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O zumbido que a lei não mede: viver ao lado de um data center ou de um parque eólico

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Matéria narrada pelo Professor

Duas infraestruturas diferentes produzem a mesma queixa. Perto dos galpões de inteligência artificial e perto das torres eólicas, os moradores descrevem um som contínuo, grave, que não deixa dormir — e as medições oficiais quase sempre dizem que está tudo dentro da lei. As duas afirmações são verdadeiras ao mesmo tempo, e entender por que é a única forma de discutir o assunto sem cair nem no alarmismo nem no descaso. Este aprofundamento separa o que está medido do que é suposição, sobre o ruído, sobre o calor despejado no ar e sobre a água quente devolvida aos rios.

O erro está no instrumento

Comece pelo detalhe técnico, porque ele explica quase tudo o que vem depois.

A unidade que as prefeituras do mundo inteiro usam para medir ruído é o decibel A, escrito dB(A). Ele não mede o som bruto: mede o som depois de aplicar um filtro que imita a sensibilidade do ouvido humano, que é mais aguçado para as frequências médias e agudas. Para fazer isso, o filtro desconta os graves. Na frequência de 63 hertz, a ponderação A subtrai mais de 26 decibéis. Em infrassom, mais de 50.

Agora olhe o que essas duas indústrias produzem. Ventiladores de resfriamento, chillers, transformadores e geradores de data center vivem exatamente nessa faixa grave. A pá de uma turbina eólica produz uma modulação lenta, de meio a dois ciclos por segundo, que é o “uôtch, uôtch” que os vizinhos descrevem.

O resultado é aritmético: é perfeitamente possível um empreendimento estar dentro do limite legal e ainda assim manter a vizinhança acordada, porque o que incomoda é justamente o que o instrumento desconta. Uma revisão publicada em 2026 na revista *Clean Technologies* diz isso com todas as letras, e acrescenta um dado que deveria constranger o debate: nenhum estudo publicado até hoje mediu o espectro de infrassom e baixa frequência de um data center em operação. O dado que resolveria a discussão simplesmente não existe.

O que a ciência já estabeleceu sobre ruído e saúde, e o que não

Aqui é preciso ser rigoroso, porque o assunto atrai exagero dos dois lados.

O que está estabelecido como relação causal: o incômodo. O Council of Canadian Academies, painel convocado a pedido do governo canadense, classificou a evidência em quatro níveis e concluiu que ela é suficiente para estabelecer relação causal entre ruído de turbina eólica e incômodo. Incômodo, aqui, não é opinião: é desfecho medido por questionário validado, o mesmo usado para ruído de aeroporto. O maior estudo de campo já feito, do Health Canada, com 1.238 domicílios, encontrou a proporção de “altamente incomodados” subindo de menos de 2,1% abaixo de 30 dB(A) para 13,7% na faixa de 40 a 46 dB(A).

O que não se confirmou: os desfechos duros. O mesmo estudo canadense mediu cortisol capilar, pressão arterial, frequência cardíaca e sono por actigrafia, e não encontrou associação com nenhum deles. Coortes dinamarquesas com mais de meio milhão de pessoas não encontraram associação com infarto, AVC, diabetes ou desfechos adversos de nascimento. Uma meta-análise de 2021 que usou apenas medidas validadas de sono não encontrou efeito significativo sobre tempo total, eficiência ou latência do sono.

A tensão central, e ela é real: quando se pergunta às pessoas, o sono aparece prejudicado; quando se mede o sono com eletrodos, o efeito some ou fica pequeno. As duas coisas são fatos, e não se anulam. Uma coorte nacional dinamarquesa encontrou, entre pessoas acima de 65 anos expostas a mais de cerca de 42 decibéis à noite, mais retirada de receitas de remédio para dormir e de antidepressivos. O sofrimento aparece no comportamento mesmo quando não aparece no polissonógrafo.

