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Nvidia Vera: a CPU de núcleos num pedaço só para a IA agêntica, e a luz que a empresa quer levar para dentro do chip

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Matéria narrada pelo Professor

A Nvidia, conhecida pelas placas de vídeo que movem a inteligência artificial, quer agora dominar também o processador central dos data centers. A CPU Vera, lançada em março de 2026 e entregue a clientes como Anthropic, OpenAI e Amazon, voltou ao noticiário em outubro, quando a equipe que a projetou explicou ao site Wccftech por que preferiu colocar os 88 núcleos num único pedaço de silício, na contramão da indústria. Na mesma semana, um pesquisador da empresa mostrou protótipos de chips com a conversão para luz feita a milímetros do processador. São duas novidades diferentes, mas que respondem à mesma pressão: a IA que age sozinha precisa de computadores que respondam mais rápido e gastem menos energia. Este artigo explica as duas, os números da Nvidia e o que os testes independentes dizem deles.

Duas notícias, uma pressão

Novidade O que é Situação
CPU Vera processador central da Nvidia para data centers de IA, com 88 núcleos num único pedaço de silício lançada em março de 2026; em entrega a clientes
Óptica no interposer pesquisa para converter dados em luz colada ao chip, sobre a mesma base de silício protótipos apresentados em outubro de 2026; sem data comercial

As duas aparecem juntas em parte do noticiário, mas não há ligação entre elas: a Vera não usa a óptica no interposer, que é pesquisa voltada a redes e placas de vídeo.

Por que a CPU voltou a importar

Nos data centers de IA, a estrela sempre foi a GPU, o chip gráfico que faz as contas pesadas dos modelos. A CPU, o processador central, era coadjuvante: organizava o trabalho e alimentava a GPU com dados.

A chegada dos agentes de IA, os sistemas que executam tarefas sozinhos, mudou essa conta. Um agente faz muitas operações curtas em sequência: roda um trecho de código, chama uma ferramenta, consulta um banco de dados, espera a resposta e decide o próximo passo. Grande parte desse trabalho cai na CPU. Se ela demora, a GPU, que custa dezenas de milhares de dólares, fica parada esperando. “A CPU não está mais apenas apoiando o modelo; ela o está conduzindo”, disse o presidente da Nvidia, Jensen Huang, no lançamento.

A CPU Vera

Item Dado oficial
Núcleos 88, chamados Olympus, de arquitetura Arm
Linhas de execução 176
Memória até 1,5 TB de LPDDR5X, em módulos SOCAMM substituíveis
Banda de memória até 1,2 TB/s
Ligação com a GPU NVLink-C2C de até 1,8 TB/s
Cache L3 164 MB, compartilhados por todos os núcleos
Conexões PCIe 6 e CXL 3.1

Os dados vêm da página do produto e do blog técnico da Nvidia. Segundo o The Register, o chip é fabricado no processo de 3 nanômetros da TSMC e tem consumo configurável entre 250 e 450 watts, dados que a Nvidia não confirmou oficialmente.

A Vera é a sucessora da Grace, a primeira CPU da Nvidia para data centers, e forma par com a GPU Rubin. O sistema Vera Rubin NVL72 reúne 36 CPUs Vera e 72 GPUs Rubin num só rack. Há também um rack só de CPUs, com até 256 Veras refrigeradas a líquido, que, segundo a empresa, roda mais de 22,5 mil ambientes de agentes ao mesmo tempo.

Um pedaço só: o que significa “monolítico”

A escolha que trouxe a Vera de volta ao noticiário está no desenho do chip. As CPUs de servidor mais recentes da AMD e da Intel são feitas de chiplets: vários pedaços menores de silício, cada um com parte dos núcleos, ligados entre si dentro do mesmo encapsulamento. A técnica barateia a fabricação e permite chips com centenas de núcleos.

O custo é o tempo. Quando um núcleo precisa de um dado que está guardado junto a outro pedaço, a informação tem de atravessar a ligação entre os chiplets, e isso demora mais e varia de uma vez para outra. Na Vera, os 88 núcleos estão num único pedaço, o que a indústria chama de die monolítico. É como uma equipe trabalhando na mesma sala, em vez de espalhada por prédios diferentes.

Dentro do pedaço único, os núcleos se comunicam por uma malha interna que a Nvidia chama de Scalable Coherency Fabric, com 3,4 TB/s de banda, segundo o blog técnico da empresa. É essa malha que liga todos os núcleos ao mesmo cache de 164 MB, sem que um grupo de núcleos tenha de pedir dados emprestados a outro pedaço de silício.

A equipe da Vera disse ao Wccftech que o desenho deixa um núcleo falar com outro no canto oposto do chip sem atravessar fronteiras, e que isso importa justamente nas tarefas curtas e encadeadas dos agentes. Os engenheiros ressalvaram que a empresa não tem “religião” contra chiplets e pode adotá-los no futuro.

Há um detalhe que a palavra monolítico esconde. O encapsulamento da Vera tem, ao todo, seis pedaços de silício, segundo o site ServeTheHome, que cobriu a apresentação do chip na conferência Hot Chips, em agosto. Só a parte dos núcleos é inteiriça; os controladores de memória e as conexões ficam em chiplets separados.

