A internet ganhou porteiros, e o mundo correu para as VPNs
Matéria narrada pelo Professor
Em 25 de julho de 2025, o Reino Unido passou a exigir que sites adultos e redes sociais verificassem a idade de quem entra. Em horas, os cadastros numa VPN suíça subiram 1.400%; em dias, 1.800%; um ano depois, seguem 19 vezes acima do normal, e uma fatia do tráfego britânico sai da internet por Amsterdã, Zurique e Estocolmo. O padrão se repetiu na Austrália, na Indonésia, na Flórida e no Brasil, onde a lei entrou em vigor em março. Este Aprofundamento conta como a regulação da internet, em nome das crianças, virou um movimento coordenado entre democracias, por que uma parte da opinião pública o chama de globalismo, o que a fuga em massa para as VPNs revela e esconde, e o que acontece quando os governos decidem que a próxima porta a fechar é a própria VPN.
A onda: o mesmo remédio em vinte países
Até 2023, exigir documento para entrar num site era coisa de ditadura ou de banco. Em três anos, virou política de Estado nas democracias, com uma justificativa que atravessa partidos e continentes: proteger crianças.
| Onde | O que | Desde quando |
|---|---|---|
| Reino Unido | Online Safety Act: verificação de idade "altamente eficaz" em sites adultos e redes sociais; proibição de redes para menores de 16 em discussão | 25 de julho de 2025 |
| Austrália | Proibição de redes sociais para menores de 16, a primeira do mundo | 10 de dezembro de 2025 |
| Indonésia | Proibição para menores de 16, contas desativadas | 28 de março de 2026 |
| Brasil | ECA Digital, Lei 15.211: verificação de idade confiável, fim da autodeclaração, contas de menores de 16 vinculadas aos pais | 17 de março de 2026; regras de verificação em agosto; fiscalização plena em janeiro de 2027 |
| Estados Unidos | 27 estados exigem verificação em sites adultos; 16 restringem redes para menores; Texas, Utah e Louisiana passam a exigir verificação nas lojas de aplicativos em 2026 | Desde 2023; Suprema Corte validou em 2025 |
| União Europeia | Digital Services Act: verificação por carteira de identidade digital recomendada até 31 de dezembro de 2026; Reddit já exige no bloco desde junho | Em implantação |
| França | Proibição para menores de 15 | Setembro de 2026 |
| Dinamarca, Malásia, Espanha, Grécia, Noruega, Nova Zelândia | Proibições ou idades mínimas em tramitação | 2026 |
Os números da fiscalização britânica dão a escala. Entre julho e dezembro de 2025, 69 milhões de verificações de idade foram feitas em apenas 32 serviços monitorados, 23 vezes mais que no semestre anterior. Os dez sites pornográficos mais visitados do país passaram a exigir prova de idade. A fatia de crianças que encontrou uma verificação eficaz ao tentar entrar subiu de 25% para 43% em seis meses. Do ponto de vista de quem escreveu a lei, funciona.
A fuga: os números da corrida às VPNs
Uma VPN, rede privada virtual, é um túnel: o seu computador se conecta a um servidor em outro país, e para o site do outro lado você parece estar lá. Se a lei vale para quem está no Reino Unido, quem “está” na Holanda não a encontra. Foi o que milhões de pessoas descobriram no mesmo dia.
| Gatilho | Efeito medido |
|---|---|
| Reino Unido, 25 de julho de 2025 | Proton VPN: cadastros +1.400% em horas, +1.800% nos dias seguintes, 19 vezes o normal um ano depois; Top10VPN: tráfego +1.327% no dia, perto de +2.000% dois dias depois; a Proton virou o aplicativo gratuito mais baixado da App Store britânica, à frente do ChatGPT; mais de 2 milhões de downloads de VPN num mês |
| Reino Unido, anúncio da proibição para menores de 16 | Buscas por VPN +165% |
| Flórida, 1º de janeiro de 2025, Pornhub bloqueia o estado | Demanda por VPN +1.150% entre meia-noite e quatro da manhã |
| Austrália, 10 de dezembro de 2025 | Tráfego de VPN +170% no primeiro dia; voltou ao normal semanas depois |
| Indonésia, 28 de março de 2026 | Buscas por "VPN" no Google dispararam na semana da aplicação |
| Brasil, 30 de agosto de 2024, bloqueio do X | Proton VPN: +1.840% no fim de semana; vpnMentor: +469% nas primeiras horas, +1.600% no dia seguinte |
| Brasil, 2026, suspensão de recursos do Discord pela ANPD | Proton VPN: +800% da noite para o dia |
| Brasil, março de 2026, ECA Digital | Buscas por VPN em alta; VPNs, geradores de CPF falso e deepfakes já usados para burlar a verificação |
O fenômeno tem um contexto maior. Cerca de 1,6 bilhão de pessoas usam VPN no mundo, 23% dos internautas adultos, segundo a pesquisa GWI de 2025; foram 412 milhões de downloads dos 50 aplicativos mais populares em 2025. E a fiscalização britânica mediu quem são os fugitivos: 29% dos britânicos de 11 a 17 anos já usaram uma VPN, mas só 5% das crianças a usaram para acessar conteúdo restrito, e apenas um em cada dez usuários de VPN é criança. A maioria de quem corre é adulto, e corre de outra coisa.
