A internet sem dono: por que as redes descentralizadas voltaram a importar
Matéria narrada pelo Professor
A internet foi desenhada, em 1964, para sobreviver a uma guerra nuclear: uma rede sem centro, em que qualquer nó pode cair sem derrubar o resto. Sessenta anos depois, ela tem centro. Meia dúzia de empresas guardam as contas, as mensagens e as fotos de bilhões de pessoas, e é justamente por isso que os governos conseguem, com uma lei ou uma ordem judicial, exigir documento na entrada, escanear conversas privadas ou desligar um país inteiro. Em resposta, uma família de tecnologias que passou vinte anos na margem, Tor, I2P, Hyphanet, IPFS, Mastodon, Bluesky, Nostr, Matrix, Briar, Meshtastic, voltou ao centro da conversa. Este Aprofundamento conta de onde essas redes vêm, por que 2026 é o ano em que elas voltaram a fazer falta, quais existem hoje, o que cada uma resolve e o que nenhuma delas resolve, e o que isso significa para um brasileiro, num país que é o quarto maior usuário do Tor no mundo e onde a Constituição proíbe o anonimato.
Parte 1. A origem: uma rede feita para perder metade dos nós
Em 1960, um engenheiro da RAND Corporation chamado Paul Baran recebeu um problema militar: as comunicações dos Estados Unidos dependiam de centrais telefônicas e de rádios de alta frequência, e uma bomba num ponto certo emudecia o país. Baran passou quatro anos simulando redes e chegou a uma conclusão que virou a fundação de tudo o que veio depois. Uma rede em que cada nó se conecta a três ou mais vizinhos, sem centro, sobrevive à perda de até metade dos seus nós. Em vez de poucos equipamentos caros e confiáveis, muitos equipamentos baratos e pouco confiáveis, com a inteligência nas pontas. Ele desenhou três diagramas que qualquer aula de redes ainda mostra: a rede centralizada, uma estrela; a descentralizada, várias estrelas ligadas; e a distribuída, uma malha em que ninguém é o centro. Em 1964 publicou os onze volumes de “On Distributed Communications”, e em 1969, quando a agência de pesquisa do Pentágono ligou os primeiros quatro computadores da ARPANET, a arquitetura era a dele.
A internet que nasceu daí era distribuída no transporte e federada nos serviços. O correio eletrônico nunca teve dono: qualquer universidade podia ter o seu servidor e falar com qualquer outro. A Usenet, criada em 1979 e 1980 entre as universidades Duke e Carolina do Norte, era um sistema de fóruns em que cada servidor guardava uma cópia das mensagens e repassava às vizinhas, sem que ninguém pudesse apagar um fórum do mundo inteiro. A web, em 1991, seguiu a regra: qualquer computador ligado à rede podia ser um site.
A centralização veio com a conveniência. Portais, buscadores e, a partir de 2004, as redes sociais descobriram que era mais fácil, mais rápido e mais lucrativo guardar tudo de todo mundo num só lugar. Em vinte anos, a rede desenhada para não ter centro passou a ter meia dúzia: as contas do Google, da Meta, da Apple, da Microsoft, da Amazon e do Tencent. Nenhuma lei obrigou a isso; foi a escolha de bilhões de pessoas, uma por vez, pelo caminho mais fácil.
O primeiro grande aviso de que centro é vulnerabilidade veio em 2001. O Napster, o programa de troca de músicas que em dois anos tinha juntado dezenas de milhões de usuários, era descentralizado nos arquivos, que ficavam nos computadores das pessoas, mas centralizado no índice: um servidor da empresa dizia quem tinha o quê. Bastou uma decisão judicial sobre direitos autorais, em julho de 2001, para o índice desligar e a rede inteira morrer. A lição foi aprendida em meses. O Gnutella tirou o índice do centro; o BitTorrent, de 2001, tirou até a busca do protocolo, que ninguém possui, e sobreviveu a vinte e cinco anos de processos porque não há a quem processar.
