buscador de uma reportagem da EE Times Japan.
O caminho até o FugakuNEXT
O Fugaku, supercomputador do centro de pesquisa japonês RIKEN, usa o processador A64FX, de 7 nanômetros e de 2020, também projetado pela Fujitsu. A lâmina final da Fujitsu na Hot Chips mostra a sequência: A64FX em 7 nm, de 2020; MONAKA em 2 nm, para 2027; e MONAKA-X em 1,4 nm, para 2029, “selecionado para o FugakuNEXT”.
O FugakuNEXT é o sucessor do Fugaku. Em 21 de agosto de 2025, a NVIDIA anunciou que RIKEN, Fujitsu e NVIDIA vão projetá-lo juntos, combinando CPUs MONAKA-X com as placas de vídeo da NVIDIA por meio do NVLink Fusion, uma ligação de alta velocidade entre os chips das duas empresas. A meta do RIKEN, vista no resumo do buscador, é ter o sistema operando por volta de 2030.
O contexto: quem mais produz em 2 nm
A geração de 2 nanômetros é disputada por poucas empresas no mundo. As informações abaixo servem apenas para situar o MONAKA no calendário da indústria.
| Empresa | Situação | Fonte |
|---|---|---|
| TSMC (Taiwan) | Processo N2 em produção em volume desde o 4º trimestre de 2025 | Página oficial da TSMC |
| Samsung (Coreia do Sul) | Processo SF2, com o Exynos 2600 em produção em massa, segundo a Digitimes | Resumo do buscador |
| Intel (EUA) | Processo 18A, usado no Core Ultra Série 3, apresentado na CES 2026 | Resumo do buscador |
| Rapidus (Japão) | Protótipo de transistor de 2 nm em julho de 2025; produção em massa prevista para o 2º semestre do ano fiscal de 2027 | Kumanichi; resumo do buscador |
Informações não confirmadas
| Informação | Quem afirma |
|---|---|
| A TSMC fabrica a parte de 2 nm (N2 ou N2P) e a de 5 nm do MONAKA | ServeTheHome, Hardware Busters, Tom’s Hardware; a Fujitsu não confirma |
| A Fujitsu vai encomendar à Rapidus um processador de IA de 1,4 nm, com desenvolvimento de cerca de ¥ 58 bilhões | Nikkei e SBBIT |
| Esse processador seria entregue a partir de 2029 e montado junto com a CPU | TechNews, de Taiwan, visto no resumo do buscador |
| O FugakuNEXT teria cerca de cem vezes o desempenho do Fugaku em aplicações | NVIDIA, citada pela DatacenterDynamics, visto no resumo do buscador |
Onde as fontes divergem
Algumas datas e números mudam conforme a fonte, e a diferença costuma ter explicação.
| Ponto | Uma versão | Outra versão | Leitura |
|---|---|---|---|
| Quando chega | Vendas a partir de novembro de 2026 | Envios em 2027 | Novembro abre vendas e pedidos; servidores saem a partir de abril de 2027 |
| Onde é feito | "Fabricado no Japão", no subtítulo do comunicado | "Projetado e desenvolvido no Japão", no corpo | O servidor é montado no Japão; o silício, segundo a imprensa, vem de Taiwan |
| Processo da TSMC | N2, segundo o Tom’s Hardware em 2024 | N2P, segundo ServeTheHome e Hardware Busters em 2026 | A Fujitsu não especifica |
| Memória | "8000+" MT/s, na lâmina da Hot Chips | 8.800 MT/s, no comunicado | O número mais recente é o do comunicado |
| Núcleos | 150, no anúncio de 2023 | 144, desde 2024 | O número atual é 144 |
| Chip da Fujitsu na Rapidus | "Classe 2 nm", na TrendForce | 1,4 nm, no SBBIT | Nenhum dos dois é confirmado pela Fujitsu |
E no Brasil?
Nenhuma das fontes consultadas cita o Brasil ou a América Latina. A Fujitsu anunciou a CPU para o mercado mundial, com Estados Unidos e Ásia-Pacífico citados nominalmente, e o servidor completo apenas para o Japão e a Europa. Não há, até aqui, anúncio de venda no país. Por ser uma peça de servidor, o MONAKA também não é algo que o leitor vá comprar: se chegar ao Brasil, será dentro de serviços de nuvem ou de data centers de empresas, e não há informação pública sobre quando ou se isso vai acontecer.
O que vem pela frente
O calendário oficial é curto. As vendas abrem em novembro de 2026, e os servidores começam a ser enviados em abril de 2027. A partir daí, devem aparecer os primeiros testes independentes, que vão mostrar se a promessa de gastar metade da energia em inferência de IA se confirma fora das lâminas da empresa. Do lado da fabricação, o próximo marco é a Rapidus, que planeja produzir chips de 2 nanômetros em massa no Japão a partir do segundo semestre do ano fiscal de 2027. Mais adiante, o MONAKA-X, de 1,4 nanômetro, está previsto para 2029, e o FugakuNEXT, para por volta de 2030.
O MONAKA mostra como a indústria de chips funciona hoje: o Japão projeta o processador, com dinheiro público e um discurso de soberania, e, segundo a imprensa especializada, o silício de ponta vem de Taiwan, enquanto o país financia uma fundição própria para fechar esse ciclo nos próximos anos.
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