Zona Franca de Manaus: a fábrica de motos e televisores do Brasil no meio da floresta
Matéria narrada pelo Professor
Quase toda moto fabricada no Brasil sai de Manaus. Também saem de lá boa parte dos televisores, aparelhos de ar-condicionado, computadores e celulares do país. Em 2025, o Polo Industrial de Manaus faturou o recorde de R$ 227,7 bilhões e empregou mais de 131 mil pessoas — numa cidade no meio da Amazônia, onde 95% das peças e produtos chegam e saem por rio, e onde uma seca em 2023 custou à indústria R$ 1,4 bilhão em logística. O modelo existe há quase sessenta anos, custa ao país dezenas de bilhões em impostos que deixam de ser cobrados e está garantido pela Constituição até 2073. Este aprofundamento mostra o que se produz lá, por que as empresas ficam apesar do isolamento, o que os estudos dizem sobre o desenvolvimento que ela trouxe — e onde eles discordam.
Como nasceu
A Zona Franca de Manaus foi criada por lei em 1957, no governo Juscelino Kubitschek, como um porto livre de impostos. Só ganhou forma dez anos depois, com o Decreto-Lei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, que criou também a Suframa, a superintendência que administra a área até hoje.
A lógica era geopolítica: ocupar economicamente a Amazônia Ocidental, isolada do resto do país, oferecendo impostos baixos a quem instalasse indústria lá. O prazo, que era de trinta anos, foi prorrogado várias vezes. A Emenda Constitucional nº 83, de 2014, estendeu o regime até 2073.
O que se produz lá
| Setor | Participação no faturamento do polo em 2025 |
|---|---|
| Bens de informática — computadores, celulares, componentes | 21,2% |
| Duas rodas — motos e bicicletas | 19,7% |
| Eletroeletrônicos — televisores, ar-condicionado, áudio | 16,9% |
| Demais — químico, termoplástico, metalúrgico, bebidas e outros | 42,2% |
Alguns números de 2025 mostram o peso do polo no consumo brasileiro:
– 1,98 milhão de motocicletas, segundo a Abraciclo, a associação dos fabricantes — a maior produção desde 2011, e praticamente toda a produção nacional. O polo de duas rodas de Manaus é o maior do mundo fora da Ásia.
– Faturamento total de R$ 227,7 bilhões, alta de 11% sobre 2024 e cerca de 42% acima de 2021.
Por que as empresas vão para lá
O atrativo são os impostos. Quem fabrica no polo tem isenção ou redução de imposto sobre produtos industrializados, de imposto de importação sobre peças, de contribuições federais e de parte do ICMS. Em troca, cumpre regras de produção local mínima e investe parte do faturamento em pesquisa na região.
A reforma tributária, que muita gente esperava que acabasse com o modelo, fez o contrário. A partir de 2027, o imposto sobre produtos industrializados será zerado em quase todo o país — mas continuará cobrado, com alíquota mínima de 6,5%, de produtos fabricados fora de Manaus que concorram com os de lá. As empresas do polo também recebem créditos extras dos novos impostos sobre consumo. Um artigo publicado em junho de 2026 no Conjur resume a situação no título: a reforma “deveria acabar com a Zona Franca, mas a tornou mais atrativa”.
Houve um susto recente. Em maio de 2026, uma nota da Receita Federal aplicou um corte de benefícios fiscais às vendas feitas para dentro da Zona Franca, e a mudança foi descrita como um esvaziamento do regime. Em julho, a própria Receita reviu a interpretação e restabeleceu a isenção.
O isolamento: o custo que o imposto precisa pagar
Manaus não tem ligação rodoviária asfaltada completa com o resto do país. A BR-319, que a liga a Porto Velho, tem trechos sem asfalto há décadas. Por isso, cerca de 95% dos insumos e produtos do polo viajam por rio — balsas até Belém ou Porto Velho, e de lá por estrada.
O rio é eficiente até deixar de ser. Em outubro de 2023, a pior seca do Rio Negro em 121 anos de registros deixou trechos sem calado para navios. A indústria do Amazonas estima um custo extra de R$ 1,4 bilhão: R$ 846 milhões para recompor estoques e cerca de R$ 500 milhões em fretes mais caros. Entre outubro e novembro, o polo ficou cerca de 8% abaixo do previsto e deixou de importar o equivalente a US$ 1 bilhão em insumos. Em 2024, veio nova seca severa.