Ao mesmo tempo, dois projetos acadêmicos atacaram problemas diferentes. Em 1999, um estudante de Edimburgo, Ian Clarke, escreveu um projeto de fim de curso para um sistema de armazenamento anônimo e resistente à censura, em que cada arquivo é cortado, criptografado e espalhado por computadores de voluntários, sem que nenhum deles saiba o que guarda. Lançado em março de 2000 como Freenet, foi um dos artigos de ciência da computação mais citados de 2002, e existe até hoje sob o nome Hyphanet. E no Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos, três pesquisadores, Paul Syverson, Michael Reed e David Goldschlag, tinham criado em meados dos anos 1990 o roteamento em camadas, em que uma mensagem passa por vários servidores, cada um removendo uma camada de criptografia sem saber a origem nem o destino. O objetivo era proteger comunicações da inteligência americana. Em 20 de setembro de 2002 a ideia virou software com o nome The Onion Routing, o Tor, aberto ao público em 2003 e transformado em fundação sem fins lucrativos em 2006, com a Electronic Frontier Foundation como primeira patrocinadora. Um detalhe que acompanha o Tor até hoje: em 2012, 80% do seu orçamento de US$ 2 milhões vinham do governo americano, do Departamento de Estado ao Conselho de Radiodifusão, porque a ferramenta que protege o dissidente também protege o espião.
A terceira onda veio da crise. Em 31 de outubro de 2008, seis semanas depois da quebra do Lehman Brothers, um autor anônimo publicou o artigo do Bitcoin, um dinheiro sem banco central, com o registro de todas as transações copiado em milhares de computadores. Em 2015, o IPFS propôs endereçar arquivos pelo que eles são, uma impressão digital do conteúdo, e não por onde estão, para que um arquivo continue acessível quando o servidor original some. Em 2016 nasceu o Mastodon, uma rede social em que qualquer pessoa pode ter o seu servidor e conversar com os outros, e em 2018 o consórcio da web padronizou o idioma comum, o ActivityPub. Em 2020 um desenvolvedor brasileiro conhecido como fiatjaf publicou o Nostr, que dispensa até servidores: a identidade é uma chave criptográfica no bolso do usuário. Em 2023 o Bluesky abriu as portas com o seu próprio protocolo, e o grupo hacker Cult of the Dead Cow, o mais antigo dos Estados Unidos, lançou o Veilid, uma rede para aplicativos sem servidor. Em 2025 a Nym, suíça, colocou no mercado a primeira VPN sobre uma rede de mistura, que embaralha o tráfego de todos para que ninguém saiba quem fala com quem.
| Ano | O que surgiu | O que descentralizou |
|---|---|---|
| 1964 | "On Distributed Communications", Paul Baran | O transporte: a rede sem centro |
| 1969 | ARPANET | A primeira rede construída assim |
| 1979–1980 | Usenet | Fóruns copiados de servidor em servidor |
| 1999–2001 | Napster, depois Gnutella e BitTorrent | Arquivos; a lição do índice central |
| 2000 | Freenet, hoje Hyphanet | Publicação anônima e indestrutível |
| 2002 | Tor | O anonimato de quem navega |
| 2003 | I2P | Uma internet interna anônima |
| 2008–2009 | Bitcoin | O dinheiro |
| 2014 | Matrix | Mensagens entre servidores independentes |
| 2015 | IPFS | Arquivos endereçados pelo conteúdo |
| 2016–2018 | Mastodon e ActivityPub | Redes sociais federadas |
| 2020 | Nostr | Redes sociais sem servidor dono |
| 2023 | Bluesky e AT Protocol; Veilid | Redes sociais com identidade portátil; apps sem servidor |
| 2025 | NymVPN | Anonimato com tráfego de cobertura |
Parte 2. Por que agora: o cerco em três camadas
Um leitor deste Tectônica já acompanhou, no Aprofundamento sobre as VPNs, a onda mundial de leis de verificação de idade e a corrida de milhões de pessoas para os túneis. O que este texto acrescenta é a arquitetura do cerco. Nos últimos três anos, os governos descobriram que controlar a internet não exige controlar a internet: basta controlar os poucos pontos por onde ela passa. E o cerco se fecha em três camadas, cada uma com um exemplo de 2026.
