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A Rússia quer o seu próprio Starlink para a guerra: 32 satélites contra 11 mil

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Matéria narrada pelo Professor

Em 4 de fevereiro de 2026, milhares de antenas Starlink usadas pelas tropas russas na Ucrânia ocupada viraram, nas palavras de um oficial ucraniano, “tijolos”. A SpaceX passou a aceitar só os terminais de uma lista branca do Ministério da Defesa da Ucrânia, e o exército russo, que havia comprado antenas por intermediários em Dubai e as colocava até em drones, perdeu num dia a internet que sustentava seus assaltos. Sete semanas depois, em 23 de março, a Rússia lançou os primeiros 16 satélites operacionais do Rassvet, o seu próprio Starlink, e em julho mais 16. Este Aprofundamento conta como a Starlink virou a espinha dorsal de uma guerra, por que ela funciona no território ocupado apenas para os ucranianos e está desligada sobre a Rússia, o que é o Rassvet e por que metade dos seus satélites não chegou à órbita certa, e compara, número a número, a escala e a qualidade de um sistema com 11 mil satélites e 12 milhões de assinantes com um que hoje passa sobre a frente de batalha duas vezes por dia, por uma hora.

Parte 1. Como uma empresa privada virou a rede de uma guerra

A Starlink chegou à Ucrânia em 28 de fevereiro de 2022, quatro dias depois da invasão, com 2 mil terminais pela Polônia. No fim daquele ano eram 22 mil; hoje, mais de 50 mil, pagos por Polônia, Estados Unidos, Alemanha e outros, e há estimativas de 100 mil. Em 2023, o governo ucraniano admitia que o sistema era “o núcleo da infraestrutura de comunicação” do país, civil e militar, sem equivalente. É por Starlink que as brigadas falam com o comando, que o sistema de gestão de batalha Delta funciona e que os drones de “médio alcance”, de 50 a 200 quilômetros além da linha de frente, são pilotados: um drone com antena Starlink não pode ser interferido por rádio, porque não usa rádio de solo.

O controle desse poder nunca esteve com a Ucrânia. Em setembro de 2022, Elon Musk recusou ligar a cobertura da Crimeia para um ataque de drones navais à frota russa. Em fevereiro de 2023, a SpaceX restringiu o uso em armas. E o mapa da cobertura é desenhado pela empresa: a Starlink funciona no território ucraniano, inclusive nas áreas ocupadas pela Rússia, mas está desligada sobre a Rússia. Em agosto de 2026, Zelensky pediu a Trump que convencesse Musk a ligar o serviço dentro do território russo, para que os drones ucranianos de longo alcance acertassem alvos precisos em vez de “áreas gerais”; em 2 de setembro, três fontes disseram ao Kyiv Independent que Musk se opõe, por achar que não encurtaria a guerra, temer escalada e considerar que “é uma decisão política que exige aprovação da Casa Branca”. Moscou, por sua vez, trata a constelação como “ameaça grave” e, segundo documentos obtidos pelo The Insider, Der Spiegel e Le Monde em julho de 2026, planeja com a China, desde um fórum militar em Guangzhou em 2023, uma escalada em três níveis contra ela: pressão regulatória, interferência seletiva e, no limite, “malware, exploração de vulnerabilidades” e destruição física de satélites a custo baixo, “mais rápido do que a reposição”.

