Doomscrolling e fim de comércio em Shibuya expõem mudanças comportamentais
Capítulo 12 do Tecnologia em Perspectiva
Clique aqui para conferir a edição completa
O fechamento da tradicional loja de departamentos Seibu Shibuya, previsto para setembro de 2026 após quase sessenta anos, e da Hands Shibuya, antiga Tokyu Hands, em novembro do mesmo ano, marca o fim de uma era no famoso distrito de Tóquio. O fenômeno dialoga diretamente com a tese apresentada pelo autor James Marriott no livro *The New Dark Ages*, que alerta sobre como o consumo acelerado de mídias curtas — o chamado *doomscrolling* — vem corroendo a capacidade de atenção prolongada. Na análise do Professor, a decadência dessas megastores não é um mero declínio comercial, mas a tradução urbana de uma crise cognitiva: cérebros habituados a micro-recompensas de dopamina a cada dois ou três segundos consideram neurologicamente exaustiva a navegação analógica por prateleiras densas e múltiplos andares.
Paralelamente, a projeção de que o e-commerce global atinja cinco trilhões e meio de dólares em 2027 evidencia uma polarização aguda do varejo. Enquanto a aquisição puramente funcional migra para a conveniência do ambiente digital e das plataformas online, os espaços físicos que prosperam — como estabelecimentos focados na alta sofisticação em Shinjuku ou o modelo da loja Shibuya PARCO — o fazem ao entregar entretenimento espetacularizado e experiências multissensoriais exclusivas. Como o acesso contínuo a feeds inesgotáveis atua como um alimento ultraprocessado no cérebro, gerando intolerância a processos de aprendizado e descoberta lentos, o comércio tradicional de produtos perde espaço se não se converter em evento.
O cenário aponta para dois caminhos possíveis para a identidade cultural das metrópoles. De um lado, áreas históricas correm o risco de se tornarem polos de entretenimento genéricos e desprovidos de sua essência subcultural orgânica. De outro, o Professor vê como viável o surgimento de subculturas voltadas ao "consumo slow", nas quais espaços físicos silenciosos, lentos e propositalmente livres de telas ou tecnologias interativas passem a figurar como o novo artigo de luxo e um refúgio contra a saturação algorítmica.