E o infrassom. Não há evidência de que turbinas modernas gerem infrassom acima do limiar de percepção humana — há mais infrassom dentro de um carro em movimento. O experimento que organiza esse ponto é de Crichton e colegas: 54 participantes foram expostos a infrassom real ou a silêncio, depois de metade assistir a um vídeo que aumentava a preocupação com o tema. Quem viu o vídeo relatou sintomas, inclusive no grupo que ouviu o silêncio. A expectativa produziu o sintoma; o som, não.

Isso precisa ser dito com cuidado, porque é aqui que a discussão costuma descarrilar: efeito nocebo não significa que as pessoas estejam fingindo. O sintoma é real e mensurável. O que a evidência contesta é a via causal acústica, não o sofrimento.

O vácuo brasileiro

O Brasil é o quinto maior parque eólico onshore do mundo, com 1.132 usinas e 34,6 gigawatts em setembro de 2025, e 93% dessa potência está no Nordeste. E o país não tem norma que estabeleça distância mínima entre um aerogerador e uma casa.

O que existe é a Resolução CONAMA 462, de 2014, que determina que parques com turbinas a menos de 400 metros de residências incluam o índice de ruído no estudo ambiental. Os 400 metros não são um afastamento obrigatório: são um gatilho para exigir estudo. A resolução está em revisão, com consulta pública encerrada em janeiro de 2026.

Esse vácuo está sendo preenchido caso a caso, por promotores e assembleias. Em 17 de julho de 2026, o Ministério Público do Ceará ajuizou ação civil pública pedindo o desligamento de três aerogeradores da Central Eólica Trairi, na comunidade rural Estrela, depois que a Semace autuou a empresa por poluição sonora e recomendou desligar os equipamentos. Moradores relataram ruído noturno e incômodo pela sombra intermitente das pás; algumas famílias abandonaram as casas ou as colocaram à venda. Em Caetés, Pernambuco, há torre a 150 metros de uma casa com rachaduras registradas em reportagem. Na Paraíba, a Assembleia aprovou em junho de 2026 uma lei fixando 1,5 quilômetro de distância mínima, com o Ministério Público Federal recomendando a sanção integral.

Há uma lacuna que vale registrar honestamente: não localizei nenhum estudo brasileiro publicado com medições de campo em decibéis nos parques do Nordeste, comparadas aos limites da norma técnica. Sem isso, nem os moradores nem as empresas conseguem afirmar com base técnica se o limite legal está sendo ultrapassado. E essa é a coisa mais fácil de resolver de tudo o que está neste texto.

Do lado dos data centers, a mesma cena com outro sotaque

Nos Estados Unidos, onde a instalação de galpões de inteligência artificial acontece há mais tempo, os números medidos em residências ficam entre 40 e 59 dB(A) no norte da Virgínia — quase sempre dentro dos limites locais. Cerca de um terço dos data centers do estado fica a menos de 61 metros de área zoneada como residencial.

E o padrão se repete: medição dentro da lei, morador sem dormir. Em Sterling, no condado de Loudoun, os níveis estavam abaixo do limite de violação e os moradores relatavam zumbido constante e despertares noturnos. A própria página oficial do condado registra que não há política regulatória específica para ruído tonal ou de baixa frequência, e que as emendas só são esperadas para 2027.

Duas respostas institucionais merecem atenção porque são as únicas que atacam o problema real.

A primeira é de Chandler, no Arizona, onde as queixas começaram em 2014. A norma aprovada ali não fixa um teto absoluto em decibéis: exige estudo sonoro antes da construção para estabelecer a linha de base, proíbe que a operação ultrapasse essa linha, obriga estudo anual por cinco anos e restringe o teste de geradores ao horário comercial.

A segunda é de Prince William, na Virgínia, que em outubro de 2025 adotou norma voltada ao ruído contínuo de baixa frequência, passando a fiscalizar em dB(C) — a ponderação que não descarta os graves. É a correção exata do erro descrito no começo deste texto.

Enquanto isso, a via judicial se abriu. Em julho de 2026, três moradores de Sturtevant, no Wisconsin, entraram com ação coletiva contra a Microsoft alegando, textualmente, “infrassom de baixa frequência que não é detectado nem refletido em medições em dB(A)”. A empresa respondeu que reconhece o zumbido tonal e que a instalação atende aos requisitos da norma local. As duas afirmações podem ser simultaneamente verdadeiras — e é isso que o processo discute.