E a Rússia usava a Starlink. Em fevereiro de 2024, a inteligência ucraniana confirmou que as tropas russas tinham milhares de terminais comprados por intermediários, de Dubai a empresas de fachada; a SpaceX diz que nunca vendeu à Rússia. Em janeiro de 2026, a Ucrânia reuniu provas de “centenas” de ataques de drones russos com antenas Starlink a bordo, inclusive Shaheds, redirecionados em voo e imunes à interferência. O ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, mandou a Musk a lista dos terminais ucranianos e pediu que todo o resto fosse desligado. Em 4 e 5 de fevereiro, foi. Um oficial da 12ª Brigada Azov relatou que “os terminais deles simplesmente se recusaram a funcionar, viraram tijolos”; um conselheiro do ministério chamou de “catástrofe” para o comando russo, com assaltos parados em vários setores. Musk escreveu que “as medidas que tomamos para impedir o uso não autorizado pela Rússia funcionaram”. Os russos recorreram a operadoras de celular das áreas ocupadas, pontes de Wi-Fi, fibra óptica desenrolada até as posições e rádio, tudo, segundo um analista ucraniano, “ainda mais vulnerável e instável”. E, segundo a mesma investigação europeia de julho, especialistas chineses ajudaram a montar uma rede que devolveu internet às tropas russas na frente. Foi nesse mês de fevereiro que o Rassvet deixou de ser um projeto de telecomunicações e virou uma urgência militar.

Parte 2. O Rassvet: um Starlink de escritório de projetos

O Rassvet, “amanhecer”, é da Bureau 1440, uma empresa que nasceu em novembro de 2020 como escritório de projetos da operadora MegaFon, do grupo USM de Alisher Usmanov, e passou em 2022 para a ICS Holding, que está na lista de sanções americanas. O nome vem das 1.440 órbitas do Sputnik-1. O plano russo anterior, o Sfera, da Roscosmos, com 600 satélites prometidos para 2030, foi absorvido: o Rassvet virou o programa. O dinheiro é público e privado: 102,8 bilhões de rublos do orçamento federal e 329 bilhões da própria empresa até 2030, segundo a imprensa russa, e uma emenda de 2024 destinou 9,35 bilhões de rublos a 66 satélites. A fábrica tem 50 mil metros quadrados no tecnoparque ZIL, em Moscou; os lançamentos são em foguetes Soyuz-2, de Vostochny e Plesetsk, organizados pelo braço espacial do Ministério da Defesa.

A tecnologia é a mesma família da Starlink: satélites planos em órbita baixa, a 800 quilômetros, bandas Ka e Ku, enlaces a laser entre satélites, propulsão elétrica, protocolo 5G para uso direto por aparelhos, e terminais de usuário com antena de varredura eletrônica, de até 60 centímetros e 15 quilos, com promessa de até 1 gigabit por segundo e latência abaixo de 70 milissegundos, contra mais de 600 dos satélites geoestacionários russos. Os testes foram modestos e honestos: em junho de 2023, três satélites Rassvet-1 entregaram 48 megabits por segundo com 38 milissegundos de latência; em maio de 2024, três Rassvet-2 testaram o laser e o 5G. Uma fundação americana notou que o desenho do satélite operacional é quase igual ao dos Qianfan chineses, da Shanghai Spacecom, que entraram em serviço um ano e meio antes, e sugere que a Rússia adaptou hardware chinês em vez de construir a cadeia própria; a análise ucraniana do Centro de Reformas de Defesa fala em “forte dependência de componentes chineses de prateleira, apesar da alegação de produção nacional”. É inferência, não prova; o que está documentado é a cooperação chinesa com a rede de campanha russa.

O cronograma: 156 satélites até o fim de 2026, 292 até 2027, quando começaria o serviço comercial parcial, e 900 até 2035. A realidade, até 6 de setembro de 2026: 32 satélites lançados, em duas levas de 16, em 23 de março e no fim de julho. E aqui entra o problema que os rastreadores independentes viram e os ucranianos divulgaram. Os satélites são soltos numa órbita baixa e precisam subir por conta própria, com o motor elétrico, até os 800 quilômetros. Da primeira leva, cerca de 12 estabilizaram entre 500 e 550 quilômetros, um reentrou na atmosfera em junho sem manobrar, e os outros travaram no meio da subida. Da segunda, segundo a avaliação do Institute for the Study of War de 31 de agosto, “nenhum dos 16 chegou sequer aos 550 quilômetros” da primeira; muitos estão entre 300 e 400, e pelo menos dois caminham para reentrar. A meta de 156 até dezembro já está oficialmente atrasada em três meses.

