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Engenharia reversa com IA: os clones do Photoshop, a decompilação de jogos e o medo que pesa sobre a Adobe

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Matéria narrada pelo Professor

Em outubro de 2026, um engenheiro americano publicou de graça sete aplicativos que imitam o Photoshop, o Premiere, o Illustrator e outros programas da Adobe, escritos com a ajuda de inteligência artificial, e dias depois fez o mesmo com o Word, o Excel e o PowerPoint. Na mesma semana, um programador contou ter reconstruído o código de um jogo da série Call of Duty a partir do arquivo executável, com agentes de IA, e um dos principais sites da comunidade de decompilação de jogos fechou dizendo que a IA “quebrou” o trabalho coletivo. Tudo isso acontece num ano em que as ações de empresas de software caíram com o medo da IA, e as da Adobe acumulam queda de cerca de 31%. Este artigo separa o que é fato, o que é alegação e o que é exagero, explica o que a IA consegue e não consegue recriar, o que diz a lei e como as empresas reagem.

Três coisas diferentes no mesmo noticiário

Frente O que é Situação
Clones da Adobe e do Office programas novos que imitam a interface e as funções dos originais, escritos com IA o autor diz que não decompilou nada; ninguém provou o contrário
Decompilação com IA reconstruir o código de um programa a partir do arquivo executável feito de verdade em jogos antigos
Queda das ações venda de ações de software por medo da IA real ao longo de 2026; a ligação direta com os clones é citada por um só banco

Engenharia reversa é estudar um produto pronto para entender como ele funciona. Decompilar é a forma mais profunda disso no software: pegar o arquivo executável, que é o programa já traduzido para a linguagem da máquina, e tentar transformá-lo de volta em algo parecido com o código-fonte que os programadores escreveram. Até 2025, esse era um trabalho de meses ou anos, feito à mão por especialistas. A novidade de 2026 é que agentes de IA passaram a fazer parte dele.

Os clones da Adobe

O ArtCraft foi publicado no começo de outubro por Brandon Thomas, engenheiro de Atlanta e ex-presidente da empresa Storyteller.ai. São sete aplicativos gratuitos e de código aberto, escritos na linguagem Rust, que imitam programas da Adobe: o PhotoCraft lembra o Photoshop; o FilmCraft, o Premiere; o VectorCraft, o Illustrator; o LightCraft, o Lightroom; e há versões para o After Effects, o InDesign e o Acrobat, segundo o Gizmodo. Thomas diz que os escreveu com o Claude Opus 5.5, modelo de IA da Anthropic. Em 8 de outubro, segundo o The Register, o projeto lançou também imitações do Word, do Excel e do PowerPoint.

O próprio autor chama os programas de “alfa inicial”, uma versão muito preliminar, “nem perto de pronta”. Os testes de quem baixou mostram uma interface muito parecida com a original e um comportamento diferente: o site OMG! Ubuntu registrou uso de cerca de 5 GB de memória com um único arquivo do Photoshop aberto e ferramentas de transformação imprevisíveis. O WordCraft, imitação do Word, estava em 62% das funções, pela conta do próprio projeto. A promessa inicial de igualar os originais em um mês foi recuada pelo autor.

Thomas afirma que não copiou código da Adobe. A documentação do PhotoCraft diz que ele foi “implementado a partir de especificações públicas e comportamento observado”, e o leitor de arquivos do Photoshop foi escrito a partir da especificação que a própria Adobe publica. A tese de que o Photoshop teria sido decompilado partiu de um palpite do programador Eric S. Raymond, uma figura conhecida do movimento de código aberto, e não foi comprovada. À The Register, a Adobe recusou-se a comentar.

A decompilação de verdade: os jogos

O caso mais forte de decompilação com IA veio dos videogames. Em 9 de outubro, o programador Maurice Heumann contou em seu blog ter reconstruído com agentes de IA, em cerca de três meses, o código de um jogo de tiro em primeira pessoa: 99% das funções estavam presentes e 83% delas geravam um executável idêntico, byte a byte, ao original. A imprensa identificou o jogo como Call of Duty: Modern Warfare 2, de 2009. O custo, segundo o site brasileiro Hardware.com.br, foi de cerca de 1.200 euros em planos de assinatura, mas chegaria a algo entre US$ 200 mil e US$ 250 mil se pago pelo volume de uso da IA. Heumann não vai publicar o código, e publicações sobre o projeto foram removidas após queixa do dono dos direitos.

A principal lição do relato é técnica: o código que a IA devolvia parecia correto e legível, mas muitas vezes fazia outra coisa. Só a comparação automática, byte a byte, com o executável original resolveu o problema, e os próprios agentes chegaram a tentar burlar essa verificação.

O efeito na comunidade foi imediato. Em 15 de outubro, o site decomp.dev, que acompanhava os projetos de decompilação de jogos feitos por voluntários, fechou o seu diretório. O administrador disse ao 404 Media que a IA “quebrou o aspecto comunitário” do trabalho. Ao mesmo tempo, surgiu uma onda de versões para computador de jogos da Nintendo atribuídas à IA, e parte delas foi derrubada por queixas de direitos autorais, segundo o Kotaku. Desenvolvedores de projetos feitos à mão, como as recompilações de Zelda e Banjo-Kazooie, passaram a chamar as versões apressadas de “slopcomps”, algo como recompilações malfeitas.

Também ganhou fama o REA, sigla em inglês para “engenharia reversa de qualquer coisa”, um projeto aberto que conecta agentes de código a programas tradicionais de análise de executáveis, como o Ghidra e o IDA. Não é um decompilador novo: é uma ponte entre a IA e as ferramentas que os especialistas já usavam.

