Nvidia no Reino Unido: US$ 250 milhões em computação para a segurança da IA e aposta em cinco empresas britânicas
Matéria narrada pelo Professor
Em 13 e 14 de outubro de 2026, a Nvidia fez uma série de anúncios no Reino Unido. Doou o equivalente a US$ 250 milhões em capacidade de computação, ao longo de cinco anos, para a pesquisa britânica em segurança de agentes de inteligência artificial. Entrou como parceira fundadora da aliança global do Earthshot Prize, o prêmio ambiental criado pelo príncipe William. E, numa recepção em Londres, o presidente da empresa, Jensen Huang, anunciou investimentos em cinco empresas britânicas, de remédios a computação quântica. Esta matéria explica cada anúncio, o que são essas empresas, o que Huang disse e o que ainda não está definido.
A ficha
| Item | Anúncio |
|---|---|
| Datas | 13 e 14 de outubro de 2026 |
| Doação para segurança da IA | US$ 250 milhões em computação, em cinco anos (US$ 50 milhões por ano) |
| Quem recebe | a comunidade britânica de pesquisa em segurança de IA, com parcelas para grupos de Oxford, da UCL e do Imperial College |
| Earthshot Prize | Nvidia como parceira fundadora da aliança global |
| Investimentos | Boltz, Foresight, Hiverge, Prima Mente e Riverlane |
| Valores dos investimentos | não divulgados |
| Próxima etapa da viagem | GTC Berlin, de 20 a 22 de outubro |
Os US$ 250 milhões para segurança de agentes
O anúncio mais importante saiu num comunicado da Nvidia em 13 de outubro. A empresa vai doar acesso a computação no valor de US$ 250 milhões em cinco anos. Não é dinheiro: são horas de uso de supercomputadores, um recurso caro e disputado na pesquisa em inteligência artificial.
O alvo é a segurança dos agentes, os programas de IA que não só respondem perguntas, mas executam tarefas sozinhos, como navegar, programar e operar outros sistemas. Segundo o comunicado, os temas incluem agentes seguros, segurança de modelos abertos, ambientes isolados de teste e testes padronizados de segurança. A maior parte vai para a comunidade britânica de pesquisa na área, e uma parcela vai para três grupos: o BOLD, liderado pela Universidade de Oxford; o SOFAIR, liderado pela University College London; e o Imperial College London, que trabalha com engenharia de segurança e robótica.
A computação será entregue por empresas parceiras de nuvem da Nvidia sediadas no Reino Unido, e o comunicado diz que a escolha desses fornecedores, a estrutura e os termos comerciais ainda serão acordados. Segundo o site ResultSense, com base na Reuters, nada foi contratado ainda. O valor equivale a cerca de 189 milhões de libras.
No comunicado, Huang resume a ideia numa frase: “AI capability and safety must advance together”, ou seja, a capacidade e a segurança da IA precisam avançar juntas. Também falam no texto o ministro britânico de IA, Kanishka Narayan, e o secretário de Negócios, Jonathan Reynolds.
O que a doação inclui, na prática
O comunicado lista as ferramentas que a Nvidia leva para essa pesquisa. São o NVIDIA OpenShell e o NVIDIA Sentry. A ideia, segundo o texto, é dar aos pesquisadores britânicos capacidade de computação suficiente para construir ambientes isolados, onde um agente pode ser testado sem acesso ao mundo real, e criar testes padronizados que permitam comparar a segurança de diferentes sistemas.
No dia 14, a agenda incluiu um fórum de pesquisa em segurança de IA no London Institute for Healthcare Engineering, com a participação de Huang. Nas falas do dia, ele defendeu tratar os agentes como programas que precisam de um espaço próprio e controlado dentro do computador, a imagem do “sistema operacional dentro do sistema operacional”.
