EntrarCriar conta

OTAN sem os EUA é capaz de combater a Rússia e seus aliados?

0
2026-09-12-otan-sem-os-eua-autonomia-capitulo-01
0:00--:--

Matéria narrada pelo Professor

A pergunta que domina o debate europeu é se os Estados Unidos apareceriam. A pergunta espelhada, do outro lado, é se Rússia, China, Irã e Coreia do Norte formam mesmo um bloco. As duas são perguntas sobre papel, e papel é a evidência mais fraca que existe. Ninguém socorre aliado por causa de cláusula: socorre por interesse, e só consegue socorrer se tiver capacidade. Este aprofundamento troca a pergunta jurídica pela material. Quem consegue sustentar uma guerra longa sem pedir nada a ninguém, e o que cada lado ganha deixando o outro sangrar.

O que as cláusulas realmente valem

Vale começar desmontando os dois mitos ao mesmo tempo, porque eles são o mesmo erro com o sinal trocado.

O artigo 5 da OTAN, o texto mais citado do planeta em matéria de defesa, não obriga ninguém a lutar. Ele diz que cada aliado tomará “a ação que julgar necessária”. Em português claro: o que cada um quiser.

Do outro lado, o compromisso mais duro do mundo hoje não está na OTAN. Está no artigo 4 do tratado entre Rússia e Coreia do Norte, assinado em 18 de junho de 2024 e em vigor desde 4 de dezembro daquele ano. Ele manda prestar “assistência militar e de outro tipo com todos os meios à sua disposição, sem demora”. É mais forte, no texto, que o artigo 5.

E não é por isso que a Coreia do Norte mandou soldados. Ela mandou porque foi paga. O Instituto de Estratégia de Segurança Nacional da Coreia do Sul estima, em março de 2026, que Pyongyang embolsou entre 7,7 e 14,4 bilhões de dólares com a cooperação militar desde agosto de 2023, além de tecnologia de satélite, de submarino e de defesa aérea. E ganhou algo que dinheiro não compra: cerca de 3.000 veteranos voltaram para servir de instrutores. A guerra virou escola.

O teste decisivo veio em 2026. Quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, a Rússia tinha um tratado de parceria estratégica assinado em janeiro de 2025 e não fez nada. O tratado não tinha cláusula de defesa mútua, só uma promessa de não ajudar o agressor. O porta-voz do Kremlin declarou que Teerã sequer pediu ajuda militar.

Mas a razão não foi jurídica. Entre 25 de março e 21 de abril de 2026, com o choque de preços provocado pela guerra, o lucro russo com petróleo chegou a 760 milhões de dólares por dia, dobrando a receita mensal para cerca de 24 bilhões. Moscou lucrou com a derrota do parceiro. Nenhuma cláusula teria mudado isso, e nenhuma cláusula teria impedido.

Cláusula não é irrelevante. É secundária. Serve de cobertura jurídica interna, de sinal para terceiros e de moldura para o que já se decidiu fazer por outro motivo.

A Europa não é oca, e isso precisa ser dito primeiro

O retrato catastrofista da Europa desarmada não sobrevive aos números.

OTAN europeia Rússia
Militares na ativa ~1,86 milhão 1,26 milhão
Gasto militar em 2025 US$ 559 bilhões US$ 190 bilhões
Receita das empresas de defesa em 2024 US$ 151 bilhões (26 empresas) US$ 31,2 bilhões (2 empresas)

O instituto de estudos estratégicos britânico, no seu balanço de junho de 2026, é direto: “em termos agregados, a Europa não é oca”. Em várias categorias a OTAN europeia iguala ou supera os números russos de plataformas, e qualitativamente muitos sistemas europeus são comparáveis ou superiores.

A lista do que a Europa faz bem é longa e pouco contada. As marinhas europeias têm coletivamente muito mais navios de combate de superfície que a Marinha russa — só França, Itália, Reino Unido, Espanha e Alemanha somam 94. O desenho de fragata britânico Type 26 tem 34 cascos contratados no mundo, depois de a Noruega escolhê-lo em agosto de 2025 contra a concorrência francesa, alemã e americana. Em submarinos convencionais, o projeto alemão 212CD e o sueco A26 ganharam da concorrência na Noruega, no Canadá e na Polônia.

Em defesa aérea, o dado mais confiável que existe não vem de fabricante: o coronel norueguês Per Steinar Trøite, responsável pela coalizão de defesa aérea da Ucrânia, informou em fevereiro de 2025 que os sistemas NASAMS ucranianos interceptaram cerca de 900 alvos aéreos com taxa de 94%. O mesmo sistema protege Washington há vinte anos.