A primeira camada é a identidade. O Reino Unido desde julho de 2025, a Austrália desde dezembro, a Indonésia desde março de 2026, o Brasil desde 17 de março com o ECA Digital, 27 estados americanos e a União Europeia até o fim de 2026: para entrar, prove quem você é. A Freedom House, que mede a liberdade na internet há quinze anos, registrou em 2025 o décimo quinto ano seguido de queda, prisões por expressão on-line em 57 dos 72 países avaliados, e escreveu que “o anonimato on-line entra num período de crise”, em parte por leis justificadas pela proteção das crianças. A camada funciona porque as plataformas são poucas: exigir documento de dez empresas alcança quatro bilhões de pessoas.
A segunda camada é o conteúdo. Em 9 de julho de 2026, o Parlamento Europeu manteve em vigor, até 3 de abril de 2028, o chamado Chat Control 1.0, a autorização para que plataformas escaneiem mensagens privadas não criptografadas em busca de abuso infantil. O detalhe é a aritmética: 314 deputados haviam votado contra na primeira rodada, e na votação final 286 votaram contra, 276 a favor e 30 se abstiveram; como rejeitar exigia maioria absoluta de 360, a medida passou com mais votos contra do que a favor. A versão permanente, o Chat Control 2.0, que discute obrigar até os mensageiros criptografados a escanear no aparelho antes de cifrar, teve a negociação final desabada em 29 de junho e recomeça em setembro de 2026, sob a presidência irlandesa. A presidente do Signal, Meredith Whittaker, repetiu que, “se nos derem a escolha entre minar a integridade da nossa criptografia ou deixar a Europa, infelizmente decidiremos deixar o mercado”. Essa camada também depende do centro: só se pode obrigar a escanear quem tem um servidor para receber a ordem.
A terceira camada é o interruptor. Em 8 de janeiro de 2026, o Irã desligou a internet inteira, inclusive celular, SMS, telefone fixo e o Starlink, e assim ficou por quatro meses e dezoito dias, até 26 de maio, o mais longo apagão nacional já registrado. A Rússia bloqueou o WhatsApp em 12 de fevereiro de 2026, programou o bloqueio total do Telegram para 1º de abril, e desde 1º de setembro de 2025 obriga todo celular novo vendido no país a vir com o Max, o mensageiro estatal que junta conversa, pagamento e serviços públicos, e que os críticos chamam de ferramenta de vigilância. Neste caso o centro é a própria operadora: quem controla os cabos controla tudo o que passa por eles.
No Brasil, as três camadas apareceram em sequência. Em 30 de agosto de 2024, o X foi bloqueado no país por ordem do Supremo, com multa de R$ 50 mil para quem o acessasse por VPN: o interruptor. Em 26 de junho de 2025, o Supremo declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil e passou a responsabilizar plataformas por conteúdo de terceiros mesmo sem ordem judicial em vários casos, o que empurra as empresas a remover antes de perguntar: o conteúdo. E em março de 2026 entrou em vigor o ECA Digital, com verificação de idade e fim da autodeclaração: a identidade. Há ainda um dado que nenhum outro país deste texto tem: a Constituição brasileira, no artigo 5º, inciso IV, diz que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. A palavra que na Europa é um direito em crise, aqui é uma proibição constitucional desde 1988, e é sobre ela que qualquer debate brasileiro sobre redes anônimas vai tropeçar.
O que as três camadas têm em comum é a dependência do centro. Identidade na entrada precisa de uma porta; escaneamento precisa de um servidor; interruptor precisa de um cabo. É exatamente por isso que as redes descentralizadas voltaram: cada família delas foi construída para tirar uma dessas peças do jogo.
Parte 3. Os modelos que existem hoje
Não existe “a” rede descentralizada. Existem pelo menos cinco famílias, que resolvem problemas diferentes, e a confusão entre elas é a fonte de quase todo erro de quem as adota. A tabela abaixo resume; o texto explica.
