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Itaipu e data center de IA no Paraguai: o que foi anunciado, o que ainda não se sabe e o que muda para o Brasil

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Matéria narrada pelo Professor

Em 21 e 22 de outubro de 2026, os governos dos Estados Unidos e do Paraguai e duas empresas privadas anunciaram um centro de computação de inteligência artificial ao lado da subestação de Itaipu, no lado paraguaio. A americana Crusoe e a paraguaia Araico falam em uma parceria estratégica com caminho para 106 megawatts de capacidade e opção de chegar a cerca de 280 megawatts. O valor do investimento e o preço da energia não foram divulgados. Este artigo separa o que está confirmado, o que foi declarado, o que ainda é alegação e o que o anúncio pode significar para a energia que o Brasil compra de Itaipu.

Em resumo

Pergunta Resposta em 23/10/2026
O que foi anunciado Parceria estratégica entre Crusoe e Araico para um centro de computação de IA junto à subestação de Itaipu
Potência Caminho para 106 MW de capacidade de TI, com opção de longo prazo de cerca de 280 MW
Prazo Primeira etapa em meados de 2027
Valor Não divulgado
Preço da energia Não oficial; números de US$ 45 e US$ 48 por MWh circulam atribuídos à Araico e a fontes da ANDE
Impacto na conta de luz no Brasil Nenhuma fonte quantificou
Posição do governo brasileiro Nenhuma nota encontrada até 23/10

O que foi anunciado

O anúncio teve duas etapas. Na quarta-feira, 21 de outubro, o vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, visitou Assunção e a usina de Itaipu. O Departamento de Estado publicou um comunicado sobre a cooperação entre os dois países, que, segundo a imprensa que o leu, não cita o Brasil. No dia seguinte, 22 de outubro, a Crusoe, empresa americana que constrói e opera infraestrutura de computação para inteligência artificial, e a Araico, empresa paraguaia de infraestrutura, divulgaram um comunicado conjunto.

O documento das empresas descreve o acordo como uma parceria estratégica. Não menciona contrato formal de fornecimento de energia nem valor. Pelos termos do comunicado, a Araico cuida do terreno e da infraestrutura local, e a Crusoe opera os computadores e vende a capacidade a clientes de nuvem dos Estados Unidos e da América Latina. Seria a primeira nuvem de IA da Crusoe na região.

A capacidade aparece com uma formulação cuidadosa. O texto fala em “caminho para” 106 megawatts de capacidade de tecnologia da informação, com uma opção de longo prazo de cerca de 280 megawatts. Os 106 megawatts, portanto, são uma meta de crescimento, não a potência do primeiro dia. A primeira etapa está prevista para meados de 2027. O jornal paraguaio ABC Color, que noticiou o projeto como uma “fábrica de IA”, também registra que o valor do investimento não foi divulgado.

Por que Itaipu

Um centro de computação de inteligência artificial consome eletricidade o tempo todo, em grande quantidade e sem pausas. Por isso, empresas do setor procuram energia farta, estável e barata. Itaipu oferece as três coisas em escala rara.

A usina tem 14 mil megawatts de potência instalada e pertence em partes iguais ao Brasil e ao Paraguai, pelo tratado assinado em 1973. Cada país tem direito à metade da energia. A parte que um deles não consome pode ser adquirida pelo outro. Na prática, o Paraguai usa só uma fração da sua metade, e a sobra historicamente vem para o Brasil. Segundo o instituto Acende Brasil, citado pelo Brazil Journal, o Paraguai usou 36% da energia de Itaipu em 2025.

É essa energia paraguaia excedente que torna o país atraente para projetos de alto consumo. Um centro de dados instalado do lado paraguaio passa a consumir parte da metade que pertence ao Paraguai, energia que, de outro modo, poderia ser vendida ao Brasil.

