EntrarCriar conta

DeepSeek banido: governo dos EUA manda tirar a IA chinesa de todas as agências civis federais

0
2026-10-21-eua-banem-deepseek-de-agencias-federais-capitulo-01
0:00--:--

Matéria narrada pelo Professor

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, o DHS, ordenou que todas as agências civis do governo federal excluam das compras e removam dos seus sistemas os produtos da DeepSeek, a empresa chinesa de inteligência artificial. A ordem foi assinada em 24 de julho de 2026, mas só se tornou pública em 20 de outubro, com a publicação no Diário Oficial americano, o Federal Register. Ela alcança também produtos de outras empresas feitos com a tecnologia da DeepSeek, uma cláusula que especialistas dizem ser difícil de cumprir. A China reagiu no mesmo dia, e a DeepSeek não se manifestou. Este artigo explica o que diz a ordem, o que ela alcança, os riscos que o governo americano aponta e o histórico de restrições à empresa.

O que foi decidido

Item Dado
Documento Ordem de Exclusão e Remoção nº 2026-01
Quem emitiu Departamento de Segurança Interna (DHS), assinada pelo secretário Markwayne Mullin
Data da ordem 24 de julho de 2026
Publicação protocolada em 19 e publicada em 20 de outubro de 2026 no Federal Register
Base legal Lei de Segurança da Cadeia de Suprimentos nas Compras Federais, de 2018
Quem é afetado agências civis do Poder Executivo federal
Quem fica de fora sistemas de segurança nacional; Defesa e inteligência seguem outra lei
Quem executa a CISA, agência de cibersegurança do DHS

Os dados vêm do texto da ordem, publicado no Federal Register e lido na íntegra.

O que a ordem manda fazer

A ordem tem duas determinações. A primeira é a exclusão: as agências não podem mais comprar produtos e serviços da DeepSeek e de suas afiliadas, com efeito imediato, e eles saem também das listas de produtos aprovados e dos mercados eletrônicos de compras do governo.

A segunda é a remoção: os produtos da DeepSeek já instalados devem ser retirados dos sistemas das agências, também de imediato. A remoção alcança ainda os “produtos e serviços de terceiros desenvolvidos usando implementações da DeepSeek”, ou seja, ferramentas de outras empresas que tenham a tecnologia chinesa por dentro.

Quem não conseguir remover a tempo podia pedir uma exceção à CISA, por escrito, com justificativa e medidas alternativas de proteção, em até 60 dias depois da emissão da ordem. Como a ordem foi assinada em julho e só veio a público em outubro, esse prazo terminou antes da publicação. Enquanto a remoção não termina, as agências são incentivadas, sem obrigação, a monitorar o tráfego de rede, ampliar os registros de atividade e sinalizar comportamentos suspeitos. O secretário revê a ordem em até um ano.

Os riscos apontados pelo governo

O texto da ordem lista os motivos da decisão. Os principais:

Risco apontado na ordem Detalhe
Servidores na China os dados ficam em território chinês, onde a lei dá amplo acesso ao governo
Coleta de dados nos serviços hospedados pela própria DeepSeek, o cadastro coleta dados pessoais e permite rastrear o usuário
Perguntas e respostas a troca de mensagens pode transferir informação sensível à China
Código malicioso segundo a ordem, os modelos "podem conter" código malicioso
Aplicativo de iPhone "múltiplas vulnerabilidades críticas", citando a empresa de segurança NowSecure

A ordem resume que os modelos da DeepSeek apresentam “vários vetores de ameaça”, ou seja, vários caminhos possíveis de ataque. Entre as fontes que ela cita estão a política de privacidade da própria DeepSeek, um relatório da Câmara dos Estados Unidos de abril de 2025 e a análise da NowSecure.

Os problemas que já tinham sido documentados

Dois episódios de 2025 ajudam a entender a desconfiança. Em janeiro de 2025, a empresa de segurança Wiz encontrou um banco de dados da DeepSeek aberto na internet, sem senha, com mais de 1 milhão de linhas de registros, incluindo histórico de conversas e chaves secretas. A DeepSeek fechou o acesso depois do aviso.