| Família | Redes | O que tira do centro | O que ainda é central | Tamanho em 2026 |
|---|---|---|---|---|
| Anonimato no transporte | Tor, I2P, Nym, Lokinet | Quem você é e para onde vai | Os sites do outro lado; no Tor, o diretório de relés | Tor: 2 a 2,5 milhões de usuários diretos por dia, 8 a 9 mil relés |
| Publicação indestrutível | Hyphanet, IPFS e Filecoin, GNUnet | Onde o arquivo mora | IPFS: quem paga para manter; Hyphanet: quase nada | IPFS guarda acervos do Internet Archive e do Smithsonian; Hyphanet é pequena e lenta |
| Redes sociais | Fediverso (Mastodon), Bluesky (AT Protocol), Nostr | Quem hospeda a sua conta e a sua fala | Fediverso: o dono do seu servidor; Bluesky: a empresa que roda o relé principal; Nostr: os poucos relés grandes | Fediverso: 12 milhões de contas, 2 milhões ativas; Bluesky: 45 milhões de contas, 10,4 milhões ativas; Nostr: dezenas de milhares |
| Mensageiros | Matrix, SimpleX, Session, Briar, Bitchat, Veilid | Quem entrega a mensagem e quem sabe quem fala com quem | Matrix: o servidor de cada um; Briar e Bitchat: nada, mas só alcançam quem está perto | Matrix: 18 mil servidores, mais de 80 milhões de usuários declarados; Briar: 2,6 milhões de downloads |
| Fora da internet | Meshtastic, MeshCore, Reticulum, Bridgefy | O cabo | Nada; o limite é a física | Bridgefy declara 12,5 milhões de usuários; Meshtastic cresce em cidades e protestos |
### Família 1. Esconder quem você é: Tor, I2P, Nym
O Tor é a mais antiga, a maior e a única que já foi testada por vinte anos contra Estados. A ideia é a cebola: a sua conexão passa por três computadores de voluntários, e cada um só conhece o anterior e o seguinte. O site do outro lado vê o último; o seu provedor vê o primeiro; ninguém vê os dois. A rede tem hoje entre 8 e 9 mil relés voluntários, dos quais só 1.500 a 2.000 são saídas para a internet aberta, e recebe de 2 a 2,5 milhões de conexões diretas por dia. Os Estados Unidos lideram, com cerca de 510 mil usuários diários, seguidos da Alemanha, com 288 mil, e da Finlândia; o Brasil é o quarto, com cerca de 160 mil usuários diretos por dia, 5% do total mundial. Onde o Tor é bloqueado, Rússia, China e Irã, entram as “pontes”, relés não listados, e o Snowflake, que disfarça o tráfego como uma videochamada: a Rússia lidera o uso das pontes, com cerca de 62 mil usuários diários entre julho e outubro de 2024.
O que o Tor não faz: não esconde que você usa o Tor, a menos que use uma ponte; não protege o que você digita no site do outro lado; e as saídas são o ponto fraco, porque um relé de saída malicioso vê o tráfego não criptografado que passa por ele, o que já serviu para roubar senhas e trocar endereços de Bitcoin. Em 2014, um grupo controlou 6,4% da capacidade dos relés de entrada para tentar identificar usuários de serviços ocultos. E há o paradoxo do financiamento: a rede que a Rússia bloqueia foi paga, em grande parte, pelo governo americano. Documentos da NSA vazados em 2013 traziam a frase “Tor fede”, reconhecendo que a agência não conseguia desanonimizar todos os usuários; os que caíram, caíram por erro próprio ou investigação tradicional, não por quebra do sistema.
O I2P, de 2003, inverte o objetivo. Em vez de sair anonimamente para a internet comum, cria uma internet interna, em que sites, e-mail e troca de arquivos existem só dentro da rede, com todo o tráfego cifrado e sem saídas. É melhor para hospedar do que para navegar, e é menor e mais lento que o Tor.
A Nym ataca o que o Tor deixa passar: os metadados. Mesmo sem ler a mensagem, quem observa a rede inteira pode casar o horário em que você enviou com o horário em que alguém recebeu. A rede de mistura da Nym embaralha os pacotes de todos os usuários, atrasa alguns de propósito e injeta tráfego falso, para que o padrão desapareça. A NymVPN, lançada em março de 2025 com apoio da ex-analista Chelsea Manning e sede na Suíça, é a primeira aplicação comercial da ideia; em 2026 ganhou criptografia pós-quântica, ajuste fino da mistura e modos para países que bloqueiam VPNs. É lenta por desenho, o preço do tráfego de cobertura, e ainda pequena. O Lokinet, da mesma família, roda sobre nós pagos em criptomoeda e sustenta o mensageiro Session.