O tamanho do projeto diante de Itaipu

Para dar escala ao número, o Tectônica fez uma conta simples com dados públicos: se o projeto chegar aos 280 megawatts da opção de longo prazo, ele equivaleria a cerca de 4% da metade paraguaia da potência de Itaipu, que é de 7 mil megawatts. A conta é do Tectônica, não das empresas nem dos governos. Ela mede potência instalada, não a energia efetivamente gerada ao longo do ano, e serve só como ordem de grandeza.

O site Forte, que acompanhou o caso, registra que o pico de demanda do próprio Paraguai fica em torno de 5.700 megawatts. O sindicato dos trabalhadores da ANDE, a estatal paraguaia de eletricidade, afirma que o fornecimento ao projeto começaria com 6 megawatts no primeiro ano. Esse número é do sindicato e não aparece no comunicado das empresas.

O que se sabe sobre o preço da energia

Nenhum preço oficial foi publicado. A ANDE não divulgou valores. O que circula são duas cifras de origem diferente.

O jornal ABC Color, citando fontes da ANDE e reproduzido pelo InfoMoney, informou que a energia sairia por US$ 48 por megawatt-hora, com reajuste de 2,5% ao ano ligado à inflação dos Estados Unidos e revisão a cada cerca de dois anos. Antes disso, em setembro, o diretor-executivo da Araico, Alejandro Zuccolillo, disse ao mesmo jornal que a empresa havia proposto US$ 45 por megawatt-hora. Os dois números são alegações atribuídas a quem as fez, não termos de contrato conhecidos.

Há ainda um número maior em circulação: US$ 12 bilhões. Esse valor vem de um plano anterior da própria Araico para um campus em Yguazú, com até 1,3 gigawatt, citado pelo site especializado Data Center Dynamics. Não há confirmação de que seja o valor deste projeto. Também não está claro se o local “junto à subestação de Itaipu” citado pela Crusoe é o mesmo campus de Yguazú.

As regras de Itaipu e o Anexo C

Qualquer discussão sobre o destino da energia paraguaia passa pelo Anexo C do tratado, a parte que define as bases financeiras e a tarifa da usina. A revisão desse anexo estava prevista para 2023, quando Itaipu completou 50 anos, e continua pendente. Enquanto não houver acordo novo, vale o anterior.

As negociações já passaram por solavancos. Segundo o site Forte, o Paraguai suspendeu as conversas em 2025, depois do caso de espionagem envolvendo a Abin, e elas foram retomadas no fim daquele ano. A ANDE afirma que uma regra de tarifa específica para centros de dados depende do Anexo C.

A tarifa atual de Itaipu é de US$ 19,28 por quilowatt ao mês para o período de 2024 a 2026; o consumidor brasileiro paga US$ 16,71, valor fixado pela Aneel. Para 2027, a expectativa é de algo entre US$ 10 e US$ 12, cobrindo apenas os custos de operação. Em abril de 2026, o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Enio Verri, disse esperar anunciar a nova tarifa até dezembro.

O que muda para o Brasil

Este é o ponto em que é preciso separar com mais cuidado o que é fato do que é projeção.

O fato é simples: energia que o Paraguai passa a consumir dentro do próprio país deixa de estar disponível como excedente para o Brasil. A Tribuna PR, que analisou o possível efeito sobre o Paraná, registra esse raciocínio. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Thiago Prado, disse, segundo o site MegaWhat citado pela imprensa, que a redução do excedente de Itaipu já está prevista nos estudos de planejamento do governo.

O que não existe é um número. Nenhuma fonte encontrada quantificou impacto na conta de luz do consumidor brasileiro. A possibilidade de o país precisar de outras fontes de energia mais caras, ou de efeitos sobre a indústria paranaense, aparece como cenário, não como cálculo. A própria Tribuna PR observa que os royalties pagos pela usina não mudam com o anúncio.

Também há dados de contexto que ajudam a dimensionar a questão, ainda que vindos de resumo de buscador: segundo dados do Ministério de Minas e Energia citados pelo MegaWhat, a energia paraguaia que veio para o Brasil caiu de 22,2 milhões de megawatts-hora em 2023 para 10,46 milhões em 2025. O excedente já vinha diminuindo antes deste anúncio, porque o próprio consumo paraguaio cresce.

