Placas de vídeo em 2026: a Nvidia reina, a AMD tropeça e a Intel muda de guerra
Matéria narrada pelo Professor
De cada dez placas de vídeo vendidas no mundo no início de 2026, nove eram Nvidia. A AMD, que há quinze anos disputava metade do mercado, oscila entre 5% e 8%, mesmo tendo hoje a placa com melhor relação entre preço e desempenho da geração. E a Intel, que entrou na briga em 2022 e conquistou 1% com a placa barata mais elogiada do mercado, acabou de cancelar a sucessora dela para vender a mesma pastilha como acelerador de inteligência artificial. Este Aprofundamento explica como o trono ficou tão alto, por que a placa de US$ 2 mil da Nvidia custa US$ 4.700 e ninguém abandona a marca, onde a AMD errou com o consumidor e o que a Intel decidiu que quer ser. No meio, uma crise de memória que encareceu tudo e transformou uma indústria de jogos em nota de rodapé do negócio de IA.
O tamanho do trono
Os números da Jon Peddie Research, a consultoria que conta as placas de vídeo avulsas vendidas no mundo há três décadas, contam a história sem adjetivos.
| Trimestre | Placas vendidas | Nvidia | AMD | Intel |
|---|---|---|---|---|
| 4º trimestre de 2025 | 11,48 milhões | 94%, recorde | 5%, queda de 10 pontos em um ano | 1% |
| 1º trimestre de 2026 | cerca de 12 milhões | 90% | 8% | 1% |
| 2º trimestre de 2026 | recorde de quatro anos, puxado por notebooks | ligeira alta | ligeira alta | queda de 1 ponto |
O que os números não dizem sozinhos: 15 anos atrás a AMD tinha quase metade desse mercado. E a Nvidia chegou aos 94% no mesmo trimestre em que o preço da memória disparou, a taxa de PCs de mesa com placa de vídeo dedicada caiu para 55%, e a própria JPR passou a prever queda de quase 10% no mercado de placas em 2026 e encolhimento até 2029. O trono cresceu enquanto o reino encolhia.
Do lado de quem joga, o levantamento de hardware do Steam mostra a fatia da AMD subindo devagar, de 16,4% para 19,1% das máquinas entre o início de 2025 e o de 2026, enquanto as três placas mais usadas continuam sendo Nvidia: RTX 3060, RTX 4060 de notebook e RTX 5070. E do lado das empresas, o jogo virou detalhe. No trimestre encerrado em julho de 2026, a Nvidia faturou US$ 96,2 bilhões, dos quais US$ 89 bilhões em centros de dados e US$ 7,2 bilhões em GeForce, 7,5% do total. A AMD faturou US$ 11,5 bilhões e o segmento de jogos rendeu US$ 779 milhões, queda de 31% em um ano, 6% do negócio; a empresa avisou que o segmento deve cair mais de 20% pelo custo dos componentes. As duas empresas que disputam a sua placa de vídeo ganham dinheiro em outro lugar.
Por que a Nvidia: o software, a mente e a placa de US$ 4.700
A vantagem da Nvidia não é só de silício. É de três camadas. A primeira é o software: o DLSS, que reconstrói a imagem com inteligência artificial e chegou à quinta geração em setembro de 2026, quando o Tectônica dedicou um Aprofundamento a ele; em teste cego com seis jogos, quase metade dos jogadores preferiu o DLSS 4.5 ao FSR da AMD e até à imagem nativa. A segunda é o CUDA, a plataforma de programação que faz de toda GeForce uma ferramenta de IA e trabalho, e que amarra profissionais e estudantes à marca antes de eles escolherem uma placa para jogar. A terceira é a mente do comprador: como escreveu o XDA em abril de 2026, “a maioria dos jogadores deveria, logicamente, comprar AMD”, que dá “mais desempenho e mais memória por dólar”, e compra Nvidia porque ela é “a escolha padrão”, construída em décadas de liderança, marketing e presença nos notebooks e PCs montados, enquanto a AMD carrega a fama dos “aquecedores de ambiente” e dos drivers instáveis da era Vega e RX 5000, “mesmo depois de ter resolvido os dois problemas”.
O caso da RTX 5090 mostra que essa fidelidade sobrevive a quase tudo. A placa mais poderosa do mundo foi lançada em janeiro de 2025 por US$ 1.999, com 32 GB de memória GDDR7 e 575 watts de consumo, e teve o pior lançamento da história da marca: conectores de energia derretendo, como na geração anterior, com um fio medido a 150 °C; um defeito de fabricação que deixou 0,5% das unidades com uma unidade de rasterização a menos e 4% menos desempenho; a remoção do suporte ao PhysX de 32 bits, que quebrou jogos antigos; e a promessa de que “a RTX 5070 supera a RTX 4090”, verdadeira só com a geração de quadros por IA ligada. Nada disso tirou um ponto de participação da Nvidia.