Mesmo assim, funciona, do jeito que dá. Com uma dúzia de satélites úteis, o sistema passa sobre a Ucrânia quatro vezes por dia, e em duas delas sustenta conexão estável por uma hora a uma hora e meia. O vice-chefe da inteligência militar ucraniana, general Vadym Skibitskyi, disse em 10 de agosto que a Rússia “está lançando significativamente mais rápido do que previa” e que, “quando implantar a constelação completa, o sistema vai funcionar como a Starlink”. O conselheiro presidencial Serhii Beskrestnov foi mais preciso: “em teoria, a Rússia já poderia instalar terminais em Shaheds e sincronizar os ataques com as passagens dos satélites”, mas para integração confiável com drones precisaria de 200 a 250 satélites, o que coloca o risco real em 2027. O comandante das forças de drones, Robert Brovdi, chamou o programa de “um risco para o planeta inteiro”, porque “uma ditadura terá acesso a informação no globo todo”: diferentemente da Starlink, os terminais russos não terão a cerca geográfica que impede ataques dentro da Rússia.

Parte 3. Escala e qualidade, lado a lado

Starlink (SpaceX) Rassvet (Bureau 1440)
Satélites ativos 10.413 em 1º de junho de 2026; cerca de 11.000 em setembro; 15.000 autorizados 32 lançados; cerca de 12 na órbita de trabalho
Lançamentos Dezenas por ano no Falcon 9; V3 no Starship a partir do fim de 2026, com 20 vezes a capacidade por lançamento 2 em 2026; 24 planejados até 2030, no Soyuz-2
Meta Constelação já em operação contínua 156 até 2026 (atrasada), 292 até 2027, 900 até 2035
Cobertura Contínua, 164 países Duas janelas por dia de 1 a 1,5 hora sobre a Ucrânia
Usuários 12 milhões de assinantes (junho de 2026); 10 milhões no serviço direto ao celular Zero comerciais; terminais em teste em trem e na frente
Velocidade medida Mediana de 118 Mbps nos EUA e 166 na Europa (Ookla, 2025 e 2026) Teste de 2023: 48 Mbps; promessa de 1 Gbps
Latência 25 a 60 ms 38 ms no teste; promessa de menos de 70
Enlaces a laser 4 por satélite, 100 Gbps, 42 petabytes por dia Testados em 2024; presentes no modelo operacional
Dinheiro Receita de conectividade de US$ 11,4 bilhões em 2025, lucro operacional de US$ 4,4 bilhões 432 bilhões de rublos previstos até 2030, cerca de US$ 5 bilhões, dois terços da própria empresa
Terminais na guerra Mais de 50 mil na Ucrânia (29,5 mil da Polônia); 3 mil no Starshield militar Em desenvolvimento; terminal fixo e móvel, 60 cm, 15 kg
Órbita 480 a 570 km, cinco camadas 800 km, meta; maioria abaixo de 550
Controle político SpaceX decide o mapa: desligada sobre a Rússia, restrita em armas Estado russo decide: sem cerca geográfica

A leitura da tabela é dura. Em escala, a Starlink tem 340 vezes mais satélites lançados e cerca de 900 vezes mais satélites em órbita útil; lança em um mês mais do que o Rassvet planeja lançar até 2030; e tem 12 milhões de clientes pagando, contra nenhum. Em qualidade, a Starlink tem medições independentes de velocidade em 164 países, e o Rassvet tem um teste de 2023 e uma promessa. Em confiabilidade, a Starlink perde satélites por desgaste planejado, e o Rassvet perdeu, na segunda leva, a capacidade de subir. Se a comparação fosse comercial, não haveria comparação. Mas a comparação não é comercial.

