Wardogs: o jogo de tiro de um estúdio independente inglês que vendeu 3 milhões de cópias em 16 dias e já é o sexto mais jogado da Steam
Matéria narrada pelo Professor
Lançado em acesso antecipado em 10 de setembro de 2026, Wardogs colocou um estúdio independente de Derby, na Inglaterra, no meio dos gigantes da Steam. Em 4 de outubro, o jogo aparecia em sexto lugar na lista oficial dos mais jogados da loja, com cerca de 137 mil pessoas jogando ao mesmo tempo, à frente de Deadlock, Valheim e Rust. Vendeu 1 milhão de cópias no primeiro dia e 3 milhões em pouco mais de duas semanas. O caminho até aqui teve servidores fora do ar, fila de espera, avalanche de avaliações negativas, trapaceiros e ataques aos servidores. Esta matéria explica o que é o jogo, quem o fez, o que os números dizem, o que deu errado no lançamento e o que vem na segunda temporada, marcada para 15 de outubro.
O que é Wardogs
Wardogs é um jogo de tiro em primeira pessoa, só multijogador, de estilo tático: a morte vem rápido, o trabalho em equipe decide mais que a pontaria, e cada partida é uma guerra em escala grande.
A ideia é simples de explicar. Cem jogadores entram numa mesma partida, divididos em três equipes de 33, que disputam uma zona de controle de 2 por 2 quilômetros sorteada dentro de um mapa de 256 quilômetros quadrados. O cenário é uma região montanhosa e industrial do Cáucaso, no Leste Europeu, numa versão fictícia. Ganha quem domina a zona.
A inspiração é declarada: o modo *King of the Hill*, o “rei da colina”, criado por fãs como modificação do Arma 3, um simulador militar conhecido pelo realismo. O que era uma partida improvisada pela comunidade virou, aqui, o jogo inteiro.
Três equipes em vez de duas mudam a lógica do combate. Quando duas equipes se enfrentam na colina, a terceira pode esperar e atacar a que sair mais fraca. Nenhuma vitória é segura, e as alianças de ocasião fazem parte do jogo.
Dinheiro em vez de classe pronta
O detalhe que mais distingue Wardogs é a economia. Cada conta começa com 10 mil dólares em dinheiro do jogo, e é com esse dinheiro que o jogador compra o próprio equipamento a cada partida: arma, acessórios, colete, veículo. Morrer com um equipamento caro custa caro. Jogar bem enche o caixa.
O resultado é um jogo de tiro que também é de gestão. Um jogador pode entrar com equipamento barato para arriscar, ou guardar dinheiro para comprar um veículo blindado na hora certa. A própria loja da Steam resume o espírito do jogo: o trabalho em equipe compensa, e o dinheiro manda.
O resto do pacote: cenário destrutível, construção de defesas, combate com veículos e conversa por voz de proximidade, em que só ouve quem está perto, inclusive o inimigo. O jogo usa o Unreal Engine 5, o motor gráfico da Epic Games.
E há uma escolha comercial que agradou à comunidade: segundo o que o estúdio divulgou, não há passe de batalha nem compras de vantagem dentro do jogo. Itens cosméticos são trocados por barras de ouro, que o próprio dinheiro do jogo converte ao fim de cada temporada.
Quem fez: a Bulkhead, de Derby
A Bulkhead é um estúdio independente britânico, com sede em Derby, na Inglaterra. Nasceu em 2015, fundada por cinco recém-formados da Universidade de Derby, e cresceu ao longo de uma década até uma equipe de pouco mais de cem pessoas. É muita gente para um estúdio independente, e pouca para um jogo de tiro com cem jogadores por partida, ao lado de títulos das maiores empresas do setor.
O estúdio tem história no gênero. Antes de Wardogs, fez o jogo de quebra-cabeças The Turing Test e, principalmente, Battalion 1944, um jogo de tiro da Segunda Guerra Mundial financiado por campanha coletiva no Kickstarter, que bateu a meta em menos de três dias. Battalion entrou em acesso antecipado em 2018 e foi lançado em 2019, mas as versões para PlayStation 4 e Xbox One prometidas a quem financiou o jogo nunca saíram: foram canceladas em 2022, e o jogo de PC passou a ser gratuito.