E então veio a memória. A demanda dos centros de dados por chips de memória, GDDR7, GDDR6 e HBM, consumiu a produção mundial; em algumas placas de topo, a memória passou a responder por mais de 80% do custo dos componentes. A AMD subiu preços em janeiro de 2026 e a Nvidia em fevereiro. A RTX 5090, que custava cerca de US$ 2.250 em meados de 2025, chegou a uma mediana de US$ 4.299 em junho de 2026 e US$ 4.699 em agosto, US$ 5.112 na Coreia do Sul; a Nvidia passou a oferecer “placas de papel”, cupons para entrega futura. A atualização “Super”, que daria mais memória às RTX 5070, 5070 Ti e 5080, não foi confirmada até o fim de junho, porque exigiria justamente o chip de 3 GB mais escasso do mercado. A placa de topo da Nvidia dobrou de preço sem mudar, e continua esgotada.
A AMD: o melhor negócio com a pior execução
A Radeon RX 9070 XT é, por consenso da imprensa, a placa que a AMD precisava. Lançada em março de 2025 por US$ 599, entrega 95% do desempenho da RTX 5070 Ti de US$ 749, o nível da RTX 4080 pela metade do preço de lançamento dela, com 16 GB de memória, traçado de raios finalmente competitivo e o FSR 4, o primeiro upscaler da AMD por IA. O TechRadar a chamou de “a placa que todo mundo estava pedindo”; o GamersNexus, o TechSpot e o Club386 chegaram à mesma conta: 20% mais barata por 5% menos. É a melhor relação entre preço e desempenho da geração. E é o teto da AMD: a empresa decidiu não fazer uma placa para enfrentar a RTX 5090 nem a 5080.
Essa decisão tem nome e data. Em setembro de 2024, na feira IFA, Jack Huynh, o chefe da divisão de computação e gráficos da AMD, disse que “brincar de rei da montanha é divertido, mas não aumentou a nossa participação de mercado da última vez”, e que a meta era chegar a 40% ou 50% do mercado com placas de volume, para que os desenvolvedores otimizassem para a AMD. Ao mesmo tempo, anunciou a fusão das arquiteturas de jogos e de centro de dados numa só, a UDNA. É uma estratégia defensável no papel. Na prática, a AMD lançou a placa de volume certa e errou no que o consumidor mais sente.
Errou no preço. Os US$ 599 eram um preço de última hora, sustentado por um reembolso da AMD aos fabricantes, que só cobria os modelos básicos; os parceiros tinham produzido as placas para um lançamento em janeiro a um preço-alvo de US$ 700, e as lojas as venderam a US$ 850 por meses. A RX 9070 XT só foi encontrada ao preço oficial nos Estados Unidos em novembro de 2025, oito meses depois do lançamento; a imprensa especializada cunhou o termo “preço sugerido falso” para descrever a geração inteira, mas a AMD, que vendia a placa do valor, foi a mais cobrada. Errou no software: o FSR Redstone, a resposta ao DLSS 4, chegou “meio cozido”, nas palavras do XDA, preso à RDNA 4, com cerca de 30 jogos e a promessa de dobrar até junho, enquanto o DLSS conta centenas; em março de 2026 o mesmo site o descrevia como “esquecido e inacabado” antes mesmo do sucessor, o FSR Diamond, que deve exigir a próxima geração de placas. E errou no tempo: a próxima arquitetura, RDNA 5 ou UDNA, com o rumor de volta ao topo, é esperada pelos fabricantes de placas para o segundo semestre de 2027, junto com a próxima Nvidia. Até lá, quem quer o topo não tem AMD para comprar, e quem quer o meio precisa confiar num preço que levou oito meses para existir.
O resultado é o paradoxo da tabela de participação: a AMD subiu de 5% para 8% num trimestre porque a 9070 XT enfim chegou ao preço certo e a Nvidia sumiu das lojas, e ainda assim a divisão de jogos encolheu 31%, porque os consoles envelheceram e a memória encareceu. A AMD tem o melhor produto do meio da tabela e o pior momento para vendê-lo.
A Intel: a placa barata que sumiu e a placa de IA que ficou
A Intel entrou no mercado de placas avulsas em 2022 com a Arc de primeira geração, drivers ruins e vendas ínfimas. Em dezembro de 2024, com a Arc B580, acertou: 12 GB de memória por US$ 249, drivers maduros, e a única placa boa abaixo de US$ 300 num mercado que a Nvidia e a AMD abandonaram. Esgotou nas lojas em dias, teve reposição semanal, e numa das maiores lojas alemãs chegou a vender mais que a RX 9070 e a RTX 5060 Ti de 8 GB. A Intel chamou a recepção de “fantástica” e se disse “comprometida” com o mercado. No Brasil, a B580 é a única placa desta análise que ficou mais barata em 2026 enquanto as outras subiam.