Do que os adultos fogem
Do documento. A verificação “altamente eficaz” que as leis exigem significa, na prática, entregar a um site, ou a uma empresa terceirizada contratada por ele, uma foto do RG, do passaporte, do rosto ou do cartão de crédito. Em outubro de 2025, um fornecedor de atendimento do Discord foi invadido e cerca de 70 mil imagens de documentos de identidade enviadas para verificação de idade vazaram; os invasores alegaram 2,1 milhões. A AU10TIX, uma das maiores empresas de verificação de identidade do mundo, usada por TikTok e Uber, expôs carteiras de motorista. A Electronic Frontier Foundation resumiu o raciocínio de quem instala uma VPN: “empresas são invadidas, dados vazam, e de repente o seu nome real está ligado aos sites que você visitou, guardado num banco de dados mal protegido, esperando o vazamento inevitável”.
Do escopo, que nunca fica no lugar prometido. No Reino Unido, a verificação alcançou o Reddit, que passou a exigir prova de idade para comunidades sobre menstruação, notícias e recuperação de dependência química; o X bloqueou imagens de protestos; a Wikipédia avisou que ter de verificar seus colaboradores britânicos teria “consequências desastrosas”. No Mississippi, um site de diários pessoais, o Dreamwidth, saiu do estado diante de multas de US$ 10 mil por usuário, e a rede Bluesky ficou fora do ar. No Brasil, dias depois de o ECA Digital entrar em vigor, projetos de software livre como o MidnightBSD e o Arch Linux 32 suspenderam o serviço para brasileiros, alegando não ter como cumprir a verificação. E há a queixa mais brasileira de todas: a lei exige verificação confiável, a ANPD admite que há “riscos de segurança e possibilidades de discriminação”, e ninguém ainda disse como um pai vai provar que é pai sem entregar o CPF de todos.
E da desconfiança de que criança é o pretexto. Aqui entra a palavra que dá nome a uma parte do debate.
Por que uma parte do público chama isso de globalismo
A palavra tem duas vidas. Na primeira, descritiva, ela nomeia um fato verificável: a regulação da internet deixou de ser nacional. Em setembro de 2024, a ONU adotou o Pacto Digital Global, anexo do Pacto para o Futuro, que pede às plataformas transparência na moderação e nos algoritmos, dados para “construir a base de evidências sobre como enfrentar desinformação e discurso de ódio”, e cria um painel científico sobre inteligência artificial. Em novembro de 2024, na cúpula do G20 no Rio, o Brasil lançou com a ONU e a Unesco a Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre Mudança Climática, e Lula afirmou que “as ações contra a mudança do clima são muito afetadas pelo negacionismo e pela desinformação”. Em dezembro de 2025, a revisão dos 20 anos da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação tornou permanente o Fórum de Governança da Internet e o trouxe para dentro da ONU. E as leis nacionais se copiam abertamente: a Austrália foi a primeira, e Malásia, Dinamarca, Espanha, Grécia, Noruega e Nova Zelândia anunciaram que seguem o modelo; a França cita a Austrália; o Brasil cita a Europa. Chamar isso de coordenação global não é opinião, é descrição.
Na segunda vida, a palavra é acusação: a de que a coordenação tem um fim que não é o declarado, o controle do que se pode dizer. Essa leitura tem defensores de peso e de nível variado. O Instituto de Política Estratégica da Austrália escreveu que o Pacto Digital Global “parece o sonho de um autoritário”, por deslocar poder para a ONU e para os Estados, “beneficiando desproporcionalmente regimes autoritários”. A Freedom House, que mede a liberdade na internet há 15 anos, registrou em 2025 o décimo quinto ano consecutivo de queda, com prisões por expressão on-line em 57 dos 72 países avaliados, o recorde da série, e escreveu que “o anonimato on-line, um facilitador essencial da liberdade de expressão, entra num período de crise”, em parte por leis justificadas pelo “objetivo legítimo de proteger crianças”. Pesquisadores críticos do Pacto apontam que enquadramentos como “desinformação” e “integridade da informação” “legitimam uma supervisão transnacional expansiva”. E, no extremo do espectro, comentaristas como Glenn Beck descrevem o Pacto como um acordo “ao estilo soviético” para restringir a fala on-line.