O calor: quase toda a energia vira temperatura

Aqui está o fato que organiza a segunda metade do assunto, e ele vem da Agência Internacional de Energia: efetivamente toda a eletricidade consumida pelos equipamentos de um data center é convertida em calor. Não é metáfora nem aproximação. É o que acontece.

Some a isso o desperdício do prédio. O PUE, que divide a energia total que entra pela energia que chega aos computadores, está em 1,54 na média mundial — e praticamente não se move desde 2019. Significa que, para cada quilowatt-hora usado pelos servidores, gasta-se mais meio em refrigeração e perdas. Que também vira calor.

Quanto isso aquece a vizinhança? Existe agora uma medição direta, publicada em maio de 2026 no periódico da ASME por pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona. Eles percorreram de carro instrumentado o entorno de quatro data centers da região de Phoenix, a favor e contra o vento. Os resultados:

O que mediram Valor
Ar a favor do vento, mais quente que a montante 0,7 a 0,9 °C
Pico registrado 2,2 °C
Distância em que o sinal ainda aparece 100 a 500 m
Ar saindo dos condensadores 8 a 14 °C acima do ambiente

E um número que dá a dimensão: a densidade de calor dessas instalações supera a irradiância solar de pico por um fator de 2 a 6. Por metro quadrado, o prédio joga fora mais calor do que o sol entrega naquele mesmo metro quadrado ao meio-dia.

Um aviso necessário. Circulou em 2026 um estudo de satélite com números muito maiores — 2 graus de aumento médio, até 9 graus, efeito a 10 quilômetros, 340 milhões de pessoas afetadas. Ele é um preprint, não passou por revisão por pares, e tem crítica metodológica pública e substantiva: mede temperatura de *superfície*, não do ar, e trocar vegetação por telhado e estacionamento eleva a leitura de satélite mesmo sem calor operacional nenhum. A diferença entre a temperatura do telhado e a temperatura do ar que a pessoa respira é o coração da divergência. Use o número medido, não o número grande.

As eólicas não criam calor: elas mexem o ar

O caso das turbinas é diferente e costuma ser contado errado.

A observação por satélite de Zhou e colegas, sobre quatro grandes parques no Texas entre 2003 e 2011, encontrou aquecimento de 0,72 °C por década em relação a regiões vizinhas sem parques — e o efeito é noturno. A explicação mais provável é mecânica: à noite o solo esfria e se forma uma camada de ar frio junto ao chão, com ar mais quente acima. A turbulência atrás das pás quebra essa separação e mistura as camadas, puxando para baixo o ar quente que já estava lá.

O trabalho de modelagem de Lee Miller e David Keith, em Harvard, estimou que gerar toda a demanda elétrica americana com eólica aqueceria a superfície do país em 0,24 grau, e atribuiu isso à mesma redistribuição.

O que os especialistas consultados sobre esse estudo insistiram em dizer, e vale repetir porque a manchete da época distorceu: turbina não adiciona calor ao planeta, ela redistribui calor que já estava na atmosfera. O efeito é local, regional e imediatamente reversível — desligou, acabou —, ao contrário do efeito cumulativo dos gases de efeito estufa. Os próprios autores concluem que a energia eólica supera os combustíveis fósseis por qualquer medida razoável de impacto de longo prazo. Quem cita esse estudo como argumento contra a eólica está citando ao contrário do que ele conclui.

A água quente devolvida ao rio

Esta é a parte em que a prudência obriga a dizer o que ainda não se sabe.

O que está documentado é a autorização. No condado de Louisa, na Virgínia, licenças da Amazon permitem descarte de até 460 mil galões por dia no Northeast Creek e de 280 mil galões por dia no Sedges Creek, em ambos os casos com temperatura máxima de 32 °C. A Ohio EPA chegou a publicar a primeira licença geral do país para descargas de data centers, cobrindo lançamento no Lago Erie e no rio Ohio — e, na minuta, a linha de temperatura previa monitorar e reportar, com os campos de limite máximo em branco. Depois de mais de sete mil comentários públicos, a agência desistiu da licença geral em julho de 2026 e voltou ao caso a caso.