E então a Intel fez a escolha que define o seu terceiro lugar. A sucessora maior, a Arc B770 para jogos, com 16 GB, esperada para o início de 2026, foi cancelada por “falta de viabilidade financeira”: custo da memória, custo de validar, distribuir e dar suporte a uma placa de jogos com menos de 1% de mercado, e uma empresa em dificuldade em outros negócios. A pastilha de silício que seria a B770 virou a Arc Pro B70, com 32 GB, US$ 949, lançada em 27 de março de 2026 e descrita pela própria Intel como “uma placa só de IA”. Ela se junta às Arc Pro B60, de 24 GB por US$ 500, e B50, de 16 GB por US$ 299, e ao Projeto Battlematrix, estações de trabalho com até oito dessas placas e 192 GB de memória, de US$ 5 mil a 10 mil, para rodar modelos de linguagem em casa ou na empresa, longe da nuvem. Na conta da Intel, num modelo Llama de 8 bilhões de parâmetros, a B60 entrega 1,25 vez mais desempenho por dólar que a RTX Pro 6000 da Nvidia e 4 vezes mais que a L40S.
A estratégia vem de cima. Em 3 de fevereiro de 2026, o presidente-executivo Lip-Bu Tan anunciou que a Intel vai “entrar em GPUs” com um arquiteto-chefe contratado e um veterano vindo da Qualcomm, para inferência de IA e centros de dados; a próxima geração de placas de jogos, a Celestial, tem relatos conflitantes de atraso e cancelamento. Traduzindo: a Intel descobriu que a mesma pastilha que dá 1% do mercado de jogos, brigando por US$ 249, vende por US$ 949 para quem quer rodar IA localmente com muita memória barata, um mercado em que a Nvidia cobra US$ 8 mil pela placa profissional de 96 GB e a AMD quase não aparece. É um foco mais estreito, e mais lucrativo, do que jogar com mais quadros por segundo. O jogador de orçamento apertado, que ganhou com a B580, perdeu a próxima rodada.
O Brasil na conta
| Placa | Preço oficial nos EUA | Menor preço no Brasil em 6 de setembro de 2026 | Nota |
|---|---|---|---|
| Nvidia RTX 5090, 32 GB | US$ 1.999 (mercado: US$ 4.699) | R$ 24.999 (mínimo já registrado: R$ 22.989; modelos a R$ 49.999) | Quase toda esgotada; 65% acima do preço mundial |
| AMD RX 9070 XT, 16 GB | US$ 599 | R$ 4.599 (mínimo: R$ 4.299) | Menor variação de preço do mercado, +7% |
| Intel Arc B580, 12 GB | US$ 249 | R$ 2.289 (mínimo: R$ 2.059) | Única que caiu em 2026; pouca oferta |
A régua brasileira confirma a mundial com juros. Uma RTX 5090 custa cinco RX 9070 XT, ou onze Arc B580. A placa da AMD é a única que se manteve perto do preço de lançamento, e a da Intel, a única que baixou. Quem monta um PC no Brasil em 2026 tem, na prática, três escolhas racionais: a B580 para jogar em 1080p por menos de R$ 2.500, a 9070 XT para 1440p e 4K com FSR por menos de R$ 5 mil, e uma Nvidia se precisar do DLSS, do CUDA ou de rodar IA com muita memória, pagando o ágio de quem não tem concorrente.
O que fica
Fato. A Nvidia tem de 90% a 94% do mercado de placas avulsas e faz de GeForce 7,5% da receita. A AMD tem de 5% a 8%, a placa de melhor custo-benefício da geração, nenhuma placa de topo, um preço oficial que levou oito meses para ser real, um upscaler atrasado e a próxima geração em 2027. A Intel tem 1%, a placa barata mais elogiada de 2025, cancelou a sucessora e transformou o chip dela numa placa de IA de US$ 949. A memória para IA encareceu todas, dobrou a RTX 5090 e fez a JPR prever encolhimento do mercado até 2029.
Interpretação. A leitura do leitor está certa em quase tudo e precisa de um ajuste. A Nvidia reina, e reina mais por software e hábito do que por hardware, tanto que sobreviveu ao pior lançamento da própria história dobrando de preço. A AMD é segunda por erros com o consumidor, e o erro central não foi técnico: foi vender a placa certa com um preço que não existia e um software que chegou tarde, enquanto abria mão do topo, onde a marca se constrói. A Intel está em terceiro e “ganhando espaço” no sentido preciso: espaço na conversa e no nicho de IA local, não no mercado, onde sua fatia caiu no último trimestre; a decisão de cancelar a B770 diz que a Intel não quer disputar quadros por segundo, quer disputar gigabytes de memória por dólar, e essa é a única briga em que a Nvidia está exposta.
Cenário. Três coisas a observar. O relatório da JPR do segundo trimestre, em setembro, que dirá se a alta da AMD de 5% para 8% foi tendência ou soluço da Nvidia sem estoque. O segundo semestre de 2026, quando o FSR Redstone deveria chegar aos jogos e a Nvidia decidir se faz uma geração “Super” sem memória para fazê-la. E 2027, quando a AMD volta, se voltar, ao topo com a UDNA, contra uma Nvidia que já vende a próxima geração para os centros de dados antes de pensar em quem joga. Até lá, a régua é a de sempre: a melhor placa é a que você consegue comprar ao preço de tabela, e em 2026 isso descreve uma AMD.
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