Em fevereiro de 2025, a NowSecure analisou o aplicativo da DeepSeek para iPhone e relatou que ele enviava dados sem criptografia, usava um método de criptografia antigo e já quebrado, guardava uma chave fixa no próprio código e mandava dados para a Volcengine, o serviço de nuvem da ByteDance, dona do TikTok.

Em setembro de 2025, o CAISI, centro de avaliação de IA do governo americano ligado ao NIST, testou três modelos da DeepSeek. Segundo o relatório, os agentes baseados nos modelos foram 12 vezes mais propensos a seguir instruções maliciosas que os modelos americanos de referência, e as respostas repetiram narrativas do Partido Comunista Chinês com frequência quatro vezes maior. Diante de truques usados para burlar as travas de segurança, chamados de jailbreak, os modelos da DeepSeek atenderam a 94% dos pedidos maliciosos, contra 8% dos modelos americanos testados. O mesmo relatório registrou que os downloads da DeepSeek cresceram quase 1.000% desde janeiro de 2025, e que os modelos tiveram desempenho abaixo dos americanos nos testes, com custo 35% maior.

O relatório da Câmara dos Estados Unidos de abril de 2025, chamado “DeepSeek Unmasked”, foi além: acusou a empresa de enviar dados de americanos à China, de ajustar as respostas à propaganda do Partido Comunista e afirmou ser “muito provável” que ela tenha usado destilação para treinar os seus modelos.

O que é destilação

A destilação é uma técnica em que um modelo de IA aprende imitando as respostas de outro. Em vez de treinar do zero, com enormes volumes de texto e muito poder de computação, a empresa faz milhões de perguntas a um modelo mais avançado e usa as respostas para ensinar o seu. É um método legítimo quando o modelo de origem é da própria empresa, mas vira disputa quando as respostas vêm de um concorrente, cujos termos de uso proíbem esse uso.

Em 8 de setembro de 2026, um alerta conjunto da NSA, da CISA e do FBI acusou a DeepSeek e mais cinco empresas chinesas de fazer destilação em escala “industrial” a partir de modelos americanos, segundo o site eSecurity Planet. A ordem do DHS não cita a destilação entre os seus motivos, que se concentram em dados e segurança dos sistemas, mas ela faz parte do mesmo pano de fundo.

A pergunta difícil: o que conta como produto DeepSeek

A DeepSeek não vende só um aplicativo. A empresa publica os seus modelos com pesos abertos, o que significa que qualquer pessoa pode baixá-los e rodá-los no próprio computador, sem passar pelos servidores chineses. A empresa lançou em abril de 2026 a família DeepSeek V4, com o V4-Pro, de 1,6 trilhão de parâmetros, e o V4-Flash, de 284 bilhões, ambos capazes de ler textos de até 1 milhão de tokens, segundo a documentação oficial. A versão mais recente, o DeepSeek V4.1-Flash, foi publicada em 17 de outubro de 2026, com os pesos disponíveis no Hugging Face, dois dias antes de a ordem vir a público.

Há, portanto, três jeitos de usar a DeepSeek, e a diferença importa. O primeiro é o aplicativo e o site, que mandam as perguntas aos servidores da empresa na China. O segundo é a interface de programação, a API, pela qual outros programas consultam os mesmos servidores. O terceiro é baixar o modelo aberto e rodá-lo num computador próprio ou num servidor de outra empresa, fora da China.

A ordem liga a coleta de dados e o rastreamento às instâncias hospedadas pela própria DeepSeek, mas não diz de forma explícita se um modelo aberto rodando num computador do governo, sem contato com a China, também precisa sair. Pela letra do texto, a remoção alcança qualquer implementação de terceiros, e a ordem afirma que os próprios modelos podem ter código malicioso. É nesse ponto que mora a dúvida.

Katie Moussouris, fundadora da empresa de segurança Luta Security, disse ao site The Register que proibir o aplicativo e o acesso direto à DeepSeek é viável, mas que não há maneira prática de verificar a cláusula sobre produtos de terceiros. O The Register lembrou ainda que serviços intermediários de IA podem encaminhar pedidos a modelos da DeepSeek sem que o usuário perceba. Para Moussouris, hospedar o modelo nos Estados Unidos evita a maior parte dos riscos.

