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ASML: vendas para a China dobram no trimestre, mas seguem abaixo de um ano atrás

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Matéria narrada pelo Professor

A ASML, empresa holandesa que é a única fabricante no mundo das máquinas mais avançadas para fabricar chips, divulgou em 14 de outubro de 2026 um trimestre recorde: receita de 11,7 bilhões de euros e lucro de 5 bilhões. O número que mais chamou atenção foi a China. As vendas de máquinas para o país subiram 109% em relação ao trimestre anterior, enquanto os Estados Unidos pressionam por mais restrições. A comparação com um ano antes, porém, mostra queda. Esta matéria explica o que a ASML vende, o que pode e o que não pode ir para a China, o que os números mostram e o que está em jogo na disputa entre Washington, a Holanda e Pequim.

A ficha do trimestre

Item 3º trimestre de 2026
Receita total 11,7 bilhões de euros, recorde
Lucro líquido 5,0 bilhões de euros
Margem bruta 57,5%
Venda de máquinas 8,4 bilhões de euros
Serviços e atualizações 3,3 bilhões de euros
China nas vendas de máquinas 23%, contra 14% no trimestre anterior
Previsão para 2026 receita de 44 a 45 bilhões de euros

O que a ASML vende

A ASML fabrica as máquinas de litografia, que imprimem os desenhos dos circuitos nos discos de silício de onde saem os chips. Funciona como uma fotografia em escala microscópica: a luz atravessa um molde e grava o desenho no silício. Quanto menor o comprimento de onda da luz, menores e mais densos os circuitos.

Há duas famílias principais. As máquinas DUV, de ultravioleta profundo, usam luz de 248 ou 193 nanômetros e são as mais vendidas; a versão de imersão, que trabalha com uma camada de água entre a lente e o silício, é a mais avançada dessa família. As máquinas EUV, de ultravioleta extremo, usam luz de 13,5 nanômetros, gerada por gotas de estanho atingidas por um laser 50 mil vezes por segundo, e são as únicas capazes de fazer os chips mais avançados do mundo, de 2 nanômetros. A ASML é a única empresa que fabrica máquinas EUV.

A empresa não publica preços, mas estimativas da imprensa, segundo o Tom’s Hardware, colocam uma máquina EUV perto de US$ 180 milhões e a versão mais nova, chamada High NA, perto de US$ 400 milhões.

O que pode e o que não pode ir para a China

Máquina Situação para a China
EUV sem licença de exportação desde 2019, depois de pressão dos Estados Unidos
DUV de imersão mais avançada, a partir da NXT:2000i exige licença do governo holandês desde 1º de setembro de 2023
NXT:1970i e NXT:1980i licença passou a ser pedida ao governo holandês em setembro de 2024
DUV mais antigas continuam podendo ser vendidas

Na prática, a China não recebe as máquinas EUV e enfrenta restrições crescentes nas DUV de imersão mais modernas, mas segue comprando os modelos permitidos.

O que os números mostram

O destaque do trimestre é a China. A fatia do país nas vendas de máquinas subiu de 14% para 23%, segundo os slides oficiais da ASML entregues à SEC, a comissão de valores dos Estados Unidos. Em euros, isso representa cerca de 1,9 bilhão contra 0,9 bilhão no trimestre anterior, os 109% de alta noticiados pelo South China Morning Post.

O retrato muda com uma comparação mais longa. Pelos dados do site Tech Wire Asia, a China representava 42% das vendas de máquinas no 3º trimestre de 2025, caiu para 36%, depois 19%, depois 14%, e agora subiu para 23%. Pelas contas do Tectônica, a partir dos números oficiais, as vendas para a China no trimestre ficaram cerca de 16% a 18% abaixo das de um ano antes. A participação chinesa segue bem abaixo do pico.

A alta do trimestre coincide com um salto nas máquinas DUV de imersão: foram 40 unidades vendidas, contra 23 no trimestre anterior. A ASML não informa quantas delas foram para a China.

O diretor financeiro, Roger Dassen, disse aos analistas que a China deve representar cerca de 20% do negócio da empresa em 2026. O presidente, Christophe Fouquet, falou em demanda muito forte no país para consumo interno, segundo o Tech Wire Asia.

O que foi vendido

Os slides oficiais detalham as máquinas entregues no trimestre. Foram 17 máquinas EUV, 40 DUV de imersão, 10 DUV do tipo seco, 35 do tipo KrF e 19 do tipo i-line, as mais simples. Em valor, as EUV responderam por 49% das vendas de máquinas e as DUV de imersão por 39%. Por uso final, 54% foram para fábricas de chips de lógica, como processadores, e 46% para fábricas de memória.

Para o 4º trimestre, a ASML prevê receita entre 14,2 e 15,2 bilhões de euros, com margem perto de 57%. A empresa também anunciou um dividendo de 1,88 euro por ação, recomprou cerca de 4,1 bilhões de euros em ações no trimestre e marcou para 10 de junho de 2027 o seu próximo encontro com investidores.