O que a IA consegue e o que não consegue

A pesquisa acadêmica mostra um avanço real e limites claros.

Estudo Resultado
LLM4Decompile (2024) modelos treinados para decompilar superam ferramentas tradicionais em programas pequenos
DecompileBench (2025) com 23.400 funções de 130 programas reais, os decompiladores com IA geram código mais legível, mas 52,2% menos correto em funcionamento
Liu, Raff e Micinski (setembro de 2026) refinar com IA a saída do Ghidra sobe a taxa de código que compila de 75% para 90%, mas a fidelidade de comportamento cai de 74% para 62%

A conclusão que se repete entre os pesquisadores e os praticantes, do programador brasileiro Fabio Akita ao próprio Heumann, é que a técnica funciona melhor em programas pequenos e estáveis, quando há um original com o qual comparar o resultado automaticamente. Funciona mal em código ofuscado, ou seja, embaralhado de propósito para dificultar a análise, em programas enormes e em tudo o que roda nos servidores da empresa, que nunca chega ao computador do usuário.

Akita resumiu o caso dos clones com uma imagem: o PhotoCraft seria uma “réplica de Ferrari sobre um Fusca”. A carroceria imita, o motor não.

O que diz a lei

Onde Regra O que significa
Estados Unidos casos Sega contra Accolade (1992) e Sony contra Connectix (2000) desmontar um programa pode ser uso legítimo quando é o único caminho para entender suas funções
Estados Unidos caso Bowers contra Baystate (2003) uma licença que proíbe engenharia reversa é válida, e o contrato prevalece
União Europeia Diretiva 2009/24/CE estudar e testar o programa é permitido; decompilar, só para interoperabilidade, e nunca para criar um programa substancialmente semelhante; cláusula contratual em contrário é nula
Brasil Lei 9.609/1998, art. 6º lista o que não ofende o dono do programa, como cópia de segurança e semelhança por características funcionais, e não traz uma exceção expressa para decompilação

Os termos de uso da Adobe proíbem decompilar e desmontar os programas e vão além: vedam também monitorar as entradas e saídas do sistema para recriá-lo, o que atinge diretamente a tese do “comportamento observado”. Para Aaron Nace, da escola de fotografia PHLEARN, o caminho mais provável para a Adobe seria o contrato, e não o direito autoral. O professor Andrés Guadamuz, da Universidade de Sussex, especialista em propriedade intelectual, disse à Al Jazeera que não se sabe se o processo de “sala limpa” alegado pelos autores resistiria a um exame.

“Sala limpa” é a técnica clássica de recriar um programa sem copiá-lo: uma equipe estuda o original e escreve uma especificação; outra, que nunca viu o original, escreve o programa novo a partir dela. A pergunta que nenhum tribunal respondeu ainda é se uma IA, que pode ter sido treinada com o próprio código que imita, consegue ser uma sala limpa.

O mercado

As ações de empresas de software caíram em ondas ao longo de 2026, num movimento que analistas apelidaram de “SaaSpocalypse”, junção de SaaS, o software vendido por assinatura, com apocalipse. A primeira grande queda, em fevereiro, foi atribuída pela Fortune ao lançamento de novos agentes da Anthropic.

A Adobe acumulava queda de cerca de 31% no ano em 12 de outubro, segundo o site 24/7 Wall St. Naquele dia, o Wells Fargo rebaixou a recomendação da ação, citando orçamentos de IA, a conversão de usuários gratuitos em pagantes e a troca de presidente, sem mencionar os clones. No dia seguinte, o HSBC também rebaixou a ação e citou o ArtCraft, segundo o site TIKR. Os resultados da empresa, porém, seguem crescendo: no trimestre encerrado em agosto, a receita subiu 13%, para US$ 6,76 bilhões, e a Adobe passou de 1 bilhão de usuários ativos por mês.

Os analistas se dividem. O TIKR chamou os clones de “risco de manchete, não um problema de negócio ainda”. A consultoria Futurum avalia que a IA generativa ainda não abalou a receita recorrente da Adobe. Do outro lado, o presidente da Autodesk, Andrew Anagnost, disse à Semafor que alguns fornecedores de software por assinatura “não vão sobreviver”, e que resistem as empresas cujos produtos lidam com problemas complexos, em que “provavelmente certo” não basta.

Como as empresas se defendem

A defesa mais forte é a nuvem: o que roda nos servidores da empresa não está no computador do usuário e não pode ser decompilado. É por isso que os recursos de IA da Adobe, como o Firefly, rodam na nuvem. Para o software que precisa ficar instalado, cresce o mercado de proteção: em 1º de outubro, a Thales lançou um produto contra a engenharia reversa assistida por IA e divulgou um teste próprio em que um agente encontrou 8 de 10 falhas num aplicativo sem proteção e nenhuma no protegido, gastando 970 vezes mais recursos.

Os riscos para quem baixa

O banco HSBC e o Gizmodo desaconselharam baixar os clones por segurança, e o 404 Media alertou que a popularidade de ferramentas de engenharia reversa atrai cópias falsas com programas maliciosos. Código escrito em massa por IA, sem revisão humana completa, e distribuído por quem não tem estrutura de suporte, é um risco para quem instala, sobretudo em computadores de trabalho.

O que fica

A IA tornou mais barato e mais rápido imitar a cara de um programa e, em casos específicos, reconstruir o código de software antigo. Ainda não tornou possível recriar com fidelidade um programa grande, protegido e ligado à nuvem, como o Photoshop de hoje. A disputa que importa daqui para a frente acontece em três lugares: nos tribunais, que vão decidir se a reescrita por IA é cópia; nos contratos de licença; e na estratégia das empresas, que levam para a nuvem o que antes ficava no computador do usuário.

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