### Família 2. Publicar o que não pode ser apagado: Hyphanet, IPFS
A Hyphanet, a antiga Freenet, é o modelo mais radical. Não há servidores nem sites: há um grande disco compartilhado, em que cada arquivo é cortado, cifrado e espalhado por computadores de voluntários, sem que nenhum deles saiba o que guarda nem possa apagar o que está lá. Existem dois modos: a rede aberta, em que o seu computador se conecta a estranhos, e a rede escura, em que só se conecta a amigos de confiança, invisível de fora. Em 2026 a rede é pequena, lenta e ainda funciona, com a última versão estável em fevereiro; é o lugar certo para um documento que precisa sobreviver a quem quer apagá-lo, e o lugar errado para qualquer coisa que precise de velocidade.
O IPFS resolve outro pedaço: endereça o arquivo pelo conteúdo. Na web comum, um link aponta para um lugar; se o servidor sai do ar ou a empresa fecha, o link morre. No IPFS, o endereço é a impressão digital do próprio arquivo, e qualquer computador que tenha uma cópia pode entregá-lo. O problema é quem mantém a cópia quando ninguém está interessado; a resposta é o Filecoin, um mercado em que se paga para que outros guardem. Em 2026 a rede guarda acervos do Internet Archive, do Smithsonian, da Flickr Foundation e do MIT, e a fundação diz que o foco do ano é trazer instituições que paguem pelo armazenamento. É descentralização de infraestrutura, não de anonimato: o IPFS não esconde quem publica nem quem baixa.
### Família 3. Falar em público sem pedir licença: Fediverso, Bluesky, Nostr
As redes sociais são onde a descentralização deixou de ser assunto de programador e virou assunto de todo mundo, e onde as três respostas possíveis podem ser vistas lado a lado.
O Fediverso é a resposta federada, o modelo do e-mail. Qualquer pessoa pode instalar um Mastodon, um Pixelfed, um PeerTube ou um Lemmy no seu servidor, e todos conversam pelo ActivityPub, o idioma comum padronizado em 2018. Ninguém pode apagar a rede, mas cada servidor tem um dono, que faz as regras e pode expulsar usuários ou cortar relações com outros servidores, a “desfederação”. Em 2026 o Fediverso tem mais de 12 milhões de contas e cerca de 2 milhões de usuários ativos por mês, em mais de 10 mil servidores; o Mastodon sozinho tem cerca de 10 milhões de contas e menos de 1 milhão ativas, longe do pico de 2,6 milhões em novembro de 2022, quando a compra do Twitter empurrou a primeira onda. O dado mais importante da família, porém, é quem entrou depois: o Threads, da Meta, com mais de 400 milhões de usuários ativos, federa com o Fediverso desde 2023, e o WordPress, o Flipboard e o Ghost também falam ActivityPub. Pela primeira vez, uma rede de centenas de milhões conversa, ainda que timidamente, com servidores de dez pessoas.
O Bluesky é a resposta da identidade portátil, e o Brasil é o seu capítulo mais importante. Em 30 de agosto de 2024, quando o X foi bloqueado no país, o Bluesky ganhou 1 milhão de usuários em três dias, mais de 2 milhões na primeira semana, cerca de 3,5 milhões no total do episódio, e 93% dos novos falavam português, que virou o idioma mais usado da rede; a plataforma precisou de 14 engenheiros em turno contínuo, e uma consultoria brasileira contou 4 milhões de usuários ativos no país. Em novembro de 2024, depois da eleição americana, veio a segunda onda, de 1 milhão de contas por dia. A rede chegou a 45 milhões de contas em junho de 2026. O que faz dela um modelo diferente é o protocolo AT: a sua identidade e as suas publicações não pertencem ao servidor, e podem ser levadas para outro; qualquer pessoa pode criar seu próprio feed, seu próprio filtro de moderação ou seu próprio aplicativo em cima da mesma rede. Em 2026 o protocolo guarda 20 bilhões de registros e sustenta mais de mil aplicativos, entre eles o BlackSky, o Eurosky e o Skylight, um app de vídeo que chegou a 380 mil usuários quando o TikTok foi ameaçado nos Estados Unidos.
