RTX 5090 somem em Guarulhos: dois paletes de placas da Zotac desaparecem no terminal de cargas do aeroporto
Matéria narrada pelo Professor
Dois paletes de placas de vídeo Zotac GeForce RTX 5090, a placa mais cara e mais disputada da Nvidia, desapareceram no terminal de cargas do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. A carga, avaliada em cerca de R$ 2,5 milhões a preço de custo, pertencia à Oderço, distribuidora de informática de Maringá, no Paraná, que tornou o caso público num vídeo nas redes sociais em 16 de outubro de 2026. A concessionária GRU Airport confirmou em nota que não localizou os paletes, comunicou o fato às autoridades e abriu o processo de indenização. O caso foi noticiado por veículos de tecnologia do mundo inteiro. Esta matéria reúne o que está confirmado, o que ainda é só a versão da distribuidora, por que a perda pesa tanto num momento de escassez da placa e o que se sabe sobre os caminhos que cargas como essa costumam tomar.
O que está confirmado
| Fato | Quem confirma |
|---|---|
| Dois paletes de RTX 5090 destinados à Oderço não foram localizados no aeroporto | GRU Airport, em nota |
| A concessionária comunicou a não localização às "autoridades competentes" | GRU Airport, em nota |
| Em 14 de outubro, a concessionária passou à empresa as orientações para o processo de indenização | GRU Airport, em nota |
| O caso veio a público em 16 de outubro, num vídeo do presidente da Oderço no Instagram | perfil da distribuidora e imprensa |
A concessionária não disse quais autoridades foram avisadas, nem em que etapa a carga saiu do controle. Até as reportagens de 19 e 20 de outubro, a Polícia Federal e a Receita Federal não tinham se manifestado publicamente, e a Zotac também não.
A versão da distribuidora
A maior parte dos detalhes do caso vem da própria Oderço. Segundo a cronologia que a empresa apresentou, relatada pelo UOL e reproduzida pelo Click Guarulhos e pelo Maringá Post:
| Data | Etapa, segundo a Oderço |
|---|---|
| 20 de setembro | a carga chega ao Brasil |
| 24 de setembro | registro da DTA, a autorização para a carga seguir viagem sob controle aduaneiro |
| 25 de setembro | a Receita Federal aprova e libera a carga |
| 6 de outubro | o aeroporto indica um piso do terminal onde a carga estaria |
| 14 de outubro | o aeroporto admite não ter encontrado a carga |
A data de 14 de outubro coincide com a nota da concessionária. As demais ainda não foram confirmadas por fonte independente.
No vídeo, o presidente da distribuidora, Oderço Matos, resumiu o espanto com uma frase curta: “Dois pallets não somem sozinhos dentro de um aeroporto internacional”. A empresa diz importar hardware desde 2008 e nunca ter perdido uma carga. Afirmou também que não há registro de câmeras da retirada da carga e, segundo o relato do UOL, que a concessionária não teria aberto protocolo nem avisado ninguém do sumiço, versão que contrasta com a nota da própria concessionária. A GRU Airport não informou se as câmeras registraram a movimentação dos paletes.
O número de placas não foi divulgado. Os veículos que noticiaram o caso fizeram estimativas próprias a partir do valor: pelo menos 63 placas, segundo o Tom’s Hardware, e algumas centenas, segundo o Canaltech.
O caminho de uma carga importada no aeroporto
Uma carga que chega do exterior pelo aeroporto não vai direto para a empresa que a comprou. Ela desembarca no terminal de cargas, um recinto alfandegado, ou seja, uma área sob controle da Receita Federal, onde fica guardada até ser conferida e liberada. No caso das placas da Oderço, a cronologia da empresa fala em DTA, a Declaração de Trânsito Aduaneiro: um regime em que a mercadoria, já conferida na chegada, é autorizada a seguir viagem, ainda sob controle aduaneiro, até outro ponto do país onde será desembaraçada.
Entre a chegada do avião e a saída do caminhão, a carga passa por várias mãos: os funcionários da concessionária que operam o terminal, empresas terceirizadas de movimentação, a fiscalização da Receita e a transportadora que vai buscá-la. Segundo a Oderço, os paletes passaram pela conferência de chegada e depois não apareceram nas etapas seguintes. É nesse intervalo, entre a liberação de 25 de setembro e a busca frustrada de outubro, que a carga teria saído do controle, sempre segundo a versão da distribuidora.
A repercussão
O caso ganhou o mundo em menos de 48 horas. Nos Estados Unidos, o Tom’s Hardware, a PC Gamer, o Wccftech e o VideoCardz publicaram a notícia entre 17 e 19 de outubro, com o valor convertido para algo entre US$ 470 mil e US$ 500 mil, conforme o câmbio de cada um. A PC Gamer chamou a RTX 5090 de “unobtanium”, o material quase impossível de achar. No Brasil, o caso foi noticiado pelo Canaltech, pelo Adrenaline, pelo Tecnoblog, pelo Terra, pelo O Povo e pela imprensa de Maringá e de Guarulhos.
Em quase todas as reportagens, a base é a mesma: o comunicado da Oderço, a falta de resposta inicial das autoridades e, a partir de 19 de outubro, a nota da concessionária.
A indenização
O que existe, segundo a nota da concessionária, é um processo de indenização aberto pela própria GRU Airport, que aguarda a documentação da empresa para concluí-lo. A Anti/Hype, publicação brasileira de tecnologia, lembra que o regulamento aduaneiro trata o operador do recinto alfandegado como responsável pela guarda da mercadoria enquanto ela está ali. Nenhuma das fontes consultadas menciona seguro privado da carga.