Os números da Nvidia e o que os testes dizem

A Nvidia afirma que a Vera é até 1,8 vez mais rápida que os processadores x86 líderes em cargas de agentes, e o número sobe para 2 vezes na entrevista ao Wccftech. Em relação à Grace, a geração anterior, a empresa fala em desempenho 1,5 vez maior. Esses números foram medidos pela própria Nvidia, em testes escolhidos por ela, e é por isso que os sites especializados foram conferir.

O site especializado Chips and Cheese analisou o documento técnico da Nvidia em agosto e encontrou problemas. Segundo a publicação, o gráfico da Nvidia atribui ao processador AMD Turin uma banda de memória de cerca de 400 GB/s, quando a medição independente dá cerca de 570 GB/s, o que reduz a vantagem da Vera de quase 3 vezes para cerca de 1,9 vez. Os testes chamados de “agênticos” seriam, na verdade, quatro componentes de um teste padrão de processadores, sem nenhum agente rodando. No resultado geral desse teste, a Vera marcou 925 pontos contra 898 do EPYC da AMD, uma diferença de 3%. A conclusão do Chips and Cheese: o núcleo é forte, mas a propaganda é maior que a prova.

O site Phoronix, em teste com um sistema de pré-produção, encontrou a Vera cerca de 10% à frente de um EPYC 9575F da AMD e 55% à frente de um Xeon 6980P da Intel, segundo o Chips and Cheese. O The Register lembrou que a comparação da Nvidia é com um processador da AMD lançado quase dois anos antes, e que a AMD já anunciou a geração seguinte, o EPYC Venice, com até 256 núcleos.

Quem está comprando

Os primeiros sistemas com a Vera foram entregues em maio de 2026 à Anthropic, à OpenAI e à SpaceXAI, e depois à Oracle; a Amazon recebeu o seu em agosto, segundo o blog da Nvidia. A Oracle diz planejar a instalação de centenas de milhares de CPUs Vera. Em 19 de outubro, segundo a agência Reuters, a startup Modal, que usava só processadores da Intel e da AMD, anunciou que vai adotar a Vera.

O pano de fundo é o tamanho da Nvidia: no trimestre encerrado em julho de 2026, a receita da empresa foi de US$ 96,2 bilhões, mais que o dobro de um ano antes, e a divisão de data centers respondeu por US$ 89 bilhões, segundo o balanço enviado à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos.

A luz dentro do chip

A segunda novidade vem da pesquisa. Hoje, os dados saem de um chip de rede como sinal elétrico, percorrem alguns centímetros de trilha até um módulo que converte o sinal em luz, e só então seguem pela fibra óptica. Fio elétrico longo gasta energia e atrasa o sinal, e num data center com centenas de milhares de chips essa perda vira um problema de escala.

A Nvidia já vende uma solução intermediária, a óptica co-empacotada: o conversor de luz fica dentro do mesmo encapsulamento do chip de rede, nos switches Quantum-X Photonics e Spectrum-X Photonics, segundo o site coreano The Elec. A fabricante de chips TSMC, que produz os processadores da Nvidia, desenvolve a sua própria plataforma de óptica integrada, chamada COUPE, segundo o blog técnico da Nvidia sobre a colaboração entre as duas empresas.

A pesquisa apresentada em 13 de outubro, na feira SEMICON West, em São Francisco, vai um passo além. O pesquisador Nikola Nedovic mostrou protótipos com os motores ópticos sobre o interposer, a base de silício onde o chip principal se apoia, como já acontece com a memória das placas de vídeo de IA.

Com isso, segundo o Wccftech e o site taiwanês TechNews, o caminho elétrico entre o processador e o conversor cai de cerca de 100 milímetros para cerca de 8 milímetros. A apresentação também mostrou a multiplexação densa por comprimento de onda: oito cores de luz diferentes na mesma fibra, cada uma levando 32 gigabits por segundo, para um total de 256 gigabits por segundo por fibra.

A lógica é a mesma da Vera, aplicada à rede: quanto menor a distância que o sinal percorre, menos energia se perde e menos tempo se gasta. Na CPU, a Nvidia encurtou o caminho entre os núcleos colocando-os num pedaço só; na óptica, quer encurtar o caminho entre o chip e a fibra levando o conversor para a mesma base de silício.

Tudo isso ainda é pesquisa, sem data comercial. Os sites que cobriram a apresentação situam a tecnologia na plataforma Feynman, prevista para depois de 2028, mas essa é uma dedução das reportagens a partir do roteiro da empresa, e não uma data dada pela Nvidia.

O que fica

A Vera mostra uma Nvidia que não quer mais depender de processadores alheios para alimentar as suas placas de vídeo, e que escolheu um desenho na contramão da indústria para isso. Os testes independentes confirmam um núcleo forte, mas pedem cautela com os números de marketing. E a óptica dentro do chip mostra para onde a empresa olha depois: um data center em que a luz chega cada vez mais perto do silício, para economizar energia num mundo que precisa de cada vez mais dela.

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