O que disseram os envolvidos

As declarações abaixo são falas dos envolvidos, não conclusões deste artigo.

Quem O que disse, em resumo Quando
Christopher Landau, vice-secretário de Estado dos EUA O projeto tem potencial para ser o maior investimento privado estrangeiro da história do Paraguai 22/10
Santiago Peña, presidente do Paraguai É a oportunidade de o país liderar a infraestrutura de IA na região 21 e 22/10
Alejandro Zuccolillo, diretor-executivo da Araico Quer transformar a abundância de energia do país em indústria, emprego e inovação 22/10
Cully Cavness, cofundador e presidente da Crusoe Espera que o projeto seja um caso de sucesso para o povo paraguaio 22/10
Itaipu Binacional, ao UOL A visita foi organizada pela administração paraguaia, sem a diretoria e o governo brasileiros; projetos de consumo interno não são decididos pela usina 21/10
Governo brasileiro Nenhuma nota do Ministério de Minas e Energia nem do Itamaraty foi encontrada até 23/10

A declaração atribuída à Itaipu Binacional foi publicada originalmente pelo UOL e chegou a este artigo pela reprodução de outros sites.

Na mesma visita

A passagem de Landau pelo Paraguai rendeu outros anúncios, segundo o InfoMoney: um acordo de interceptação aérea contra o narcotráfico, o início da negociação de um acordo nuclear civil, conhecido nos Estados Unidos como “acordo 123”, US$ 12 milhões da Uranium Energy Corp em urânio e US$ 5,5 milhões americanos para segurança de fronteira. O InfoMoney também descreveu um acordo “governo a governo” de fornecimento de longo prazo de Itaipu, mas o tipo de documento não aparece em nenhuma fonte primária.

Alegações ainda não confirmadas

Alegação Quem afirma
Energia a US$ 48 por MWh, com reajuste de 2,5% ao ano ABC Color, citando fontes da ANDE, via InfoMoney
Proposta de US$ 45 por MWh Alejandro Zuccolillo, da Araico, ao ABC Color
Fornecimento inicial de 6 MW no primeiro ano Sindicato dos trabalhadores da ANDE
Investimento de US$ 12 bilhões Plano anterior da Araico para Yguazú, citado pelo Data Center Dynamics; não confirmado para este projeto
Acordo "governo a governo" de fornecimento InfoMoney; documento não identificado

Onde as fontes divergem

Parte da cobertura fala em “maior investimento privado” da história do Paraguai; a frase de Landau, no comunicado, é “potencialmente o maior investimento privado estrangeiro”. Sobre o valor, a Crusoe e a agência EFE dizem que não foi divulgado, enquanto o número de US$ 12 bilhões vem do plano antigo da Araico. Sobre a potência, os 106 megawatts são o caminho descrito pela Crusoe, e o sindicato da ANDE fala em 6 megawatts no começo. Sobre o local, a Crusoe diz “junto à subestação de Itaipu”, e parte da imprensa associa o projeto ao campus da Araico em Yguazú. Até a data da visita aparece como “terça” em alguns textos; 21 de outubro de 2026 caiu numa quarta-feira.

O que acompanhar

Para o leitor brasileiro, nada muda hoje na conta de luz: não há contrato de energia público, e o Anexo C segue sem conclusão. Os próximos sinais concretos são três: a divulgação de um contrato de fornecimento entre a ANDE e as empresas, com preço e volume; a eventual manifestação do governo brasileiro; e a nova tarifa de Itaipu para 2027, que o lado brasileiro espera anunciar até dezembro.

O anúncio de outubro mostra que a energia de Itaipu passou a interessar diretamente à corrida mundial por infraestrutura de inteligência artificial. Quanto dessa energia vai para servidores no Paraguai, a que preço e com que efeito sobre o excedente vendido ao Brasil são perguntas que os documentos públicos ainda não respondem.

Fontes: 1 · 2 · 3 · 4 · 5 · 6 · 7 · 8 · 9 · 10 · 11 · 12 · 13 · 14

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