E aqui está a lição de 2026, que vale para toda a família. Os usuários ativos mensais do aplicativo Bluesky caíram de 22,1 milhões, no fim de 2024, para 10,4 milhões em junho de 2026, uma queda de 52% em dezoito meses, segundo a Similarweb, enquanto o Threads subia para 147 milhões de usuários diários. A rede refúgio não virou casa: quem correu do X quando ele foi bloqueado voltou quando ele reabriu, ou seguiu para onde estavam os amigos. A empresa reagiu declarando que o produto não é mais o aplicativo, é o protocolo. Se isso for verdade, é a primeira vez que uma rede social aceita encolher para que a rede cresça. E há uma ressalva técnica que os críticos repetem: o relé que agrega toda a rede ainda é operado pela própria empresa, e o custo de rodar um relé inteiro afasta quem quisesse substituí-la.
O Nostr é a resposta sem servidor. Criado em 2020 por um desenvolvedor brasileiro sob o pseudônimo fiatjaf, e ativo desde 2022, ele dispensa contas: a sua identidade é um par de chaves criptográficas que só você tem, cada publicação é assinada com ela, e “relés”, servidores que qualquer pessoa pode rodar, apenas recebem e repassam as mensagens assinadas. Se um relé o expulsa, você publica no outro, com a mesma identidade e os mesmos seguidores; se todos os relés de um país fecharem, você publica num relé de outro. É a única das três redes em que não há ninguém, nem empresa nem dono de servidor, a quem uma ordem judicial possa ser entregue com efeito sobre a rede. Ele nasceu grudado ao Bitcoin: os “zaps” mandam frações de bitcoin pela rede Lightning a cada publicação, e em 2026 a comunidade adotou o Blossom, um protocolo para guardar fotos e vídeos em servidores independentes pagos em satoshis, para que a mídia também não possa ser apagada. O preço é o tamanho: um levantamento de outubro de 2025 contou cerca de 21 mil usuários, 3.700 ativos por dia e 14.800 por mês, apesar dos mais de 100 milhões de publicações acumuladas; e um estudo acadêmico apontou que a disponibilidade dos relés, sustentados de graça por voluntários, é o ponto fraco. O Nostr é a rede mais difícil de matar e a mais difícil de usar, e essas duas coisas estão ligadas.
### Família 4. Conversar sem que ninguém saiba com quem: Matrix, SimpleX, Briar
O Matrix, de 2014, é o Fediverso das mensagens: servidores independentes que conversam entre si, com criptografia de ponta a ponta, e que ninguém pode desligar de uma vez. O que ninguém previa era quem adotaria. A França roda sobre ele o Tchap, o mensageiro da administração pública, com mais de meio milhão de contas; a Alemanha usa o BwMessenger nas Forças Armadas, com meta de 100 mil usuários, e o TI-Messenger no sistema de saúde, desenhado para até 74 milhões de segurados; a Suíça e a Suécia estudam o mesmo. O número de servidores Matrix descobríveis subiu 76% entre o fim de 2024 e o início de 2026, de 10 mil para 18 mil, e a Element, empresa por trás do protocolo, declara mais de 80 milhões de usuários em 80 mil instalações. A ironia é completa: o mesmo Estado que exige documento na porta da rede social escolheu, para as próprias conversas, uma rede que nenhum outro Estado consiga desligar. E o modelo tem o defeito do modelo: em 2026 uma invasão do Tchap expôs dados de 73.467 contas do governo francês. Descentralizado não é sinônimo de seguro; é sinônimo de não ter um único ponto de falha, o que é outra coisa.
O SimpleX vai além: não tem identificador de usuário nenhum, nem número, nem nome, nem chave pública fixa. Cada conversa usa filas de mensagem de mão única com endereços aleatórios que mudam, de modo que nem os servidores sabem quem fala com quem. O Session roda sobre o Lokinet e também dispensa número de telefone. Os dois são pequenos e servem a quem precisa que nem o metadado exista.
O Briar responde à terceira camada, o interruptor. Ele funciona sem internet: as mensagens vão por Bluetooth e Wi-Fi de aparelho em aparelho, e quando há internet, passam pelo Tor. No apagão iraniano de 2026, o interesse por mensageiros de proximidade disparou; o Briar chegou a 2,6 milhões de downloads, o Bitchat, lançado por Jack Dorsey em 2025 com o mesmo princípio, passou de 1 milhão de instalações na loja do Google, e o Bridgefy, que ficou famoso nos protestos de Hong Kong em 2019, declara 12,5 milhões de usuários. O Bridgefy também é o aviso da família: em 2020 pesquisadores mostraram que “nenhuma parte do aplicativo era criptografada”, permitindo interceptar mensagens e identificar usuários; a correção anunciada, com o protocolo do Signal, foi considerada falha em 2022, e uma auditoria de 2023 ainda encontrou vulnerabilidades críticas. Um mensageiro para protestos que entrega os manifestantes é pior do que nenhum.
