Ucrânia e a guerra moderna: da limitação nasceu a genialidade
Matéria narrada pelo Professor
Quatro anos e meio depois da invasão em grande escala, a Ucrânia não venceu a guerra — mas reescreveu o manual dela. Sem homens de sobra, sem mísseis americanos suficientes e com o maior exército da Europa do outro lado, o país transformou drones de hélice de plástico em moeda de guerra, fabricou um míssil de cruzeiro numa fábrica de amigos sem passado militar, sitiou a Crimeia sem pisar nela e passou a ensinar aliados da OTAN a se defender. Este Aprofundamento mostra como a escassez virou método, o que isso já produziu de concreto e onde termina o fato e começa o cenário.
Há um ditado que resume o que aconteceu com a Ucrânia desde fevereiro de 2022: a limitação é o pavio da genialidade. Quando não sobra opção, a única opção é a eficiência máxima. O que se segue não é um elogio; é um inventário. Cada item abaixo tem fonte no rodapé, e o que é interpretação ou cenário está dito como tal.
O contexto: o arsenal americano secou em outro front
A limitação não foi escolhida. Em fevereiro de 2026, os Estados Unidos entraram em guerra com o Irã, e o consumo de interceptadores de defesa aérea foi tão intenso que, segundo estimativas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) citadas pela Rádio Europa Livre, o estoque americano de mísseis Patriot PAC-3 MSE caiu de mais de 2.300 para cerca de 800. O próprio CSIS calcula que a produção precisaria subir das 600 unidades anuais atuais para 2.000 até 2030 só para recompor o que foi gasto — com prazos de fabricação que passam de três anos.
A Ucrânia sentiu na pele. Em agosto de 2026, Volodymyr Zelensky declarou que o país recebeu apenas um terço dos interceptadores que havia recebido no mesmo período de 2025. “Nossos parceiros têm os mísseis. O que falta são as decisões políticas”, disse. Antes disso, ele já havia resumido a lógica em uma frase: cada Patriot disparado no Oriente Médio é um a menos que a Ucrânia pode obter. Washington não abandonou Kiev — mas passou a guardar para si o que antes enviava. É desse vácuo que nasce o resto desta história.
O drone como moeda: a guerra que conta pontos
A resposta ucraniana à escassez de homens e de mísseis caros foi industrializar o barato. Milhares de drones de primeira pessoa — quadricópteros de hélice de plástico carregando explosivo capaz de perfurar blindagem — passaram a fazer o que tanques de milhões de dólares faziam, por uma fração do custo. E o país deu a isso uma contabilidade.
O sistema chama-se ePoints (ou “eBaly”), operado pelo Brave1, o polo estatal de tecnologia de defesa: cada unidade ganha pontos por resultado confirmado em vídeo — soldado, blindado, tanque, operador de drone inimigo, cada um com valor diferente —, e gasta os pontos numa loja de guerra, o Brave1 Market, comprando drones, guerra eletrônica e robôs terrestres. Segundo o Kyiv Independent, em abril de 2026 cerca de 95% das unidades de drones já estavam no programa, e desde o início do ano haviam encomendado 14 bilhões de hryvnias em equipamento, com mais de 181 mil itens entregues ao front. A confirmação passa pelo sistema de gestão de campo Delta; o fornecedor recebe até 70% adiantado e entrega em cerca de dez dias.
O drone virou, literalmente, contador de abate. Cada alvo atingido vira crédito, e o crédito vira mais drones. O ciclo se alimenta. Críticos chamam isso de gamificação da morte, e a CBC canadense dedicou um programa ao desconforto que a ideia provoca. Na análise do Professor, o desconforto é legítimo e a eficácia também: pela primeira vez, um exército conectou o desempenho tático de cada pequena unidade diretamente ao seu abastecimento, sem passar pela burocracia central. Nenhuma outra força armada do mundo opera assim.
O Flamingo: um míssil feito por quem não sabia que não podia
O segundo produto da limitação foi o FP-5 Flamingo, míssil de cruzeiro da startup Fire Point — fundada, segundo a Wikipédia e a imprensa ucraniana, por um grupo de amigos vindos da construção civil, do design de jogos e da arquitetura, sem passado militar. Revelado em agosto de 2025, o Flamingo tem alcance declarado de até 3.000 quilômetros e ogiva de até 1.100 quilos, voa baixo e se guia por navegação inercial com apoio de satélite.
Os números de combate, compilados pelo analista independente do boletim Missile Matters, são mais modestos que o folheto e por isso mesmo mais interessantes: dez operações de ataque confirmadas entre agosto de 2025 e junho de 2026, começando por um posto do serviço de segurança russo em Armiansk, na Crimeia, e migrando em 2026 para o interior profundo da Rússia. Na maior parte das operações, no máximo um míssil acertou; em junho de 2026, numa fábrica de armamentos em Volgogrado, três de cinco atingiram o alvo — o melhor resultado até então. A produção real, avalia o boletim, fica em três a cinco mísseis por operação, bem abaixo das 210 unidades mensais que a fabricante prometia.
Em 10 de junho de 2026, Zelensky anunciou que “os Flamingos ucranianos atingiram uma fábrica militar em Cheboksary que fornece componentes de drones e mísseis ao exército ocupante” — a cerca de mil quilômetros da fronteira. É o dado que importa: um país sob embargo de mísseis passou a fabricar o próprio e a usá-lo. Que ele ainda erre mais do que acerta é informação, não desmentido.