E há o caso que inverte o clichê: em novembro de 2024 a norueguesa Kongsberg fechou o maior contrato de mísseis da sua história para fornecer à Marinha e aos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Em 2025 os Fuzileiros cancelaram o Tomahawk no orçamento e apostaram numa versão de alcance estendido do míssil norueguês. Em 2024, a britânica BAE Systems foi a quarta maior empresa de armas do mundo — a primeira vez desde 2017 que uma companhia fora dos Estados Unidos entra no top 5.

O leitor brasileiro tem um gancho direto nisso. O Gripen sueco, o mesmo caça que a Suécia acaba de colocar em serviço, é o F-39 da Força Aérea Brasileira, que atingiu capacidade operacional plena no fim de 2025. Em novembro daquele ano, em Natal, a FAB disparou dois mísseis Meteor de caças Gripen E e acertou os dois alvos. O primeiro F-39E montado no Brasil foi apresentado em março de 2026.

O que falta não é massa, é o sistema operacional

Aqui está o ponto que reorganiza tudo, e ele é de integração, não de quantidade.

Habilitador Estados Unidos Europa
Aviões-tanque ~465 38
Transporte aéreo estratégico pesado 274 3
Aeronaves de escuta eletrônica de grande porte 17 3
Satélites militares de comunicação 108 18 (cinco países somados)
Aeronaves dedicadas de ataque eletrônico 153 zero

Os números não são todos ruins do mesmo jeito. Reabastecimento em voo, na consulta que a imprensa especializada fez a dezesseis especialistas europeus em 2026, foi classificado como posição forte: o avião-tanque europeu é ótimo, faltam unidades. Transporte aéreo foi julgado “largamente adequado”.

Mas dois itens da tabela não são questão de quantidade. São ausência.

A supressão de defesas antiaéreas. A Europa não tem uma única aeronave dedicada a isso. Um pesquisador do instituto de defesa belga resumiu dizendo que os europeus “pura e simplesmente abandonaram” esse domínio. A solução alemã, quinze caças convertidos, tem certificação prevista para 2030.

A defesa antimísseis de longo alcance. O balanço britânico registra que, até meados de 2025, as capacidades de interceptação fora da atmosfera na Europa eram fornecidas exclusivamente pelos Estados Unidos.

E o diagnóstico mais fundo é outro: o que desapareceria com uma retirada americana não é a massa, é a integração. A participação americana funciona como o sistema operacional da Aliança. O que se chama de “padrões da OTAN” é, na prática, definido e imposto pelos Estados Unidos. O pessoal americano é minoria no efetivo da estrutura de comando, mas está concentrado nos postos superiores e nas funções que costuram inteligência, definição de alvos, cibernética e efeitos espaciais. Sem eles, o comando passaria de orquestração a negociação, com Reino Unido, França, Alemanha e Polônia disputando postos, e nomeações decididas por compromisso em vez de por eficiência.

Some a isso o dado que mede o alcance: os inventários europeus de armamento de precisão de longo alcance são medidos em centenas, não em milhares.

O dinheiro anunciado e o dinheiro que saiu

Esta é a parte que o noticiário raramente separa, e é onde está a diferença entre intenção e capacidade.

O gasto é real e é grande. Pela contabilidade da própria OTAN, os aliados europeus mais o Canadá saíram de 515 bilhões de dólares em 2024 para 777 bilhões previstos em 2026, com alta real de 19% em 2024 e outros 19% em 2025. O gasto dos membros europeus cresceu em 2025 mais rápido do que em qualquer momento desde 1953. Na União Europeia, a despesa de defesa foi de 418 bilhões de euros em 2025, 2,2% do produto interno bruto.

Agora o outro lado, e aqui é preciso separar três coisas que o noticiário funde numa só.

Os 800 bilhões de euros anunciados em março de 2025 nunca foram um orçamento. Deles, cerca de 650 bilhões não são dinheiro nenhum: são espaço fiscal, a permissão dada a dezessete países para gastar até 1,5% do produto interno bruto por ano fora das regras do pacto de estabilidade. A própria Comissão escreve que o montante real “dependerá da disposição dos Estados-Membros”. Em junho de 2026 o comissário da Economia admitiu publicamente que a despesa está muito aquém dessa projeção.

O que é dinheiro de verdade são os 150 bilhões de euros do instrumento de crédito. Dezenove países pediram, e a procura excedeu o envelope. Os planos aprovados somam cerca de 130 bilhões. E o que efetivamente chegou às contas dos Estados até 31 de agosto de 2026, em adiantamentos de 15%, foram cerca de 12 bilhões de euros para nove países — pouco menos de 8% do envelope, quinze meses depois de o regulamento ser adotado.