O Veilid, do Cult of the Dead Cow, lançado em agosto de 2023, é a aposta de longo prazo: não um aplicativo, mas uma base para que qualquer aplicativo encontre e fale com outro sem servidor e sem empresa no meio. Em 2026 o mensageiro de demonstração, o VeilidChat, segue em desenvolvimento, sem versão oficial. É a família inteira em estágio de laboratório.
### Família 5. Quando desligam o cabo: Meshtastic, Reticulum
A última família não usa a internet. O Meshtastic usa rádios LoRa de baixo custo, do tamanho de um chaveiro, que trocam mensagens de texto entre si a quilômetros de distância e as repassam de rádio em rádio; qualquer aparelho ligado amplia a rede. Cresce em cidades, em trilhas, em resgates e em protestos, e vive um renascimento em 2026. O MeshCore é a versão para infraestrutura fixa, com repetidores planejados. O Reticulum é a mais ambiciosa: cifra cada pacote de ponta a ponta com chaves efêmeras, esconde matematicamente a identidade do remetente dos nós intermediários e funciona sobre qualquer meio, rádio LoRa, Wi-Fi, cabo serial, até internet, para ligar redes separadas. Nenhuma das três transmite vídeo ou voz com qualidade; transmitem texto e posição, o que é exatamente o que falta quando o Estado desliga a internet.
Parte 4. O que a descentralização não resolve
Seria desonesto terminar a lista sem a outra coluna, porque cada uma dessas redes tem o mesmo problema em forma diferente: ela troca um risco que se vê por vários que não se veem.
Usabilidade. Guardar a própria chave é ser o próprio banco: quem perde a chave do Nostr perde a identidade para sempre, sem “esqueci minha senha”. A Hyphanet é lenta por natureza. O Tor torna a web comum irritante. A adoção em massa sempre foi para o lado mais fácil, e as redes que crescem, Bluesky, Threads federado, são as que esconderam a descentralização do usuário.
Moderação. Uma rede que ninguém pode censurar é uma rede em que ninguém pode remover o que é indefensável. O Fediverso resolve com a desfederação, servidor a servidor, e vive em briga permanente por isso. O Nostr enfrenta spam e conteúdo criminoso e só pode responder relé por relé, sem que isso apague nada. É a mesma tensão que o Chat Control tenta resolver por decreto, sem a possibilidade do decreto.
Sustentabilidade. Relés do Nostr, servidores do Mastodon e nós de saída do Tor são mantidos por voluntários que pagam a conta e assumem o risco jurídico; operadores de saída do Tor já tiveram equipamentos apreendidos por tráfego que não era deles. Quando o voluntário cansa, o pedaço da rede some.
Centros disfarçados. O Bluesky é descentralizado no protocolo e centralizado no relé que a empresa opera. O Nostr tem milhares de relés possíveis e um punhado que quase todo mundo usa. O Tor depende de um diretório de autoridades. A Hyphanet aberta depende de estranhos. A pergunta útil nunca é “é descentralizada?”, mas “o que exatamente precisa cair para que ela pare?”.
Metadados e segurança de verdade. O Bridgefy provou que mesh sem criptografia é uma lista de manifestantes ao alcance da polícia. O Tchap provou que federado não é invulnerável. E o Tor, o mais testado de todos, não protege quem se identifica no site do outro lado.
Escala política. As redes descentralizadas protegem quem sabe usá-las. A Freedom House registra prisões por expressão on-line em 57 países, e a maioria dos presos não estava no Nostr. A descentralização é uma saída de emergência, não uma reforma do prédio.