Parte 4. Por que 12 satélites importam mesmo assim

O que a Ucrânia aprendeu em fevereiro é que, numa guerra de drones, a rede é a arma. Um exército sem Starlink coordena pior, vê menos longe e perde os drones de médio alcance. Para a Rússia, um sistema que dá uma hora de internet duas vezes por dia, em horários previsíveis, já resolve dois problemas: sincronizar o comando de posições dispersas nas janelas, e programar ondas de Shaheds com terminais a bordo para voar quando o satélite passa, exatamente o cenário que Beskrestnov descreveu. Não é a Starlink; é o suficiente para começar a substituir os terminais que viraram tijolos. E cada leva que chega à órbita alarga a janela: com 60 satélites úteis, várias horas por dia; com 250, o dia inteiro. O ISW e os analistas ucranianos convergem: o Rassvet “está longe da prontidão militar” e “faltam várias centenas de satélites”, e é justamente por isso que a Ucrânia monitora “cada movimento”, nas palavras de Fedorov, que estimou em anos o tempo para um sistema comparável.

Há um segundo motivo, que não está na Ucrânia. A Starlink é um sistema que um governo, o americano, e uma pessoa, Musk, podem ligar e desligar por país, e fizeram isso na Crimeia, na Rússia e com os russos. A China, com o Guowang e o Qianfan, mais de 350 satélites lançados até meados de 2026 e 28 mil planejados, está construindo a alternativa que não depende de Washington; a Europa, com o IRIS², 348 satélites entre 2029 e 2032, a alternativa que não depende de Musk. O Rassvet é a versão russa dessa corrida, com menos dinheiro, menos foguetes e mais pressa, e com a diferença de que, se vier a funcionar, o Centro de Reformas de Defesa ucraniano avisa, seus terminais podem ir para o Irã, a Coreia do Norte e grupos paramilitares, que hoje não têm nada parecido. A Starlink virou um instrumento de poder porque é única. O Rassvet existe para que deixe de ser.

O que fica

Fato. A Starlink tem cerca de 11 mil satélites, 12 milhões de assinantes e cobertura contínua; funciona no território ucraniano ocupado apenas para terminais autorizados pela Ucrânia, está desligada sobre a Rússia, e em fevereiro de 2026 cortou milhares de terminais russos. O Rassvet tem 32 satélites lançados, cerca de 12 na órbita de trabalho, a segunda leva presa em órbitas baixas, e passa sobre a frente duas vezes por dia por até uma hora e meia. A meta de 156 satélites em 2026 já atrasou; a de 292 em 2027 é a que decide se ele vira arma.

Interpretação. A comparação de escala e qualidade é de mil para um, e ainda assim a pergunta certa não é “o Rassvet alcança a Starlink?”, porque não alcança nesta década. É “quantos satélites bastam para o que o exército russo precisa?”. A resposta dos especialistas ucranianos, 200 a 250, está a duas ou três levas bem-sucedidas de distância, e a Rússia lança a cada quatro meses, com metade dos satélites ficando pelo caminho. O risco não é a Rússia ter um Starlink; é ter um Starlink de uma hora por dia sem cerca geográfica, na mão de quem já mostrou que coloca antena em drone.

Cenário. Três datas. A terceira leva do Rassvet, se subir à órbita certa, muda a conta das janelas e diz se o problema da propulsão foi resolvido. O fim de 2026, quando a meta de 156 satélites será cobrada, e a distância entre o discurso e a órbita vai mostrar quanto da produção é russa e quanto é chinesa. E a decisão de Musk sobre ligar a Starlink dentro da Rússia, pedida por Kiev e negada até agora: se ela vier, a Rússia terá razão em chamar a constelação de ameaça, e a corrida pelo Rassvet, pelo Qianfan e pelo IRIS² deixará de ser sobre internet e passará a ser sobre quem decide onde uma guerra pode ser travada.

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