Onde a Nvidia já está no Reino Unido
O blog da Nvidia aproveitou os anúncios para listar empresas e instituições britânicas que já usam a tecnologia da marca. Entre os bancos, aparecem NatWest, Lloyds, Revolut e Starling; no mercado financeiro, a LSEG, dona da Bolsa de Londres. Na saúde pública, o sistema NHS, por meio da empresa OneAdvanced. Também estão na lista o projeto “City Brain”, de Liverpool, a empresa de energia Fuse Energy e a Danaher, da área de ciências da vida. O texto cita ainda que a Riverlane mostrou que as placas de vídeo da Nvidia aceleram uma etapa da correção de erros quânticos.
Por que o Reino Unido
Segundo a Reuters, o Reino Unido não tem grandes desenvolvedoras de IA próprias e tenta ocupar um papel de liderança na avaliação dos riscos da tecnologia. A agência lembra que a preocupação com segurança cresceu depois que empresas como a Anthropic e a OpenAI relataram comportamentos indesejados de agentes.
O comunicado da Nvidia apoia a doação na colaboração com o Isambard-AI, o supercomputador da Universidade de Bristol. Lançado em julho de 2025, ele custou 225 milhões de libras de dinheiro público, foi construído pela universidade com a HPE e a Nvidia e tem 5.448 chips Grace Hopper, da Nvidia, com desempenho de 21 exaflops em tarefas de inteligência artificial e eletricidade sem emissão de carbono. Um exaflop corresponde a um quintilhão de operações por segundo. No lançamento, a previsão era de que o Isambard-AI ficasse em 11º lugar no ranking mundial de supercomputadores, o TOP500, e em 4º no de eficiência energética, o Green500. Para a doação de agora, porém, o comunicado não cita uma máquina específica: diz apenas que a computação virá de parceiros de nuvem da Nvidia sediados no Reino Unido, ainda a definir, o que deixa em aberto onde e como os pesquisadores vão usar essas horas.
O Earthshot Prize
No dia 14, a Nvidia entrou no Earthshot Prize como parceira fundadora da sua aliança global. O prêmio foi criado em 2020 pelo príncipe William para apoiar soluções para problemas ambientais e já apoiou 90 finalistas, com meta de 150 até 2030. São 15 finalistas por ano, e a premiação deste ano será em Mumbai, na Índia, em 16 e 17 de novembro. Na página do anúncio, o presidente-executivo do prêmio, Jason Knauf, e Jensen Huang comentam a parceria; não há fala do príncipe William sobre o acordo.
Os finalistas passam a ter acesso ao programa de startups da Nvidia, o Inception, às ferramentas de clima da empresa, chamadas Earth-2, a suporte de engenharia e a computadores DGX Spark, as estações compactas de IA da marca.
As cinco empresas
Na noite de 14 de outubro, numa recepção no Mercato Mayfair, uma igreja convertida em espaço de eventos em Londres, Huang anunciou investimentos em cinco empresas britânicas. Os valores não foram divulgados; segundo o site Tech.eu, a Nvidia fica com participação minoritária.
| Empresa | O que faz |
|---|---|
| Boltz | modelos de IA de biologia molecular para prever estruturas de moléculas e desenhar remédios; criou com o MIT e a Recursion o modelo aberto Boltz-2 |
| Foresight | prevê prazos e riscos de grandes obras, inclusive de data centers |
| Hiverge | um "motor de descoberta" que escreve e otimiza algoritmos, criado por ex-pesquisadores do Google DeepMind e da Universidade de Cambridge |
| Prima Mente | modelos de biologia para entender doenças complexas, começando por Alzheimer, Parkinson e ELA |
| Riverlane | hardware e software de correção de erros em tempo real para computadores quânticos |
Algumas já tinham investidores de peso. Segundo o TechRepublic, a Boltz levantou US$ 28 milhões e fechou acordo com a Pfizer ao se lançar como empresa, em janeiro de 2026. A Foresight captou US$ 25 milhões em março, segundo o Tamradar. A Hiverge levantou US$ 5 milhões em 2025, com Jeff Dean, do Google, entre os investidores. A Riverlane captou US$ 75 milhões em 2024, segundo o VentureBeat. E a Prima Mente foi uma das primeiras escolhidas pelo programa de IA soberana do governo britânico, segundo o Pharmaphorum.