Parte 5. O que isso significa para um brasileiro
O Brasil é, ao mesmo tempo, um dos países que mais usam essas redes e um dos que menos falam delas. É o quarto do mundo em usuários diretos do Tor. Foi o país que fez do Bluesky uma rede de verdade e de português o seu idioma principal. Tem, no Nostr, um criador. E tem uma Constituição que veda o anonimato na manifestação do pensamento, uma multa de R$ 50 mil já aplicada a quem usasse VPN para ler uma rede bloqueada, uma decisão do Supremo que responsabiliza plataformas por conteúdo alheio, e uma lei de verificação de idade que, nas primeiras semanas, fez projetos de software livre suspenderem o serviço para brasileiros por não ter como cumpri-la.
Para quem lê isto pensando em uso pessoal, a régua é a das três camadas. Contra a exigência de documento na porta, a resposta descentralizada são as redes sociais federadas e o Nostr, em que a porta não existe; a Constituição não proíbe pseudônimo nem chave criptográfica, proíbe o anonimato na manifestação, e é um debate jurídico aberto onde termina um e começa o outro. Contra o escaneamento de conversas, a resposta são os mensageiros de ponta a ponta com servidores fora do alcance de uma única ordem, o Matrix e o SimpleX. Contra o interruptor, a resposta é ter, antes de precisar, um Briar instalado e um rádio LoRa na gaveta, porque nenhuma dessas redes se instala depois que a internet cai. E para as três, a regra da EFF sobre as VPNs vale dobrada: nenhuma dessas ferramentas deveria ser necessária para acessar o que a lei permite, e nenhuma delas é infalível.
O que fica
Fato. A internet foi desenhada em 1964 para não ter centro e sobreviver à perda de metade dos nós; em sessenta anos, ganhou meia dúzia de centros por escolha dos próprios usuários. Em 2026, os governos usam esses centros em três camadas: documento na porta, escaneamento no servidor e desligamento do cabo, com exemplos medidos no Reino Unido, na União Europeia, na Rússia, no Irã e no Brasil. Existem cinco famílias de redes descentralizadas, com dezenas de projetos vivos, que somam milhões de usuários: 2 a 2,5 milhões diários no Tor, 2 milhões ativos no Fediverso, 10 milhões no Bluesky, mais de 80 milhões declarados no Matrix, milhões de downloads dos mensageiros sem internet durante o apagão iraniano. E o Brasil está entre os maiores usuários de várias delas.
Interpretação. O ciclo é o de 2001. O Napster morreu porque tinha um índice central, e em meses a troca de arquivos se tornou impossível de desligar; em 2026, as plataformas centrais estão recebendo ordens que só podem cumprir porque são centrais, e a resposta técnica é a mesma de vinte e cinco anos atrás. A diferença é que, desta vez, o outro lado são Estados democráticos com apoio da opinião pública, não gravadoras. Isso torna a fuga menos legítima aos olhos da maioria e mais necessária aos olhos da minoria que ela protege. A queda de 52% do Bluesky ensina que refúgio não é destino: as pessoas voltam para onde estão as outras pessoas. E a adoção do Matrix por governos europeus ensina o resto: quando é a própria conversa que está em jogo, até o Estado prefere uma rede que ninguém possa desligar.
Cenário. Três desfechos possíveis, não excludentes. No primeiro, a descentralização entra pela porta dos fundos: o Threads federado, o WordPress falando ActivityPub e o protocolo do Bluesky sob mil aplicativos fazem a maioria usar redes federadas sem saber, e o centro se dilui sem que ninguém tenha fugido para lugar nenhum. No segundo, o cerco se fecha sobre as próprias ferramentas: bloqueio de VPNs, exigência de idade nas lojas de aplicativos, retirada do Tor e dos mensageiros sem número das lojas, e as redes descentralizadas voltam a ser o que eram em 2005, um nicho de quem sabe compilar programas. No terceiro, o Chat Control 2.0 passa em setembro com o escaneamento nos aparelhos, o Signal cumpre a promessa e deixa a Europa, e o continente inteiro descobre, de uma vez, para que servem o Matrix e o SimpleX. Qual dos três vence se decide em três datas próximas: a votação europeia de setembro, a regulamentação brasileira da verificação de idade pela ANPD, e o dia em que a Rússia bloquear o Telegram por completo. Em cada uma delas, o número de downloads do Briar, do Tor e do Matrix vai dizer, no mesmo dia, quantas pessoas leram este texto até o fim.
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