Então o isolamento anula o benefício? Os números dizem que não, pelo menos até agora. O faturamento cresceu em quatro dos últimos cinco anos e bateu recorde em 2025, dois anos depois da seca histórica. Uma interpretação, e está marcada como tal: o incentivo fiscal é grande o bastante para cobrir o custo logístico em anos normais; o que a seca mostrou é que esse custo virou menos previsível com a mudança do clima, e um ano ruim pode custar mais de um bilhão de reais de uma vez.
Quanto custa ao país
Aqui as contas divergem, e muito.
| Fonte | Estimativa |
|---|---|
| Receita Federal, gasto tributário da Zona Franca | R$ 55,2 bilhões para 2023; R$ 32,7 bilhões para 2024; cerca de R$ 35 bilhões para 2026 |
| Estudo da FGV, junho de 2025 | cerca de R$ 7,5 bilhões por ano de gasto direto ligado ao polo industrial — 1,8% do total de benefícios fiscais federais |
A diferença vem do método. A Receita calcula todo imposto que deixaria de ser cobrado, como se as empresas continuassem produzindo lá sem o benefício. A outra abordagem considera que, sem o incentivo, boa parte dessa produção simplesmente não existiria em Manaus — e, portanto, esse imposto também não seria arrecadado. Nenhum dos dois números é “o verdadeiro”; cada um responde a uma pergunta diferente.
Trouxe desenvolvimento?
Para Manaus, os indicadores melhoraram. Estudos acadêmicos que acompanharam a região apontam aumento de renda por pessoa, do índice de desenvolvimento humano e da formalização do trabalho desde a consolidação do polo. São mais de 131 mil empregos industriais diretos, com carteira assinada, numa região onde a alternativa costuma ser a informalidade.
Mas o desenvolvimento ficou concentrado. Um estudo do Senado Federal, de 2013, concluiu que a renúncia fiscal era muito alta, que a qualidade dos empregos era inferior à esperada, que o impacto no desenvolvimento regional era modesto e que o modelo só se sustenta enquanto houver incentivo — porque a indústria incorporou pouca tecnologia própria. Os mesmos estudos apontam que o interior do Amazonas não acompanhou a capital.
E a floresta? Defensores do modelo, como o senador Eduardo Braga, dizem que a Zona Franca concentrou a população na cidade e manteve 97% da floresta do estado de pé. O pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e uma das maiores autoridades sobre desmatamento, contesta: quem migra para as fábricas vem de pequenas cidades ribeirinhas, não é quem desmata — o desmatamento no Amazonas se concentra no sul do estado, em grandes propriedades. Um relatório do Banco Mundial de 2023 sobre a Amazônia Legal concluiu que os benefícios da Zona Franca não garantem critérios ambientais nem contêm o desmatamento diretamente.
O que ela significa para o Brasil
Para o consumidor, a Zona Franca está no dia a dia: a moto de entrega, o televisor da sala, o ar-condicionado, o celular. Um bem produzido lá com isenção chega mais barato do que chegaria sem ela — e, sem ela, parte dessa produção provavelmente seria importada.
Para as contas públicas, é um dos maiores benefícios fiscais do país, garantido pela Constituição por mais 47 anos e preservado pela reforma tributária. E para a Amazônia, é a principal fonte de emprego formal de uma capital de mais de dois milhões de habitantes.
Uma interpretação, e está marcada como tal: a Zona Franca não é nem o desperdício que seus críticos descrevem nem a solução ambiental que seus defensores prometem. É uma política industrial que funcionou para o que se propôs em 1967 — levar indústria e emprego a Manaus — e que nunca resolveu as duas questões que vieram depois: espalhar esse desenvolvimento pelo resto da Amazônia e se tornar competitiva sem depender do incentivo.
O que não se sabe
– Quanto a Zona Franca realmente custa. As estimativas vão de R$ 7,5 bilhões a mais de R$ 30 bilhões por ano, conforme o método.
– Quanto da produção sairia de Manaus sem o incentivo — para outros estados ou para o exterior.
– Se ela reduz o desmatamento. Os defensores dizem que sim; os estudos independentes citados não encontram essa evidência.
– Como as secas vão se comportar nos próximos anos, e quanto isso pode pesar no custo de produzir lá.
– Se a BR-319 será asfaltada por completo, o que reduziria o isolamento por terra.
O fecho
Em 1967, o governo apostou que imposto baixo levaria indústria para o meio da floresta. A aposta se pagou em motos, televisores e empregos: o polo de Manaus fatura mais de R$ 200 bilhões por ano e bate recordes seguidos. O que ela não fez foi transformar a Amazônia ao redor.
O Brasil renovou esse acordo até 2073 e o reforçou na reforma tributária. A pergunta que resta não é mais se a Zona Franca vai existir, mas o que o país quer que ela entregue nos próximos cinquenta anos — além de motos.
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