Por que a perda pesa tanto
A RTX 5090 é a placa de vídeo mais potente da linha de consumo da Nvidia, lançada em janeiro de 2025 por US$ 1.999 nos Estados Unidos. Em outubro de 2026, ela está escassa. Saiu da loja on-line da Nvidia nos Estados Unidos, segundo o Canaltech, e a rede americana Micro Center passou a marcá-la como fora de linha em sua loja, segundo o The FPS Review. Na Amazon americana, chegou a cerca de US$ 8.500, segundo o Tom’s Hardware.
No Brasil, os preços vão de cerca de R$ 23 mil a R$ 57 mil conforme o modelo, e uma Zotac sai por cerca de R$ 35 mil, segundo o Canaltech.
A escassez alimentou um boato. Em 10 de outubro, um conhecido divulgador de vazamentos afirmou que a Nvidia teria parado de mandar o chip da RTX 5090 para os fabricantes de placas, reservando-o para a linha profissional. A Nvidia negou: o vice-presidente sênior Jeff Fisher disse ao site taiwanês 4Gamers que a placa não foi descontinuada, que a oferta está “um tanto limitada” e que a empresa vai continuar a enviá-la.
Para uma distribuidora, repor um lote nessas condições é difícil e caro, e é isso que torna a perda maior do que o valor de custo registrado.
Quem são a Oderço e a Zotac
A Oderço é uma distribuidora de eletrônicos e informática com sede em Maringá, no Paraná, registrada desde 2008, e dona da marca de periféricos PCYES, segundo o Canaltech. Aparece na lista de onde comprar da Zotac Brasil.
A Zotac é uma fabricante de placas de vídeo do grupo PC Partner, que também é dono das marcas Inno3D e Manli. Em novembro de 2024, o grupo transferiu a sede de Hong Kong para Singapura, segundo o Igor’s Lab.
Para onde vai uma carga assim?
Ninguém sabe onde estão as placas, e nenhuma autoridade comentou o destino da carga. A pergunta que todo mundo faz tem, porém, um contexto concreto, de dois lados.
O contrabando de placas Nvidia para a China. Os Estados Unidos restringem a venda de chips avançados de inteligência artificial à China, e a própria RTX 5090 tem versões feitas só para o mercado chinês, as RTX 5090 D, para cumprir essas regras. Esse controle criou um mercado de contrabando documentado pela Justiça americana. Em dezembro de 2025, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou o desmonte de uma rede que mandou pelo menos US$ 160 milhões em chips da Nvidia para a China e Hong Kong. Em outubro de 2026, um empresário da Califórnia foi denunciado por contrabandear cerca de US$ 300 milhões em servidores com chips da Nvidia para a China, numa acusação que cita placas RTX 5090 e RTX 4090, com rota por Malásia e Singapura, segundo o The Register. Nenhum desses casos tem relação com o sumiço de Guarulhos.
Os desvios no próprio terminal de cargas. O terminal de cargas de Guarulhos tem histórico recente de desvios. Em setembro de 2025, a Polícia Civil de São Paulo prendeu três funcionários na Operação Check-In, por furtos de pelo menos R$ 19,9 milhões em cargas do aeroporto, segundo o Metrópoles. Em janeiro de 2026, a terceira fase da operação prendeu um operador de empilhadeira terceirizado por furtar telas e celulares, retirados do fluxo de fiscalização da Receita, segundo a CNN Brasil. Em novembro de 2025, outra operação mirou uma quadrilha que registrava perdas falsas para retirar cargas do aeroporto, com prejuízo estimado em R$ 100 milhões, segundo o SBT News. Também aqui, nenhuma dessas investigações tem ligação confirmada com o caso das RTX 5090.
Entre os veículos que noticiaram o sumiço, as hipóteses levantadas são outras e mais simples: a PC Gamer e o Critical Hits lembraram que a carga pode ter sido furtada ou simplesmente embarcada junto com outro frete, por engano. A Anti/Hype alertou que cargas desviadas costumam reaparecer em sites e grupos de revenda, sem nota fiscal.
O que o comprador pode fazer
Para quem procura uma RTX 5090 num mercado escasso, o caso reforça cuidados básicos:
– Desconfie de preço muito abaixo do mercado, sobretudo em grupos e anúncios sem loja identificada.
– Exija nota fiscal e confira se o vendedor é revenda autorizada.
– Anote o número de série da placa e da caixa; ele permite rastrear a origem com o fabricante.
– Prefira lojas com política de devolução clara.
A garantia da placa também depende da origem: sem nota fiscal, o comprador não tem como provar a origem da placa nem acionar a garantia do fabricante, e é justamente sem documento que circulam as cargas desviadas. Numa placa de dezenas de milhares de reais, a garantia vale tanto quanto o desconto.
O que falta saber
| Pergunta | Situação em 20 de outubro de 2026 |
|---|---|
| Quantas placas havia nos paletes | não divulgado |
| Qual modelo da Zotac | não divulgado |
| De onde veio o voo | não divulgado |
| Em que etapa a carga saiu do controle | a concessionária não informou |
| Se as câmeras registraram a retirada | a concessionária não informou |
| Quem investiga | a concessionária fala em "autoridades competentes", sem nomear; PF e Receita sem posição pública |
| Onde estão as placas | desconhecido |
O caso segue aberto. A Oderço diz que tornou o sumiço público “porque precisamos de respostas”, e por enquanto a única resposta oficial é a de que a carga não foi encontrada.
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