A Crimeia sitiada sem invasão
O terceiro produto é uma tática, não uma arma. Em vez de tentar retomar a Crimeia — anexada por Moscou em 2014 — a Ucrânia decidiu torná-la inútil como base. O Atlantic Council descreveu, no fim de junho de 2026, um bloqueio conduzido por drones de médio alcance contra as rotas de acesso à península e contra a ponte terrestre pelo sul ocupado: a venda de gasolina a civis parou por completo no fim de junho, postos de regiões russas vizinhas passaram a recusar carros com placa da Crimeia, cortes de energia viraram rotina e as reservas turísticas de junho caíram 79%. A Al Jazeera registrou a suspensão das vendas de combustível em 22 de junho, e a CNN noticiou a decretação de estado de emergência na península no dia 26.
O efeito militar foi descrito pelo Instituto para o Estudo da Guerra, citado pela agência ucraniana UNN em 27 de junho: turistas, funcionários da ocupação e militares e agentes de segurança ligados à Frota do Mar Negro estão deixando a Crimeia. O Atlantic Council lembra que Putin já havia retirado discretamente o que restava da frota da península depois dos ataques navais ucranianos anteriores. A United24 Media, veículo do governo ucraniano, publicou o que apresentou como documentos vazados com planos de evacuação de famílias da frota.
Aqui é preciso ser exato. Não há, até o fechamento deste texto, confirmação independente de uma retirada militar em massa da Crimeia. O que está documentado é um êxodo de pessoal, uma frota que já saiu, planos de evacuação de origem ucraniana e uma crise de abastecimento real. Na análise do Professor, a diferença entre “sitiada” e “abandonada” é a diferença entre o que a Ucrânia já conseguiu e o que ela está tentando conseguir — e vale a pena não confundir as duas.
As sanções de longo alcance: refinarias e depósitos
A mesma lógica foi levada para dentro da Rússia. Em 2026, drones ucranianos atingiram refinarias em Moscou, Slaviansk, Iaroslavl e no complexo petroquímico de Salavat, no Bashkortostão, a mais de mil quilômetros do front. E a partir de 18 de julho de 2026 a campanha ganhou um alvo inédito: o comércio eletrônico. Segundo a Meduza, veículo russo independente, drones atingiram 23 armazéns da Wildberries, a maior varejista online da Rússia, destruindo cerca de 40% de sua área de estocagem, com pelo menos 14 mortos; cinco semanas depois, entre 22 e 24 de agosto, foi a vez da concorrente Ozon, que perdeu cerca de 233 mil metros quadrados e viu suas ações caírem 28%. O Ministério da Defesa ucraniano chama a campanha de “sanções de longo alcance”: “ataques sistemáticos a centros de armazenagem de bens de uso dual complicam a logística inimiga e afetam negativamente a economia russa como um todo”.
O Professor vê nisso a ruptura mais profunda com a guerra do século XX: a fronteira entre alvo militar e alvo econômico deixou de ser geográfica. A Rússia bombardeia a rede elétrica ucraniana há três invernos; a Ucrânia responde atingindo o que a economia russa de consumo tem de mais visível. É uma escalada, e é uma escalada que a Ucrânia só pode sustentar porque o instrumento é barato.
De aluno a consultor
O quarto produto é o mais inesperado. Em 29 de agosto de 2026, o ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, anunciou que Mykhailo Fedorov, ex-ministro da Defesa da Ucrânia, aceitou ser seu conselheiro para inovação em defesa — drones, sistemas não tripulados, defesa aérea e o ecossistema de tecnologia militar. “A Ucrânia e nossa equipe têm experiência única, do mundo real, em guerra de alta tecnologia, que estamos ansiosos para compartilhar com os aliados”, disse Fedorov. Segundo o jornal La Voce di New York, a consultoria é pessoal, não remunerada e vale até julho do ano que vem. Fedorov foi o ministro que expandiu o sistema de pontos descrito acima; é ele, e não um general, quem a Itália quis ouvir.
Não é um caso isolado: o Flamingo foi exibido numa feira de defesa na Turquia como modelo possível de ataque profundo para a OTAN, e o primeiro-ministro da Noruega viajou à Ucrânia para conhecer o uso de drones em campo. O país que pedia mísseis passou a exportar método.
Onde termina o fato
Resta o cenário, e ele deve ser rotulado como cenário. Que a pressão sobre o Kremlin cresce é reportado: o Guardian descreveu em maio de 2026 uma frustração crescente entre as elites russas, e a NBC registrou, em junho, blogueiros militares pró-guerra cobrando do Kremlin uma resposta ao “isolamento” da Crimeia — um deles chegou a falar em motim. Que Putin esteja “encurralado” e tema pela própria vida é interpretação, não fato: ninguém de fora do círculo dele sabe o que ele teme, e a história russa recente ensina que a maioria dos líderes morre no cargo, como lembrou uma análise do The Conversation.
O que se pode afirmar é mais sóbrio e talvez mais grave para Moscou. A Ucrânia não está vencendo por força. Está vencendo por taxa de troca: um drone de centenas de dólares contra um tanque de milhões; um míssil artesanal contra uma fábrica de componentes; um armazém de varejo contra um inverno de apagões. Enquanto a Rússia precisa de resultados no front e de segurança em casa, a Ucrânia precisa apenas que a conta continue não fechando para o adversário. Da limitação, a Ucrânia fez um método. Se o método basta para terminar a guerra, ninguém sabe. Que ele já mudou a guerra, isso está documentado.
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