Por que as máquinas antigas ainda importam

As restrições às máquinas DUV têm uma razão técnica. Mesmo sem EUV, é possível fabricar chips avançados com DUV de imersão. O centro de estudos americano CSIS avalia que os chips chineses de 7 nanômetros dependeram de máquinas DUV da ASML compradas antes das restrições. Segundo o Tech Wire Asia, a consultoria Bernstein estima que o processador Kirin 9050 Pro, da Huawei, seja fabricado pela SMIC num processo de classe 7 nanômetros feito com máquinas DUV.

É por isso que o MATCH Act mira justamente essas máquinas, e é por isso que cada lote vendido para a China entra na discussão política. O projeto vai além da venda: também exige licença para a manutenção das máquinas já instaladas em fábricas listadas, o que atingiria os serviços, uma parte da receita que a ASML continua recebendo das máquinas vendidas no passado.

Demanda maior que a capacidade

O resto do mundo também está comprando. Taiwan ficou com 32% das vendas de máquinas e a Coreia do Sul com 31%, puxadas pelos chips para inteligência artificial. Fouquet disse que a capacidade de produção planejada para 2027 e 2028 não vai atender totalmente a demanda, que a empresa estuda ampliar a expansão para mais de 30% em 2028 e que alguns clientes já querem fazer pedidos para 2029 e até 2030.

Circulou a frase de que a ASML estaria “esgotada até 2028”. Ela não é da empresa: é a leitura do analista C.J. Muse, da Cantor Fitzgerald, sobre a fala mais cautelosa do presidente.

A empresa também deixou de divulgar o valor das suas encomendas, informando apenas que a carteira de pedidos continua crescendo de trimestre a trimestre.

A pressão americana: o MATCH Act

O pano de fundo é uma proposta de lei americana. O MATCH Act, apresentado em abril de 2026 na Câmara dos Estados Unidos, proíbe a venda para a China e outros “países de preocupação” de todas as máquinas DUV de imersão, independentemente do desempenho, e exige licença para a manutenção dessas máquinas em fábricas listadas. O texto dá 150 dias para os países aliados, como a Holanda, se alinharem. A proposta foi aprovada numa comissão em abril, mas não passou pelo plenário de nenhuma das casas do Congresso.

Segundo a Reuters, Dassen disse que a lei seria contraproducente, porque aceleraria o desenvolvimento chinês, e que está otimista de que o bom senso vai prevalecer. Em setembro, o primeiro-ministro holandês, Rob Jetten, disse à Bloomberg estar bastante confiante num acordo com os Estados Unidos. Segundo o South China Morning Post, ele deve visitar a China na primavera de 2027.

A dimensão do mercado em jogo é grande. Segundo um documento de uma comissão da Câmara americana citado pela Reuters, a China comprou cerca de 70% das máquinas DUV de imersão vendidas pela ASML em 2024. Um estudo do Center for Technology & Statecraft, citado pelo South China Morning Post, estima que as fábricas chinesas acumulavam 343 dessas máquinas no início de 2026.

A resposta chinesa

A China tenta fabricar as próprias máquinas. Em julho de 2026, segundo o Tom’s Hardware e a TrendForce, a estatal Shanghai Aishengna começou a produzir em série o primeiro scanner DUV de imersão chinês, com entregas previstas para fabricantes como SMIC, Hua Hong e CXMT; a Reuters aponta problemas de confiabilidade. A SMEE, a fabricante chinesa mais conhecida, ainda tem como máquina mais avançada um modelo de classe 90 nanômetros. Em dezembro de 2025, segundo a Reuters, um protótipo chinês de máquina EUV, montado com ex-engenheiros da ASML em Shenzhen, conseguiu gerar luz EUV, mas ainda não produziu chips.

Fouquet avalia que a chance de um concorrente chinês de peso surgir é ainda bem baixa, desde que a ASML mantenha acesso ao mercado; e que, se perderem acesso às máquinas, os chineses terão muito mais motivação para desenvolver as próprias.

A reação das ações

Em Amsterdã, as ações da ASML fecharam em alta de 1,2% no dia do resultado, segundo o site nieuws.nl. Em Nova York, caíram 1,86% no pregão e mais 2,26% depois do fechamento, segundo a Investing.com. A TradingKey atribuiu a queda americana a três fatores: realização de lucros depois de uma alta de mais de 50% no ano, recuo das ações de memória e o risco ligado à China.

Rumores

Rumor Situação
O MATCH Act entraria na lei anual de orçamento militar do Senado americano relatado por sites especializados, sem confirmação
A Aishengna faria cerca de 5 máquinas em 2026 e 20 em 2027 fonte anônima única; outra reportagem fala em 12 até o fim de 2026
A China quer produzir chips com EUV próprio a partir de 2028 especialistas falam em 2030

O fecho

A ASML vive um momento de demanda maior do que consegue atender, puxada pela inteligência artificial em Taiwan e na Coreia. A China voltou a comprar mais no trimestre, mas segue longe do peso que tinha um ano atrás, sem acesso às máquinas mais avançadas e diante de uma lei americana que, se aprovada, cortaria também as DUV de imersão. O desfecho depende de Washington, de Haia e da velocidade com que a China conseguir fabricar as próprias máquinas.

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