O que os fatos sustentam e o que não sustentam. Sustentam que há coordenação, que o vocabulário é compartilhado, que o alcance das leis extrapola o alvo declarado e que o anonimato está em retração medida. Não sustentam que exista um comando central: o Pacto Digital Global não é vinculante, o Fórum de Governança da Internet não legisla, e as leis nacionais foram votadas por parlamentos eleitos, algumas com maioria conservadora, como a emenda dos Lordes britânicos que quis restringir VPNs. E há um detalhe que o rótulo “globalismo” costuma esconder: o país que mais avançou no controle da internet em 2026 não é signatário de nenhum consenso, é a Rússia, que bloqueou 469 serviços de VPN, removeu 761 aplicativos de VPN da App Store, multa quem anuncia VPN, multa quem procura conteúdo “extremista” mesmo por VPN, desligou a internet móvel do centro de Moscou por três semanas e criou um mensageiro estatal obrigatório. O modelo de porteiro na porta da internet é o mesmo; o que muda é quem segura a chave e a quem ele responde.
A próxima porta: a própria VPN
Toda lei de verificação de idade chega, em meses, à mesma pergunta: e a VPN? As respostas estão se dividindo.
No Reino Unido, a Câmara dos Lordes aprovou em janeiro de 2026, por 207 a 159, uma emenda exigindo verificação de idade para vender ou ativar VPNs, com a maioria dos votos vindos dos conservadores. O governo trabalhista rejeitou: “VPNs têm usos legítimos de privacidade e segurança, e por isso não vamos restringi-las por idade nem bani-las”, disse a secretária de Tecnologia, Liz Kendall. Em vez disso, a exigência caiu sobre as plataformas, que devem detectar e barrar a evasão, e a Ofcom e a autoridade de dados têm até outubro para dizer como. Na Austrália, a agência de segurança on-line orientou as plataformas a “integrar serviços de detecção de VPN e inteligência de IP para sinalizar e restringir faixas de alto risco”; o Snapchat respondeu que decide a idade pelo histórico de um mês da conta, não pela conexão do momento, e que uma conta travada fica travada. Na França, a ministra do Digital disse que “as VPNs são as próximas da minha lista”. No Wisconsin, um projeto de lei quer obrigar sites a bloquear VPNs. Na Rússia, a resposta veio em abril de 2026: as plataformas receberam ordem e manual técnico para detectar e bloquear usuários de VPN.
A EFF, que defende o direito às VPNs, é a primeira a dizer que elas não são a solução: “não são infalíveis, nem deveriam ser necessárias para acessar discurso legalmente protegido”, e uma VPN de má reputação pode ela mesma coletar dados. O argumento técnico contra bloqueá-las também é dela: um site não distingue uma VPN “boa” de uma “má”, então ou bloqueia todas, punindo empresas, universidades e ativistas que dependem delas, ou não bloqueia nenhuma; e quem quiser contornar usará proxies, servidores próprios ou o Tor. O resultado provável de uma guerra às VPNs, dizem, é uma internet mais vigiada para quem obedece e igualmente porosa para quem não obedece.
O que fica
Fato. Em três anos, verificar idade virou norma nas democracias, com números de aplicação que os governos consideram sucesso. A cada lei, uma corrida às VPNs de mil por cento ou mais, sustentada no caso britânico por um ano. A maioria de quem corre é adulto, fugindo de entregar documento a um sistema que já vazou. A coordenação internacional entre as leis é aberta, documentada e assumida por quem a faz. E o anonimato on-line recua no mundo inteiro pelo décimo quinto ano seguido.
Interpretação. O rótulo “globalismo” acerta na descrição e erra no mecanismo. Acerta porque há, de fato, uma agenda compartilhada, um vocabulário comum e uma cópia deliberada de leis entre países que antes tratavam a internet como território nacional. Erra porque não há um centro emitindo ordens: há parlamentos eleitos chegando à mesma resposta para o mesmo pânico moral, com a mesma ferramenta, e descobrindo juntos o mesmo efeito colateral. Isso não torna a preocupação infundada. Torna-a mais difícil de combater, porque não há a quem pedir que pare.
Cenário. Dois caminhos. No primeiro, a verificação de idade amadurece para o modelo que a Europa promete, uma carteira digital que prova “maior de 18” sem revelar quem você é, os vazamentos rareiam, e a VPN volta a ser o que era, ferramenta de trabalho e de viagem. No segundo, os governos seguem a lógica da porta seguinte: as plataformas passam a bloquear VPNs por exigência legal, as lojas de aplicativos passam a exigir idade para baixá-las, e a internet das democracias converge, por caminhos diferentes e com intenções diferentes, para a arquitetura que a Rússia já montou. Qual dos dois vence se decide em três lugares, nos próximos meses: no relatório da Ofcom sobre VPNs em outubro, na regulamentação da verificação de idade pela ANPD no Brasil, e na resposta que a França der à própria ministra. A cada uma dessas decisões, o número de downloads de VPN vai dizer, no mesmo dia, o que as pessoas acharam.
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