O programa industrial de defesa da União Europeia, de 1,5 bilhão de euros, foi adotado em dezembro de 2025, teve o programa de trabalho publicado em março de 2026 e os cinco primeiros projetos propostos em julho. Não há adjudicações publicadas.

O mesmo vale para munição. Em março de 2024 a Comissão anunciou ter atingido um milhão de projéteis por ano. Uma investigação jornalística com base em documento interno da Rheinmetall e em estimativa do Ministério da Defesa da Estônia apurou capacidade real de 550 a 600 mil — cerca de um terço. Em fevereiro de 2026 o comissário europeu de defesa declarou “mais de dois milhões por ano”; uma análise independente de julho de 2025 estimava 1,2 milhão. Não há auditoria independente publicada que confirme os dois milhões.

E antes que isso vire acusação contra a Europa apenas: os Estados Unidos também não cumpriram a própria meta. O objetivo era 100 mil projéteis de 155 milímetros por mês até outubro de 2025. O relatório do inspetor-geral do Departamento de Defesa, divulgado em julho de 2026, registra 36 mil por mês em março de 2026 — e uma fábrica no Texas que recebeu 469 milhões de dólares e produziu zero desde a inauguração.

O gargalo que liga os dois lados da história

Há um ponto em que as duas metades deste texto se encontram, e ele é químico.

Quando a Guerra Fria terminou, a Europa tinha sete grandes fábricas de TNT. Hoje tem uma, a Nitro-Chem, em Bydgoszcz, na Polônia, com 10 mil toneladas por ano. A Rússia produz mais de 50 mil.

Pior é a nitrocelulose, insumo do propelente. A capacidade europeia está entre 4,5 e 10 mil toneladas por ano; a necessidade, somando Ucrânia e Europa, é de cerca de 20 mil. O déficit anual é de 10 a 14 mil toneladas.

E a matéria-prima da nitrocelulose são línteres de algodão. Segundo o presidente da Rheinmetall, a Europa depende da China para mais de 70% desse insumo. A China responde por cerca de metade das exportações mundiais.

Junte com o outro dossiê. A mesma China é apontada pela OTAN como “facilitador decisivo” da guerra russa: respondeu por cerca de 90% da microeletrônica importada pela Rússia, por 70% das máquinas-ferramenta compradas num único trimestre, e fornece nitrocelulose à indústria russa. Em 2024 os embarques chineses de bens de dupla utilização para a Rússia passaram de 4 bilhões de dólares.

Ou seja: o insumo básico da munição europeia vem do país que sustenta a indústria de guerra do adversário. Nenhum tratado descreve isso, e é a dependência mais concreta de todo o quadro.

Uma ressalva honesta: um pesquisador da RAND discorda da gravidade, dizendo que línter de algodão é produto “razoavelmente fácil de gerar” e que não há evidência de escassez real. A Rheinmetall comprou uma empresa em 2025 justamente para converter produção civil de nitrocelulose a grau militar.

O outro lado também não é uma aliança

Simetria é o que falta no debate, então vale aplicá-la.

Não existe nenhum tratado entre os quatro. Todas as ligações são bilaterais. Não há comando combinado, não há planejamento operacional conjunto, e não houve um único exercício militar reunindo os quatro entre 2023 e 2026. O que existe é um exercício naval trilateral anual, de poucos navios, dedicado a antipirataria e busca e salvamento.

A aritmética também não favorece a imagem de bloco. China, Rússia e Irã somaram 533,4 bilhões de dólares de gasto militar em 2025. Os 29 membros europeus da OTAN, sozinhos, somaram 559 bilhões. A Europa sem os Estados Unidos já gasta mais que os três juntos.

E as divergências são estruturais. A agressão russa prejudica a União Europeia, que é o maior mercado exportador da China. O comércio China-Rússia estagnou em 2% em 2024 e caiu 9% no início de 2025. O gasoduto Power of Siberia 2 está em negociação desde 2006 e rendeu apenas um memorando em setembro de 2025, sem preço nem volume. China e Rússia disputam o mesmo comprador de petróleo com desconto. A linha de drones que a Rússia montou com tecnologia iraniana hoje opera praticamente sem participação iraniana e com motores chineses — Moscou absorveu a tecnologia e marginalizou o fornecedor.

Até o suprimento norte-coreano dá sinal de fim: a inteligência ucraniana avalia que os embarques caíram pela metade em 2025, e pesquisadores de fonte aberta identificaram apenas um embarque marítimo confirmado em 2026.

Os dois relógios que ninguém sincroniza

Aqui está a conclusão que os números impõem, e ela é desconfortável para os dois lados do debate.

Existem duas contagens diferentes sendo confundidas.