A cadeia de dano é conhecida e não é controversa: água mais quente retém menos oxigênio dissolvido, e abaixo de certos limiares as espécies mais exigentes morrem primeiro. A EPA americana fixa critérios numéricos para isso, e o oxigênio é mais baixo de madrugada, porque as plantas aquáticas passaram a noite sem produzir.

Mas aqui vai a ressalva que separa este texto de um panfleto: não encontrei nenhum caso documentado com medição de dano ecológico real — mortandade de peixes, queda de oxigênio registrada, autuação — atribuído a efluente aquecido de data center. O que existe hoje é um risco autorizado em licença, um vácuo regulatório federal e alertas de especialistas. Dizer que data centers estão cozinhando rios seria, neste momento, interpretação apresentada como fato.

O Brasil de novo, e o que está em jogo agora

O empreendimento do TikTok no Pecém, no Ceará, concentra o caso brasileiro. Capacidade inicial de 200 megawatts, com previsão de até 300. Licenciado pela Semace com base em Relatório Ambiental Simplificado, classificado como de impacto baixo a médio: sem estudo de impacto ambiental completo e sem audiência pública.

O empreendimento declara consumo de 30 mil litros de água por dia, dos quais apenas 3 mil para climatização, com resfriamento em circuito fechado. Um laudo do Centro Nacional de Perícia do Ministério Público Federal aponta que o consumo real necessário seria de 88 mil litros por dia, e que faltou comprovação de disponibilidade hídrica. A perícia também registra que o licenciamento não considerou os geradores a diesel. A empresa contesta.

Hoje, 10 de setembro de 2026, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União ajuizaram ação civil pública para impedir o início da operação, exigindo estudo de impacto completo e consulta formal ao povo indígena Anacé, que ocupou o canteiro de obras em junho.

E o quadro estrutural é o mesmo do ruído eólico: não existe no Brasil categoria federal de licenciamento ambiental para data centers — a agência ambiental gaúcha chegou a classificá-los em categorias existentes como “postos de abastecimento com tanques subterrâneos” —, não existe lei federal de ruído com limites numéricos, e a norma técnica que vale mede em dB(A), exatamente a métrica que não captura o som que esses empreendimentos fazem.

Também aqui a honestidade obriga: não há, até onde se pôde apurar, nenhum registro de reclamação, autuação ou processo por ruído de data center já em operação no Brasil. A preocupação é prospectiva. Ela é legítima porque os aparelhos são os mesmos e a física não muda de país — mas ainda não é um caso brasileiro.

O que resolveria

Nada disso exige parar a transição energética nem barrar a infraestrutura de inteligência artificial. As três medidas que atacam o problema real já existem e estão testadas:

Medir no instrumento certo. Fiscalizar em dB(C) e por bandas de oitava, como Prince William passou a fazer, em vez de continuar usando uma unidade que desconta justamente o som reclamado.

Fixar a linha de base antes, não depois. O desenho de Chandler — estudo sonoro pré-construção, proibição de ultrapassar aquela linha, medição anual por cinco anos — resolve a discussão sem precisar arbitrar um número universal que serviria mal em todo lugar.

Aproveitar o calor em vez de despejá-lo. Em Tallaght, na Irlanda, 10 megawatts térmicos da Amazon aquecem prédios públicos e 135 apartamentos de aluguel acessível, de graça. Em Estocolmo, mais de vinte data centers suprem 1,5% da rede de aquecimento da cidade. Alemanha e Países Baixos já obrigam recuperação de calor em instalações novas, e a diretiva europeia de eficiência energética exige o mesmo acima de um megawatt. O custo demonstrado de captação é muito menor que o de gerar o mesmo calor com gás.

O denominador comum das três é o mesmo: transformar um problema difuso, que hoje só o morador percebe, em um número que alguém é obrigado a medir e publicar. Enquanto o instrumento continuar descontando o que incomoda, todo mundo vai continuar tendo razão ao mesmo tempo — e ninguém vai dormir.

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