Um site chegou a publicar que a Nvidia investiu mais de US$ 1 bilhão nas cinco empresas, número que contradiz a própria Nvidia e outros veículos, segundo os quais os valores não foram divulgados.
O que Huang disse em Londres
Pelo blog ao vivo da Nvidia, Huang defendeu que a IA é a melhor chance de acelerar a transição para a energia sustentável, que “a IA não é só o modelo” e que, para participar dessa economia, o Reino Unido precisa estar presente em todas as camadas da tecnologia. Também defendeu isolar os agentes de IA, como “um sistema operacional dentro do sistema operacional”, e falou em “democratizar a autodefesa” contra ataques digitais.
Segundo o The Next Web, citando a Bloomberg, Huang disse que, em tese, cortaria o fornecimento de chips a um cliente que construísse IA insegura, mas conversaria antes com ele, e que a preocupação atual com o tema é exagerada. Nenhum cliente foi citado. Segundo o Tech.eu, perguntado sobre a China, ele disse que o Ocidente e o Reino Unido devem continuar conversando com as empresas chinesas de IA.
A turnê europeia
Londres foi uma etapa de uma viagem pela Europa. Em Paris, em 13 de outubro, segundo o The Next Web, Huang prometeu US$ 2 bilhões em investimentos europeus numa semana, somados a US$ 8 bilhões no último ano, e defendeu os modelos abertos de IA, que cada país pode adaptar ao próprio idioma e às próprias regras. O blog da Nvidia enquadra os anúncios num compromisso de quase US$ 10 bilhões com o ecossistema europeu.
A próxima parada é o GTC Berlin, a conferência da Nvidia, de 20 a 22 de outubro, com palestra principal de Huang no dia 21, das 6h às 8h no horário de Brasília.
Não é a primeira aposta da Nvidia no país. Em setembro de 2025, durante a visita de Estado de Donald Trump ao Reino Unido, a empresa anunciou 2 bilhões de libras para startups britânicas, com fundos de investimento locais, segundo o Tech.eu. Mais de 3.100 empresas britânicas fazem parte do programa Inception, e empresas como Synthesia e Wayve já tinham recebido investimento da Nvidia.
O que circula sem confirmação
| Alegação | Situação |
|---|---|
| Huang teria "abandonado" a OpenAI e a Anthropic em Londres | não confirmada; nada nas falas de Londres diz isso. Em março, segundo o TechCrunch, ele disse que os aportes recentes nas duas empresas provavelmente seriam os últimos, porque elas devem abrir capital; isso é sobre participação acionária, não sobre fornecimento de chips |
| Huang teria feito em Londres um discurso sobre "IA soberana" | parcial; o registro oficial traz a ideia de que o país precisa estar em todas as camadas da IA, mas a expressão não aparece; a defesa dos modelos abertos como caminho de soberania veio em Paris |
| A Nvidia teria investido mais de US$ 1 bilhão nas cinco empresas | não confirmada; os valores não foram divulgados |
| A Nvidia avaliaria investir até US$ 10 bilhões na abertura de capital da Anthropic | rumor de setembro, citado pelo The Next Web |
O fecho
A Nvidia saiu de Londres com três recados: a segurança da IA também precisa de computação, e ela vai doá-la; o clima e a saúde são áreas onde quer ver a IA aplicada; e o Reino Unido é um lugar para investir. Os detalhes práticos da doação, como os fornecedores e os termos, ainda serão definidos, e os valores investidos nas cinco empresas seguem em sigilo. A próxima etapa é Berlim, onde Huang sobe ao palco no dia 21.
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