O relógio da ameaça. O presidente do serviço de inteligência externa alemão rejeita 2029 como piso e diz que a Europa já está sob fogo hoje. O chefe de defesa da Noruega fala em dois a três anos. O balanço britânico aponta 2027 para os bálticos. O inspetor-geral da Bundeswehr fala em 2029. O secretário-geral da OTAN, em cinco anos.

O relógio da construção. O mesmo balanço britânico estima que substituir as capacidades americanas custaria de 226 a 344 bilhões de dólares só em plataformas novas, e cerca de 1 trilhão somando aquisição e ciclo de vida de 25 anos. E esse trilhão exclui inteligência, espaço, cibernética e forças nucleares — é piso, não teto. O prazo: uma década no melhor caso terrestre, mais que isso no ar e no mar, e mais de uma década para submarinos nucleares de ataque, que França e Reino Unido não conseguiriam produzir na escala necessária nem com investimento substancial.

O estudo do instituto alemão de economia mundial chega por outro caminho ao mesmo lugar: 300 mil militares adicionais, cerca de 50 novas brigadas, 1.400 carros de combate, 700 peças de artilharia e 250 bilhões de euros por ano a mais, cerca de 3,5% do produto interno bruto europeu.

Os prazos da ameaça são mais curtos que os prazos da construção. O livro branco europeu mistura as duas contagens ao fixar 2030 como meta de “prontidão”, e é aí que a discussão pública se perde.

A dissuasão que não se empresta

Sobra o degrau final, e ele é o menos resolvível por dinheiro.

França e Reino Unido somam 515 ogivas de estoque militar, contra 4.400 russas. O Reino Unido, além disso, não tem arsenal independente no sentido estrito: comprou o direito a 58 mísseis de um estoque comum compartilhado com a Marinha dos Estados Unidos, sua ogiva atual é versão modificada de uma americana, e ele não realiza um teste bem-sucedido há mais de uma década.

A França avançou, e avançou rápido. Em março de 2025 Macron abriu o debate sobre estender a proteção nuclear francesa aos aliados europeus. Em julho daquele ano, a declaração de Northwood, com o Reino Unido, afirmou que “não há ameaça extrema à Europa que não suscitasse uma resposta de nossas duas nações” — a primeira vez que qualquer um dos dois se compromete publicamente a coordenar sua dissuasão fora da relação com os Estados Unidos. Em março de 2026, Macron anunciou aumento do número de ogivas e o fim da divulgação dos números.

E, no mesmo discurso, a frase que define o limite: “não haverá nenhum compartilhamento da decisão última, nem do seu planejamento, nem da sua execução”.

É coerente com a doutrina francesa, e é exatamente o que torna a garantia menos que uma garantia. O alemão ou o polonês que confia nela está confiando numa decisão que continua sendo de um presidente só, tomada em Paris, sobre interesses vitais definidos em Paris.

O fecho

A pergunta sobre quem aparece no dia seguinte não se responde lendo tratado. Responde-se somando avião-tanque, satélite de comunicação, tonelada de nitrocelulose e euro efetivamente desembolsado.

Feita essa soma, a resposta é dupla e nenhuma metade é confortável.

A Europa tem massa, dinheiro, indústria e qualidade — e não tem o tecido que transforma isso em operação: o comando integrado, o espaço, a escuta, a supressão de defesas e o estoque que aguenta mais de algumas semanas. O que ela anuncia em centenas de bilhões chega às contas dos Estados em unidades de bilhão, e a peça mais básica da sua munição depende de um insumo chinês.

O eixo, por sua vez, não é aliança nenhuma: é um arranjo de conveniências bilaterais em que cada um vende caro ao outro, a Rússia lucrou com a derrota do Irã, a China absorve o que interessa e recusa o resto, e o estoque norte-coreano está acabando.

Nenhum dos dois lados aguentaria hoje uma guerra longa sozinho. A diferença é que um deles ainda tem dez anos de obra pela frente e um relógio de ameaça que marca menos que isso.

Fontes: 1 · 2 · 3 · 4 · 5 · 6 · 7 · 8 · 9 · 10 · 11 · 12 · 13 · 14 · 15 · 16 · 17 · 18 · 19 · 20 · 21 · 22 · 23 · 24 · 25 · 26 · 27 · 28 · 29 · 30 · 31 · 32 · 33 · 34 · 35 · 36 · 37 · 38 · 39 · 40 · 41 · 42 · 43 · 44 · 45 · 46 · 47 · 48

Assine a newsletter gratuitamente para receber um resumo semanal e matérias do seu interesse.

Sem trava e sem cadeado: tudo no Tectônica é aberto. A newsletter não destranca nada — ela poupa a sua volta ao site.

Assinar a newsletter

Compartilhar X Facebook

Deixe um comentário

Contato e parcerias: contato@tectonica.blog