Wardogs é publicado pela Team17. O jogo está só no PC, pela Steam. As versões para PlayStation 5 e Xbox Series X|S estão previstas para 2028.
O caminho até o lançamento
O sucesso não veio do nada. Antes de chegar à loja, Wardogs já passava de 1 milhão de pessoas com o jogo na lista de desejos da Steam, a lista em que o jogador marca o que pretende comprar e que avisa quando o jogo sai ou entra em promoção. É um dos sinais mais acompanhados pela indústria para prever um lançamento forte.
Em 22 de agosto, a Bulkhead abriu um teste fechado, uma espécie de ensaio geral com acesso restrito, e quase 500 mil jogadores participaram. Foi nesse teste que o jogo ganhou o empurrão das transmissões ao vivo: criadores de conteúdo de jogos de tiro levaram a novidade para as suas audiências, e a comunidade chegou ao dia 10 de setembro já sabendo o que esperar.
Esse caminho ajuda a explicar a escala do primeiro dia. Também ajuda a explicar por que os servidores não aguentaram: o teste fechado mediu o interesse com acesso controlado, e o lançamento abriu a porta para todo mundo ao mesmo tempo.
Os números
Os números de Wardogs são raros para qualquer jogo, e mais ainda para um estúdio independente.
| Marco | Número | Quando |
|---|---|---|
| Lançamento em acesso antecipado | — | 10 de setembro de 2026 |
| Cópias vendidas | 1 milhão | primeiro dia |
| Cópias vendidas | 2 milhões | cinco dias |
| Pico de jogadores ao mesmo tempo | 428.666 | 13 de setembro |
| Cópias vendidas | 3 milhões | 16 dias |
| Posição entre os mais jogados da Steam | 6º lugar | 4 de outubro |
| Pico diário de jogadores | 259.801 | 4 de outubro |
Algumas leituras ajudam a pôr esses números em perspectiva.
O pico de 428 mil jogadores simultâneos coloca Wardogs entre os maiores lançamentos do ano na Steam. A lista dos mais jogados é dominada há anos por Counter-Strike 2, Dota 2 e PUBG, jogos gratuitos ou antigos com público fiel. Wardogs é pago e tinha menos de um mês de vida quando chegou ao sexto lugar.
A receita passou de 52 milhões de libras esterlinas, segundo levantamento citado pela imprensa britânica, o que põe o jogo em sétimo lugar entre os lançamentos de 2026 que mais faturaram na Steam.
A queda depois do pico é normal e, aqui, foi suave. Um jogo multijogador perde parte do público depois da euforia das primeiras semanas. Wardogs caiu de 428 mil no auge para cerca de 260 mil no pico diário de 4 de outubro, e continua acima de jogos consagrados. A própria Bulkhead, ao comemorar os 3 milhões, disse saber que esse entusiasmo não dura para sempre.
As avaliações dos jogadores na Steam estão em “Muito positivas”: cerca de 80% de mais de 60 mil análises recomendam o jogo. Entre as análises escritas em português, a aprovação é de 85%.
Um lançamento difícil
O sucesso chegou maior do que a estrutura preparada para ele.
No dia do lançamento, os servidores caíram com a enxurrada de jogadores. O estúdio passou a limitar as entradas e criou filas de espera para conseguir jogar. O problema virou polêmica quando jogadores perceberam que alguns criadores de conteúdo, que transmitiam o jogo ao vivo, entravam na frente da fila. A reação foi uma onda de avaliações negativas na Steam, e a nota geral caiu para “Neutras”, com cerca de 45% de aprovação nos primeiros dias.
A Bulkhead respondeu com um pedido de desculpas incomum pela franqueza: numa mensagem aos jogadores, a equipe admitiu, com um palavrão contra si mesma, que errou ao dar prioridade aos transmissores. A fila foi ajustada, a capacidade dos servidores cresceu, e as avaliações se recuperaram até o patamar atual.