O site CyberScoop observou que coleta de dados e envio de perguntas a servidores remotos não são exclusividade da DeepSeek; o que torna o caso específico, segundo a publicação, é a possibilidade de acesso do governo chinês.

A reação da China

Em 20 de outubro, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, disse em entrevista coletiva que o país se opõe a “esticar demais o conceito de segurança nacional” e a politizar questões de tecnologia e comércio, e que vai defender “com firmeza” os direitos das empresas chinesas. As palavras repetem as que a China usou em março de 2025, quando o Departamento de Comércio americano proibiu a DeepSeek nos seus aparelhos.

No mesmo dia, o Ministério do Comércio chinês manifestou “forte insatisfação e firme oposição”, afirmou que os Estados Unidos ignoraram o consenso entre os chefes de Estado dos dois países e pediu a revogação das medidas, prometendo “todas as medidas necessárias”, segundo o Global Times e a agência Reuters. A DeepSeek não respondeu aos pedidos de comentário da imprensa, e o DHS não comentou de imediato.

A ordem chegou na mesma semana de outras medidas americanas contra empresas chinesas, como sanções do Departamento de Estado a cinco entidades e uma votação na FCC, a agência de telecomunicações, sobre laboratórios chineses de teste, segundo a Reuters.

O histórico das restrições

A ordem do DHS é a medida mais ampla, mas não a primeira.

Data Medida
Jan. 2025 Marinha dos EUA proíbe o uso; a agência de redes do Pentágono começa a bloquear; NASA bloqueia em seus sistemas
Jan. 2025 Texas proíbe em aparelhos do governo estadual, o primeiro estado a fazer isso
Jan. 2025 Itália: a autoridade de proteção de dados limita o tratamento de dados de usuários italianos
Fev. 2025 Taiwan e Austrália proíbem em órgãos e aparelhos do governo; Nova York e Virgínia também
Fev. 2025 Coreia do Sul suspende novos downloads; o aplicativo volta às lojas em abril
Abr. 2025 Relatório da Câmara dos EUA acusa a DeepSeek de enviar dados de americanos à China
Dez. 2025 Lei orçamentária de defesa proíbe a DeepSeek no Departamento de Defesa e na inteligência
Set. 2026 Alerta conjunto da NSA, da CISA e do FBI acusa a DeepSeek e outras empresas chinesas de copiar o comportamento de modelos americanos
Jul.–out. 2026 Ordem do DHS para todas as agências civis federais

As datas e medidas vêm do TechCrunch, da Al Jazeera, de documentos oficiais dos estados e do Congresso americano e do Serviço de Pesquisa do Congresso.

E no Brasil

Não há, até agora, restrição à DeepSeek em órgãos do governo federal brasileiro, nem ato da ANPD, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, sobre a empresa. Em fevereiro de 2025, especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo cobraram fiscalização da coleta de dados por ferramentas de IA estrangeiras. Para quem usa o aplicativo da DeepSeek no celular, as preocupações descritas pelo governo americano sobre a hospedagem de dados na China valem igualmente.

O que fica

A ordem do DHS fecha a porta do governo civil americano para a DeepSeek, completando o que Defesa e inteligência já tinham feito por lei. Mas ela deixa em aberto a pergunta mais importante para a era dos modelos abertos: um programa que qualquer pessoa pode baixar e rodar sem contato com a China é um risco da mesma ordem que um aplicativo conectado a servidores chineses? Enquanto a resposta não vem, a cláusula sobre produtos de terceiros obriga as agências a investigar o que têm por dentro das ferramentas de IA que já usam.

Fontes: 1 · 2 · 3 · 4 · 5 · 6 · 7 · 8 · 9 · 10 · 11 · 12 · 13 · 14 · 15 · 16 · 17 · 18 · 19 · 20 · 21 · 22 · 23 · 24 · 25 · 26

Assine a newsletter gratuitamente para receber um resumo semanal e matérias do seu interesse.

Sem trava e sem cadeado: tudo no Tectônica é aberto. A newsletter não destranca nada — ela poupa a sua volta ao site.

Assinar a newsletter

Compartilhar X Facebook

Deixe um comentário

Contato e parcerias: contato@tectonica.blog