O preço do sucesso para a equipe
Em 28 de setembro, ao anunciar os 3 milhões de cópias, o diretor-executivo da Bulkhead, Joe Brammer, descreveu um estúdio sobrecarregado. Segundo ele, a equipe passou as semanas depois do lançamento combatendo trapaceiros e ataques de negação de serviço, uma forma de derrubar servidores inundando-os com tráfego falso. Brammer contou que o volume de segurança extra exigida fez a equipe se sentir fora de controle, e que boa parte do time foi obrigada a tirar férias naquela semana, para descansar do esgotamento físico e mental.
O tema da carga de trabalho já tinha virado polêmica dias antes. Em 17 de setembro, num podcast, Brammer disse que o estúdio observa nas redes sociais de candidatos a vaga se há mensagens contra o *crunch*, o regime de horas extras intensas comum na indústria de jogos, e que espera esforço extra da equipe quando necessário. Depois da repercussão negativa, ele afirmou que eram comentários informais sobre a cultura da empresa, não uma política, que a análise de redes sociais respeita a lei trabalhista britânica, e que o único período de horas extras foi opcional: duas horas a mais por dia durante quatro semanas, na fase de testes, com quatro funcionários que preferiram não participar sem sofrer consequências.
Para o jogador, o efeito prático das férias forçadas foi pequeno: o jogo seguiu no ar, e a segunda temporada está confirmada para 15 de outubro. Para quem acompanha a indústria, o episódio mostra o outro lado de um sucesso repentino num estúdio de porte médio.
O que vem: a segunda temporada em 15 de outubro
A Bulkhead confirmou a Temporada 2 para 15 de outubro, com três novidades principais.
O recomeço da progressão. Ao fim de cada temporada, o nível do jogador, o progresso nas funções e o dinheiro são zerados, e armas, acessórios e veículos desbloqueados voltam a ficar trancados. O dinheiro que sobrar é convertido em barras de ouro, que ficam, assim como os itens cosméticos comprados com elas. É uma escolha que divide opiniões: renova a disputa e põe veteranos e novatos em pé de igualdade, mas apaga semanas de progresso.
Clima dinâmico. Chuva forte e mudanças de tempo que reduzem a visibilidade e alteram os sons do combate, o que muda a forma de localizar o inimigo.
Sistema de traços. Uma nova camada de progressão, em que pontos de habilidade ganhos com experiência compram melhorias específicas de cada função.
Brammer adiantou que a próxima fase será “apimentada” e que nem toda mudança vai agradar a todos de imediato.
Vale a pena, e para quem
Wardogs custa R$ 119,99 na Steam brasileira, na edição padrão, e R$ 146,99 na Edição Apoiador. O estúdio avisa que o preço vai subir na versão final, prevista para daqui a um a dois anos de acesso antecipado.
O jogo serve a quem gosta de batalhas grandes, de coordenação por voz e de partidas longas, em que posição e paciência valem tanto quanto reflexo. Quem vem de Battlefield vai reconhecer a escala; quem vem de Arma, a lógica tática; quem vem de Counter-Strike, a economia de compra de equipamento.
Três avisos práticos. O computador precisa de pelo menos 16 GB de memória, uma placa de vídeo do nível da GeForce GTX 1660 e 50 GB livres. O jogo não roda no Linux nem no Steam Deck. E é acesso antecipado: o jogo está incompleto, vai mudar bastante, e a progressão será zerada a cada temporada.
O que não se sabe
– Se o público se mantém. A segunda temporada, com o recomeço da progressão, é o primeiro grande teste de permanência.
– Quantos trapaceiros foram banidos. O estúdio fala em combate constante, mas não divulgou números.
– A data da versão final. O estúdio fala em um a dois anos de acesso antecipado, sem data.
– Como será a versão de console. Está prevista para 2028, sem detalhes.
O fecho
Wardogs é o tipo de história que a Steam ainda produz de vez em quando: um estúdio independente, com uma ideia tirada de um modo criado por fãs, entra na lista dos mais jogados ao lado dos jogos das maiores empresas do mundo. Os próximos meses vão dizer se é um fenômeno de lançamento ou o começo de um clássico do gênero. O primeiro capítulo dessa resposta começa no dia 15, com a segunda temporada.
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